Quetiapina associada ao antidepressivo: quando é considerada na depressão?
Postado em: 07/10/2026
Receber uma prescrição de quetiapina pode causar estranhamento quando o tratamento é para depressão: por que usar um medicamento classificado como antipsicótico? A quetiapina também pode ser acrescentada ao antidepressivo para tratar sintomas depressivos que ainda não melhoraram o suficiente. Essa indicação, por si só, não significa que a pessoa tenha psicose.1
Aqui, o assunto é a associação na depressão unipolar, que não faz parte do transtorno bipolar. O uso da quetiapina na bipolaridade envolve outras decisões.
Por que acrescentar um medicamento
Associar significa manter o antidepressivo e acrescentar outro medicamento ao plano. Pode fazer sentido quando houve melhora parcial e o tratamento atual é bem tolerado: o objetivo é melhorar os sintomas que persistem, mantendo um medicamento que já ajudou. Se não houve benefício ou os efeitos estão difíceis de suportar, a troca pode ser mais apropriada.2
Antes dessa decisão, o psiquiatra revê o tempo e a forma de uso, as dificuldades para seguir a prescrição, os sintomas que persistem e o diagnóstico. A história de fases de mania ou hipomania também importa, porque muda a compreensão da depressão. Uma tentativa com resultado insuficiente não basta, isoladamente, para concluir que há depressão resistente.2
O guia antidepressivo não está funcionando explica essa avaliação mais ampla.
Quanto a associação ajudou nos estudos
Dois ensaios avaliaram quetiapina de liberação prolongada, ou XR, acrescentada ao antidepressivo. O grupo de comparação continuou o antidepressivo e recebeu placebo. Portanto, não era uma comparação com pessoas sem tratamento.3,4
No ensaio de Bauer e colaboradores, com 493 adultos, foram estudadas duas doses de quetiapina XR. Em seis semanas, ambas produziram redução média dos sintomas maior que a observada com placebo. Os pesquisadores também avaliaram a resposta, uma redução de pelo menos metade da pontuação de depressão, e a remissão, quando os sintomas chegaram a um nível mínimo segundo a escala utilizada.3
Com a menor dose estudada, aproximadamente 55% tiveram resposta e 36% alcançaram remissão. Com a maior, foram 58% e 31%, respectivamente. No grupo placebo, 46% tiveram resposta e 24% alcançaram remissão. A diferença em relação ao placebo foi estatisticamente significativa para remissão com a menor dose, mas não para resposta; com a maior dose, ocorreu o inverso. Entre 7% e 12% interromperam a quetiapina por efeitos adversos, comparados a cerca de 4% com placebo.3
No segundo ensaio, com 446 participantes, também foram comparadas duas doses. Na sexta semana, o grupo que recebeu a maior dose alcançou 59% de resposta e 43% de remissão, contra 46% e 25% com placebo. Com a menor dose, não houve diferença significativa em relação ao placebo na principal medida do estudo: a redução média da pontuação de sintomas depressivos. No grupo da maior dose, aproximadamente 20% interromperam por efeitos adversos, contra 1% com placebo.4
Nesse segundo estudo, portanto, cerca de 41 em cada 100 participantes do grupo da maior dose não atingiram o critério de resposta. Isso não significa necessariamente ausência de qualquer melhora. E resposta e remissão não devem ser somadas: são medidas diferentes que podem incluir as mesmas pessoas. Os ensaios demonstram possibilidade de benefício adicional em curto prazo; não determinam o resultado de uma pessoa nem quanto tempo ela precisará da associação.4
Dormir melhor é suficiente para dizer que funcionou?
A quetiapina pode causar sonolência, e esse efeito precisa ser distinguido da melhora da depressão. Para avaliar a associação, é preciso observar o que mudou nos sintomas depressivos e nas atividades cotidianas, além do sono.1,2
Considere uma situação ilustrativa: a pessoa passa a dormir sem tantos despertares, mas continua sem interesse pelas atividades e fica sonolenta a ponto de perder compromissos pela manhã. Dizer apenas “estou dormindo melhor” não permite avaliar o conjunto.
