Venlafaxina na depressão: o que esperar do tratamento e do acompanhamento
Postado em: 07/10/2026
A venlafaxina é um antidepressivo usado no tratamento da depressão, inclusive quando há ansiedade associada. Ela pertence ao grupo dos inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina, conhecidos pela sigla IRSN: modifica a ação desses mensageiros na comunicação entre células nervosas.1
Quando ela é iniciada ou substitui outro antidepressivo, vale acompanhar duas coisas separadamente: o que está melhorando na depressão e quais efeitos estão tornando o tratamento mais difícil. A comparação entre consultas ajuda o psiquiatra a decidir se o plano deve continuar como está ou ser revisto.
O que observar nas primeiras semanas
O benefício completo pode levar várias semanas. Nos primeiros dias, a pessoa pode perceber algum efeito indesejado antes de notar melhora; a ausência de benefício imediato não define falha do medicamento.2
Sono, apetite ou concentração podem mudar antes do humor.3 Por isso, uma impressão geral como “ainda estou deprimido” pode ser detalhada: a tristeza continua com a mesma intensidade? Está menos difícil acompanhar uma conversa? As tarefas exigem o mesmo esforço de antes?
Considere uma situação ilustrativa: depois de iniciar o tratamento, alguém volta a preparar as refeições, mas ainda evita conversar e não sente prazer ao comer. Não é preciso escolher entre dizer que “funcionou” ou “não funcionou” quando o resultado ainda é parcial.
Combine com o prescritor quando será o retorno e como comunicar dificuldades antes dele. Uma piora importante não deve ser tratada simplesmente como adaptação. O artigo sobre quanto tempo o antidepressivo demora para fazer efeito aprofunda a avaliação ao longo das semanas.
O que aconteceu quando a venlafaxina foi usada após outro antidepressivo
No estudo STAR*D, 727 adultos com depressão maior sem sintomas psicóticos não haviam alcançado remissão — sintomas reduzidos a um nível mínimo — com citalopram ou não o toleraram. Foram distribuídos entre três opções de troca: venlafaxina XR, sertralina e bupropiona SR, por até 14 semanas.4
Entre os 250 participantes destinados à venlafaxina, 25% alcançaram remissão segundo o questionário preenchido pelo paciente — aproximadamente um em quatro. Pelo mesmo instrumento, 28,2% atingiram resposta, definida como redução de pelo menos metade da pontuação de sintomas; 71,8% não atingiram esse critério. Não atingir resposta não significa necessariamente não ter melhorado nada.4
Não houve diferença estatisticamente significativa entre os três medicamentos nas principais medidas de melhora avaliadas. Assim, mudar para uma classe diferente não assegurou um resultado superior nesse estudo. Esses números descrevem uma etapa de troca após citalopram, não todas as pessoas que começam venlafaxina. Resposta e remissão podem incluir as mesmas pessoas; por isso, os percentuais não devem ser somados.4
Efeitos que merecem ser relatados
Náusea, alterações intestinais, boca seca, tontura, sonolência ou dificuldade para dormir podem aparecer durante o uso. Algumas pessoas percebem redução do desejo sexual ou outras dificuldades na vida sexual. Parte dos efeitos diminui com a adaptação, mas um efeito persistente ou que atrapalha a rotina merece avaliação.5
Em vez de relatar apenas “estou com enjoo”, tente explicar quando começou, com que frequência ocorre e se está impedindo comer ou tomar o medicamento como prescrito. Se houver alteração sexual, conte o que mudou em relação a antes do tratamento. A própria depressão também pode afetar a vida sexual, e essa sequência ajuda a investigar o problema.3,5
A pressão arterial precisa de atenção específica. A venlafaxina pode elevá-la em algumas pessoas. Hipertensão prévia deve estar controlada. Leve à consulta os resultados de medidas já realizadas e peça orientação sobre quando medir a pressão e como agir se houver uma alteração.1
