Escitalopram na depressão e na ansiedade: o que esperar do tratamento
Postado em: 08/10/2026
O escitalopram pode ser prescrito tanto para depressão quanto para transtorno de ansiedade generalizada, o TAG. Receber esse antidepressivo para ansiedade não significa, por si só, que você também tenha depressão. A finalidade da prescrição ajuda a definir quais mudanças observar durante o tratamento.1
Para que o escitalopram foi proposto
O escitalopram pertence aos inibidores seletivos da recaptação de serotonina, conhecidos como ISRS. Ele modifica a disponibilidade da serotonina, um mensageiro que participa da comunicação entre células nervosas.1
Na depressão, a proposta é reduzir o conjunto de sintomas depressivos, que pode incluir tristeza persistente, perda de interesse, falta de energia, dificuldade de concentração e alterações do sono. No TAG, a preocupação excessiva e difícil de controlar ocupa grande parte da vida, frequentemente acompanhada de tensão, irritabilidade ou dificuldade para relaxar. Os dois quadros também podem coexistir.2,3
A bula brasileira inclui ainda pânico, ansiedade social e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) entre as indicações adultas. Por isso, o nome do remédio sozinho não identifica o diagnóstico.1 Se a finalidade ficou pouco clara, uma pergunta útil é: “Quais sintomas esperamos melhorar com este tratamento?”.
O que acompanhar na depressão e no TAG
Na depressão, observe tanto o sofrimento quanto as atividades que ficaram prejudicadas. Há menos tristeza ou desesperança? O interesse pelas pessoas e pelas coisas começou a voltar? Está mais fácil acompanhar uma conversa ou iniciar uma tarefa? Sono, apetite e concentração podem mudar antes de o humor melhorar de forma mais evidente.2
Considere uma situação ilustrativa: alguém que deixou de cozinhar por falta de energia volta a preparar uma refeição, mas ainda passa o restante do dia sem interesse por nada. “Voltei a cozinhar duas vezes nesta semana, mas ainda não tive vontade de conversar com ninguém” informa mais do que apenas “estou melhor”.
No TAG, vale observar quanto tempo as preocupações consomem, quão difícil é interrompê-las e o que elas impedem de fazer. A meta não é eliminar toda preocupação com trabalho, saúde ou família. É reduzir a ansiedade excessiva e sua interferência no cotidiano.3
Em outro exemplo hipotético, uma pessoa continua preocupada com uma entrega profissional, mas consegue encerrar o expediente e acompanhar um filme, sem passar a noite revendo mentalmente cada possibilidade de erro. A preocupação ainda existe; o espaço que ela ocupa mudou. O guia do paciente com TAG aprofunda essa relação entre sintomas e rotina.
Como interpretar a melhora e os resultados dos estudos
Um ensaio de oito semanas incluiu 491 adultos com episódio depressivo maior e comparou duas doses de escitalopram, citalopram e placebo. Nos grupos de escitalopram, cerca de 50% e 51% tiveram resposta, contra 27% com placebo. Nesse estudo, resposta significava reduzir em pelo menos metade a pontuação de sintomas na escala MADRS. Portanto, aproximadamente metade dos participantes tratados com escitalopram não atingiu esse critério durante o período estudado, o que pode incluir pessoas com melhora menor.4
Para TAG, um estudo de oito semanas com 315 adultos encontrou 58% de resposta com escitalopram e 38% com placebo. Aqui, resposta tinha outra definição: a avaliação clínica global indicava que a pessoa estava muito ou muitíssimo melhor. A análise utilizou a última avaliação disponível também para participantes que não chegaram ao fim do estudo. Esses percentuais não indicam quantas pessoas atingiram remissão, quando os sintomas ficam ausentes ou em nível baixo segundo o critério adotado na avaliação. Como as definições de resposta diferem, os percentuais dos dois estudos não devem ser comparados diretamente.5
São ensaios curtos, com participantes selecionados e financiamento da indústria. Eles demonstram benefício em grupos de pacientes, sem prever o resultado individual ou estabelecer que o escitalopram seja superior a todos os outros antidepressivos.4,5