A tabela reúne exemplos ilustrativos de informações úteis para o retorno:
| O que estamos tentando melhorar | O que está atrapalhando | O que levar ao retorno |
|---|---|---|
| Falta de interesse em conversar ou sair de casa | Sonolência que impede sair no horário | Se o interesse mudou e em quais momentos a sonolência interfere |
| Dificuldade de começar e concluir tarefas | Tontura ao levantar | Quais tarefas voltaram a ser possíveis e quando a tontura aparece |
| Sofrimento depressivo que persiste apesar da melhora inicial | Aumento do apetite ou do peso | O que melhorou, o que permaneceu e as mudanças percebidas desde a associação |
Sonolência, tontura, boca seca e aumento de peso estão entre os efeitos possíveis. Se estiver sonolento ou tonto, não dirija nem opere máquinas. Efeitos que prejudicam a rotina devem ser comunicados; não é necessário esperar que se tornem insuportáveis para pedir orientação.5
Formulação e saúde física também entram no acompanhamento
Liberação imediata e prolongada são apresentações diferentes da quetiapina. A evidência dos dois ensaios descritos é da formulação XR; não permite presumir o mesmo resultado para qualquer apresentação ou modo de uso. Confirme qual foi prescrita e não troque formulação, dose ou horário por conta própria.1
A avaliação da saúde física começa antes da associação e continua durante o tratamento. Inclui peso, pressão arterial, glicose e gorduras no sangue, conforme a avaliação clínica. Algumas alterações metabólicas podem aparecer sem causar um incômodo perceptível, por isso sentir-se bem não substitui esse acompanhamento. O histórico cardiovascular, outros medicamentos e resultados anteriores ajudam a definir exames adicionais e a frequência das avaliações.1,6
Informe também o uso de álcool, suplementos e outros medicamentos. Essa lista permite conferir interações e efeitos somados, como sedação. Se houver necessidade de interromper a quetiapina, a retirada deve ser planejada com o prescritor.5
Reações graves são incomuns, mas dificuldade para respirar, inchaço de língua ou garganta, ou febre alta acompanhada de rigidez e confusão exigem atendimento imediato. Pensamentos de autoagressão precisam ser comunicados prontamente; diante de risco imediato, procure emergência. No Brasil, o SAMU atende pelo 192.1,5,7
Antes de sair da consulta, vale esclarecer: “Qual sintoma queremos melhorar com a associação?”, “Quando vamos avaliar o resultado?” e “Que efeito deve me fazer entrar em contato antes do retorno?”
Referências
- Food and Drug Administration. Seroquel XR: prescribing information [Internet]. 2025 [citado 7 out 2026].
- Lam RW, Kennedy SH, Adams C, Bahji A, Beaulieu S, Bhat V, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641–687. doi:10.1177/07067437241245384.
- Bauer M, Pretorius HW, Constant EL, Earley WR, Szamosi J, Brecher M. Extended-release quetiapine as adjunct to an antidepressant in patients with major depressive disorder: results of a randomized, placebo-controlled, double-blind study. J Clin Psychiatry. 2009;70(4):540–549. doi:10.4088/JCP.08m04629.
- El-Khalili N, Joyce M, Atkinson S, Buynak RJ, Datto C, Lindgren P, et al. Extended-release quetiapine fumarate (quetiapine XR) as adjunctive therapy in major depressive disorder (MDD) in patients with an inadequate response to ongoing antidepressant treatment: a multicentre, randomized, double-blind, placebo-controlled study. Int J Neuropsychopharmacol. 2010;13(7):917–932. doi:10.1017/S1461145710000015.
- National Health Service. Quetiapine [Internet]. [citado 7 out 2026].
- National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NG222 [Internet]. 2022 [citado 7 out 2026].
- Brasil. Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — SAMU 192 [Internet]. [citado 7 out 2026].
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.