Melhorei da depressão: por quanto tempo preciso continuar o antidepressivo?
Postado em: 04/09/2026
Imagem ilustrativa. Foto: RDNE Stock project / Pexels.
Sentir-se bem novamente é uma conquista. E é justamente nessa fase que costuma surgir a dúvida: ainda preciso do antidepressivo?
Em geral, o tratamento continua por pelo menos seis meses após a remissão dos sintomas — e pode durar mais, conforme o histórico e a evolução. Esse prazo não começa na primeira dose nem nos primeiros sinais de melhora. Também não é uma data automática para parar. A recomendação de continuidade aparece nas orientações do NICE e da Organização Mundial da Saúde, esta voltada a adultos com depressão moderada a grave que se beneficiaram do medicamento.1,2
Por que continuar se eu já estou melhor?
Depois de aliviar o episódio de depressão, o tratamento passa a ter outro objetivo: ajudar a manter a melhora e reduzir a chance de os sintomas voltarem. Continuar o medicamento pode fazer parte dessa prevenção, mesmo quando a pessoa já se sente bem.1
Melhora e remissão não são a mesma coisa. Na melhora, os sintomas diminuíram; na remissão, estão mínimos ou ausentes. Recuperar o funcionamento e a qualidade de vida também importa e pode seguir um ritmo diferente.3
Se a dúvida ainda é sobre os primeiros resultados, veja quanto tempo o antidepressivo demora para fazer efeito.
Em quais situações o tratamento pode durar mais?
A diretriz CANMAT recomenda manter o antidepressivo por seis a doze meses após a remissão. Para pessoas com fatores de risco de novos episódios, a manutenção pode se estender por dois anos ou mais. Entre os pontos considerados estão:3
- episódios anteriores de depressão;
- sintomas que ainda persistem;
- episódios graves ou prolongados;
- outras condições de saúde, estresse persistente e pouco apoio social.
Esses fatores não determinam, sozinhos, um prazo. Manter por mais tempo não significa decidir que o uso será para sempre. Estas orientações se referem à depressão unipolar em adultos; no transtorno bipolar, o planejamento é diferente.3
E se o medicamento estiver atrapalhando minha qualidade de vida?
Alterações sexuais, sonolência ou ganho de peso merecem espaço na consulta. Estar melhor da depressão não torna esses incômodos irrelevantes.4
A revisão deve considerar o benefício percebido, os efeitos adversos e sua preferência sobre continuar. Vale levar exemplos concretos do que mudou e do que incomoda. O objetivo é chegar a uma decisão compartilhada, sem transformar a manutenção em uma renovação de receita sem conversa.1
Como planejar uma eventual retirada?
Quando a suspensão é considerada adequada, a redução costuma ser gradual, com etapas ajustadas ao medicamento, ao tempo de uso e à resposta da pessoa. Pode levar semanas ou meses; algumas pessoas precisam de mais tempo. Não há um esquema único que sirva para todos.1
A psicoterapia também pode participar dessa etapa. Uma revisão publicada em 2026 encontrou, nos estudos de depressão em remissão, resultados favoráveis para a retirada lenta acompanhada de apoio psicológico estruturado, com prevenção de recaída comparável à continuidade do antidepressivo. O resultado reforça a importância de planejar a retirada, mas não indica que todos devam suspender: os estudos acompanharam os participantes por períodos limitados, em média próximos de um ano.5
Antes de mudar a dose, combine com o médico as etapas, os retornos e como entrar em contato se surgirem dificuldades. Não interrompa nem passe a alternar dias de uso por conta própria.
Sintomas de retirada são a mesma coisa que recaída?
Não. Após reduzir ou interromper um antidepressivo, podem surgir tontura, náusea, sensação de choques, ansiedade ou alterações do sono. São possíveis sintomas de retirada e não demonstram, por si só, que a depressão voltou.
Eles frequentemente começam perto da mudança de dose, enquanto a recaída costuma aparecer mais tarde. Essa diferença ajuda na avaliação, mas não fecha o diagnóstico: há sobreposição de sintomas e a retirada também pode ter início tardio. Em algumas pessoas, os sintomas são intensos ou prolongados.
Se algo mudar durante a redução, anote quando começou e procure o profissional que acompanha o tratamento. Isso permite avaliar o que está acontecendo e ajustar o plano. Ter dificuldade na retirada não significa que você nunca conseguirá parar.6
O que conversar na próxima consulta?
Você pode levar quatro perguntas:
- Minha melhora já pode ser considerada remissão?
- O que, no meu histórico, favorece manter o tratamento por mais tempo?
- Como podemos lidar com os efeitos que ainda me incomodam?
- Se decidirmos retirar, qual será o plano de acompanhamento?
O próximo passo não precisa ser parar nem continuar sem prazo. Pode ser simplesmente definir, junto ao médico, o objetivo desta fase e quando a decisão será revista. Conheça o atendimento em psiquiatria da Genuine.
Se surgirem pensamentos de suicídio, procure ajuda prontamente. Diante de risco imediato de se machucar, vá a um serviço de urgência ou ligue para o SAMU, 192; não espere a consulta de rotina.7
Referências
- NICE. Depression in adults: treatment and management — NG222. 2022; revisão de vigilância em janeiro de 2026.
- Organização Mundial da Saúde. Duration of antidepressant treatment. Atualização de 2023.
- Lam RW et al. CANMAT 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults. Canadian Journal of Psychiatry. 2024;69(9):641–687.
- NHS. Antidepressants.
- Zaccoletti D et al. Comparison of antidepressant deprescribing strategies in individuals with clinically remitted depression: a systematic review and network meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2026;13(1):24–36. DOI: 10.1016/S2215-0366(25)00330-X.
- Royal College of Psychiatrists. Stopping antidepressants.
- Ministério da Saúde. SAMU 192.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.