A bula brasileira consultada orienta não dirigir veículos nem operar máquinas durante o tratamento.1 Informe também ao médico se já teve mania ou hipomania. Durante o tratamento, uma mudança marcante de comportamento, com agitação ou aceleração incomum, pede contato com o profissional; não é possível classificá-la apenas como sinal de recuperação.1,2
Reações alérgicas com dificuldade para respirar, ou febre com confusão, agitação e rigidez muscular, exigem avaliação urgente. Pensamentos de autoagressão precisam ser comunicados prontamente. Se houver risco imediato, procure emergência; o SAMU atende pelo 192.2,6
Venlafaxina e álcool
A bula brasileira consultada orienta não consumir álcool durante o tratamento. A combinação pode aumentar efeitos sobre o sistema nervoso e contribuir para piora do quadro psiquiátrico. Pular doses para beber não é uma alternativa segura.1
Informe ao prescritor se consome álcool e com que frequência, além dos medicamentos, suplementos e produtos sem receita que utiliza. Algumas combinações aumentam o risco de sangramento; outras podem provocar excesso de ação da serotonina, com reações como agitação, febre e rigidez muscular. A lista permite ao prescritor conferir quais associações exigem cuidado e como acompanhá-las.1,5 A discussão mais ampla está em antidepressivo e álcool.
Por que a retirada precisa ser planejada
Interromper abruptamente, reduzir sem orientação ou deixar doses de lado pode causar sintomas de retirada, como tontura, náusea, irritabilidade e sensações de choque. A venlafaxina está entre os antidepressivos que exigem cuidado especial nessa etapa. A redução é planejada com o prescritor e ajustada conforme a reação da pessoa.7
Se esses sintomas começarem após uma interrupção, conte a relação temporal ao prescritor: isso ajuda a diferenciá-los do retorno da depressão. Melhorar também não significa que chegou automaticamente o momento de parar. Veja por quanto tempo continuar o antidepressivo.7
Confira o nome e a apresentação na embalagem. Venlafaxina e desvenlafaxina são medicamentos diferentes; não faça substituições por semelhança de nome. As orientações de uso também precisam corresponder à formulação prescrita, inclusive quando se trata de liberação prolongada.1
Para preparar o retorno, uma anotação breve pode reunir as informações que tendem a se perder na memória. Este é um exemplo ilustrativo:
| Informação | Exemplo de como registrar |
|---|---|
| Quando algo mudou | “O enjoo começou dois dias depois do início.” |
| Benefício percebido | “Voltei a preparar o almoço, mas ainda não tenho vontade de conversar.” |
| Efeito incômodo e seu impacto | “A tontura me fez evitar o trajeto de carro.” |
| Como o tratamento foi realizado | “Deixei de tomar em dois dias porque estava com náusea.” |
Levar esse relato não exige escrever todos os dias nem resolver o problema antes da consulta. Ele ajuda a esclarecer uma questão prática: o que a venlafaxina está ajudando a recuperar e o que precisa mudar no acompanhamento?
Referências
- Viatris. Efexor XR, cloridrato de venlafaxina: bula do profissional de saúde [Internet]. [citado 7 out 2026].
- National Library of Medicine. Venlafaxine: MedlinePlus Drug Information [Internet]. [citado 7 out 2026].
- National Institute of Mental Health. Depression [Internet]. 2024 [citado 7 out 2026].
- Rush AJ, Trivedi MH, Wisniewski SR, Stewart JW, Nierenberg AA, Thase ME, et al. Bupropion-SR, sertraline, or venlafaxine-XR after failure of SSRIs for depression. N Engl J Med. 2006;354(12):1231–1242. doi:10.1056/NEJMoa052963.
- National Health Service. Venlafaxine [Internet]. 2026 [revisado 6 jul 2026; citado 7 out 2026].
- Brasil. Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — SAMU 192 [Internet]. [citado 7 out 2026].
- National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NG222 [Internet]. 2022 [citado 7 out 2026].
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.