Na consulta, uma melhora parcial pode justificar manter o plano em observação ou discutir ajustes, conforme o tempo de uso, os sintomas restantes e os efeitos indesejados.6
O efeito é acompanhado ao longo de semanas. Sonolência logo após tomar o medicamento não demonstra, por si, melhora da ansiedade. Para entender essa evolução, veja quanto tempo o antidepressivo demora para fazer efeito. Uma primeira mudança favorável ainda precisa ser acompanhada para saber se se mantém e se os demais sintomas também diminuem.2,3,6
Efeitos que merecem atenção durante o tratamento
Náusea, alterações do sono e dificuldades sexuais estão entre os efeitos possíveis. Alguns incômodos diminuem com o tempo, mas outros persistem. Descreva o impacto: o enjoo atrapalha a alimentação? A sonolência dificulta o trabalho? Houve redução do desejo ou dificuldade para chegar ao orgasmo? Essas informações ajudam a pesar o benefício junto da tolerabilidade.7
Inquietação intensa, com dificuldade de ficar parado, merece contato antecipado com o prescritor. Não é adequado tratar toda piora como uma adaptação que precisa ser suportada. Informe também períodos anteriores de aceleração, especialmente se houve pouca necessidade de sono e atividade fora do seu padrão. A decisão sobre o uso de antidepressivos no transtorno bipolar tipo 2 exige avaliar esse histórico.1
Informe ao médico se você tem ou já teve arritmia, já desmaiou ou usa outros medicamentos, pois o escitalopram pode afetar o ritmo cardíaco em pessoas suscetíveis. A necessidade de eletrocardiograma depende dessa avaliação. A bula brasileira consultada orienta não dirigir nem operar máquinas durante o tratamento.1
Leve uma lista de todos os medicamentos e suplementos, inclusive os usados sem receita. Alguns anti-inflamatórios, anticoagulantes e produtos como erva-de-são-joão podem interagir com o escitalopram. Não faça mudanças na prescrição por conta própria; uma eventual retirada precisa ser planejada.7
Pensamentos de autoagressão ou piora importante devem ser comunicados prontamente à equipe. Em caso de risco imediato, procure emergência; no Brasil, o SAMU atende pelo 192.2,8
Como preparar o retorno
Antes da consulta, escolha as mudanças que mais afetaram sua vida desde o início do tratamento. Registre também esquecimentos, interrupções ou dificuldades para seguir a prescrição.6
| Informação para o retorno | Como torná-la concreta |
|---|---|
| O que melhorou | Diga o que voltou a conseguir fazer ou qual sintoma ficou menos frequente. |
| O que permanece difícil | Escolha uma situação em que a depressão ou a preocupação ainda interferem. |
| O que surgiu após o início | Anote quando começou e quanto incomoda, sem concluir sozinho que foi causado pelo remédio. |
| Como o tratamento foi realizado | Relate dificuldades de uso, esquecimentos e outros medicamentos que começou a tomar. |
Leve também a pergunta que ficou em aberto: “O que ainda esperamos melhorar e quando vamos reavaliar?”.
Referências
- Aché Laboratórios Farmacêuticos S.A. Oxalato de escitalopram: bula para profissional de saúde, com_BU08_VPS [Internet]. [citado 7 out 2026].
- National Institute of Mental Health. Depression [Internet]. [citado 7 out 2026].
- National Institute of Mental Health. Generalized Anxiety Disorder: What You Need to Know [Internet]. [citado 7 out 2026].
- Burke WJ, Gergel I, Bose A. Fixed-dose trial of the single isomer SSRI escitalopram in depressed outpatients. J Clin Psychiatry. 2002;63(4):331–336. doi:10.4088/jcp.v63n0410.
- Davidson JRT, Bose A, Korotzer A, Zheng H. Escitalopram in the treatment of generalized anxiety disorder: double-blind, placebo controlled, flexible-dose study. Depress Anxiety. 2004;19(4):234–240. doi:10.1002/da.10146.
- National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NG222 [Internet]. 2022 [citado 7 out 2026].
- National Health Service. Escitalopram [Internet]. 2026 [citado 7 out 2026].
- Brasil. Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — SAMU 192 [Internet]. [citado 7 out 2026].
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.