Antidepressivos no transtorno bipolar tipo 2: o que avaliar antes de usar?
Postado em: 29/09/2026
Quem está com depressão e tem transtorno bipolar tipo 2 pode se perguntar por que não recebeu logo um antidepressivo. A resposta não é que esses medicamentos sejam proibidos. Eles podem ajudar em situações selecionadas, mas a escolha precisa considerar também as fases de hipomania, a possibilidade de sintomas mistos e o tratamento já em curso. A depressão bipolar não é tratada como uma depressão unipolar à qual se acrescenta, por rotina, um antidepressivo.1
Primeiro: qual fase está sendo tratada?
A discussão sobre iniciar um antidepressivo costuma surgir durante uma fase depressiva. Se também há menor necessidade de sono, pensamento acelerado ou aumento incomum de atividade, é preciso investigar sinais de ativação. Nos sintomas mistos, manifestações depressivas e de ativação coexistem; a pessoa pode continuar triste e angustiada. Ansiedade ou irritabilidade isoladas não bastam para essa conclusão.1
Também importa saber como foram os episódios anteriores. Uma boa resposta prévia favorece considerar o medicamento novamente. Já um episódio de hipomania surgido durante o uso de antidepressivo, sintomas mistos ou um histórico de episódios muito frequentes, como na ciclagem rápida, pesam contra essa escolha.2
Para entender melhor essa distinção entre fases, veja o artigo sobre transtorno bipolar tipo 2.
O que revisar no tratamento antes dessa decisão?
Antes de considerar um antidepressivo, o psiquiatra revisa os tratamentos apropriados para a depressão bipolar: quais foram utilizados, a dose prescrita, o tempo de uso, a regularidade e a melhora obtida. Também avalia se os efeitos adversos foram aceitáveis ou dificultaram a continuidade. Essa revisão ajuda a decidir se cabe ajustar o tratamento atual ou mudar de estratégia.1,2
Nas recomendações CANMAT/ISBD específicas para o tipo 2, a quetiapina é a opção de primeira linha para a depressão aguda; lítio e lamotrigina aparecem entre as alternativas de segunda linha. Já na manutenção, voltada à prevenção de novos episódios, os três são opções de primeira linha. Eles têm funções e perfis diferentes, e a sequência de escolhas considera a história da pessoa; não é necessário experimentar todos antes de discutir um antidepressivo.1
O nome “antipsicótico”, usado para a classe da quetiapina, não significa que a pessoa tenha psicose: o medicamento também é estudado e recomendado para a depressão bipolar tipo 2.1
Quando um antidepressivo pode ser considerado?
A diretriz CANMAT/ISBD inclui sertralina e venlafaxina entre as opções de segunda linha para depressão bipolar tipo 2, sobretudo quando não há sintomas mistos. A indicação depende do episódio atual, da resposta a tratamentos prévios e do plano de acompanhamento. Essa recomendação é específica para o tipo 2 e não deve ser transferida automaticamente para o tipo 1.1
Quando um antidepressivo é realmente necessário, em geral ele é associado a um tratamento que também estabiliza o humor, como lítio ou um antipsicótico apropriado para a depressão bipolar, a exemplo da quetiapina. No tipo 2, o uso isolado de certos antidepressivos também pode ser considerado em situações selecionadas, especialmente na depressão sem sintomas mistos. Por isso, a combinação deve ser definida a partir do quadro e do tratamento já em curso, com acompanhamento da resposta e de possíveis sinais de ativação.1,2
Em um ensaio de 16 semanas com 142 pessoas com depressão bipolar tipo 2, pesquisadores compararam lítio isolado, sertralina isolada e a combinação dos dois. O estudo não detectou diferenças significativas na resposta antidepressiva nem na frequência de passagem para hipomania. Essa mudança ocorreu em 20 participantes (14%), considerando o conjunto dos três grupos, inclusive o de lítio isolado. A combinação teve mais abandonos e não produziu resposta mais rápida.3
Os resultados se referem a esses tratamentos durante 16 semanas, sem comparação com placebo. Não demonstram equivalência entre os medicamentos nem podem ser generalizados para todos os antidepressivos ou para a manutenção prolongada.3
O que acompanhar se ele for prescrito?
O acompanhamento considera a redução dos sintomas depressivos, a recuperação do interesse e a retomada das atividades, além dos efeitos adversos. Também observa mudanças no sono, na energia, na velocidade dos pensamentos e na impulsividade. Uma recuperação acompanhada de sono muito reduzido, aceleração crescente ou atitudes incomuns precisa ser diferenciada de uma melhora estável.1,2
Ao iniciar o tratamento, combine quando reavaliar a resposta e quais mudanças motivam contato antes da consulta marcada. Se perceber uma aceleração nova ou crescente, entre em contato com o prescritor e relate o que mudou e quando começou. Ajustes ou interrupção do medicamento devem ser orientados por ele.2
Levar o histórico dos tratamentos e das mudanças de humor ajuda a tornar essa decisão mais clara. Para compreender as demais opções, consulte também depressão bipolar: o que muda no tratamento?
Referências
- Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD Guidelines for the Treatment of Bipolar Disorder: Summary and a 2023 Update of Evidence. Focus. 2023;21(4):344–353. doi:10.1176/appi.focus.20230009.
- Pacchiarotti I, Bond DJ, Baldessarini RJ, et al. The International Society for Bipolar Disorders (ISBD) Task Force Report on Antidepressant Use in Bipolar Disorders. Am J Psychiatry. 2013;170(11):1249–1262. doi:10.1176/appi.ajp.2013.13020185.
- Altshuler LL, Sugar CA, McElroy SL, et al. Switch rates during acute treatment for bipolar II depression with lithium, sertraline, or the two combined: a randomized double-blind comparison. Am J Psychiatry. 2017;174(3):266–276. doi:10.1176/appi.ajp.2016.15040558.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.