MBCT na depressão recorrente: como funciona a prevenção de recaídas

Postado em: 11/10/2026

Grupo de adultos sentados no chão, de olhos fechados, durante uma prática de meditação.

A terapia cognitiva baseada em atenção plena, conhecida pela sigla inglesa MBCT, é um programa estruturado que pode ajudar a prevenir novos episódios de depressão em pessoas que já melhoraram. Ela combina práticas de atenção plena com elementos da terapia cognitiva e pode integrar o acompanhamento junto ao antidepressivo. A decisão depende da história da depressão, da resposta aos tratamentos e das preferências da pessoa.1

O que se aprende na MBCT

Um dos alvos do programa é a ruminação: a tendência de ficar preso a pensamentos negativos repetitivos. A pessoa aprende a reconhecer quando isso acontece e a observar pensamentos, emoções e sensações físicas sem reagir automaticamente a todos eles. A recaída depressiva não tem uma causa única, nem depende apenas da maneira de pensar.2

Considere o seguinte caso ilustrativo: depois de uma noite mal dormida, alguém que já teve depressão pensa “não consigo fazer nada direito” e passa a manhã revendo seus erros. Em uma sessão, seria possível explorar quando essa sequência começou, o que a pessoa percebeu no corpo e como reagiu ao pensamento. Uma noite ruim, por si só, não estabelece uma recaída.

Observar a frase “não consigo fazer nada direito” como um pensamento permite examiná-la sem tratá-la imediatamente como uma descrição fiel de si. Não se trata de concordar com ela, expulsá-la da cabeça ou substituí-la à força por uma frase positiva.

Como são os encontros e a participação entre sessões

A MBCT costuma ser oferecida em grupo, com práticas guiadas, conversa sobre as experiências e atividades entre os encontros. Nos estudos, o programa segue uma estrutura definida. Ouvir um áudio de meditação ocasionalmente ou usar um aplicativo não equivale a participar do tratamento pesquisado.3

A diretriz britânica NICE descreve um formato usual de oito sessões ao longo de dois a três meses, com possibilidade de encontros adicionais. O planejamento inclui reconhecer sinais pessoais de piora e combinar como agir se eles aparecerem.1

Antes de começar, vale conhecer o compromisso real: duração dos encontros, frequência, tempo previsto para as práticas e possibilidade de conversar sobre dificuldades. Uma pessoa pode gostar da proposta e, naquele momento, não conseguir acomodar o programa na rotina. Isso precisa entrar na escolha do tratamento.

As práticas também podem trazer desconforto ou tornar mais perceptíveis pensamentos difíceis. A sessão é o espaço para relatar o que ocorreu e discutir adaptações com o profissional, em vez de interpretar a dificuldade como falta de esforço.

Quando considerar a MBCT

Os estudos de MBCT para prevenção de recaídas avaliaram principalmente adultos com depressão recorrente que não faz parte de um transtorno bipolar, chamada depressão unipolar. Os participantes estavam em remissão completa ou parcial: o episódio já havia melhorado, embora pudessem restar sintomas. Esses resultados não se aplicam automaticamente ao transtorno bipolar ou ao tratamento de um episódio depressivo atual importante.2

Na avaliação, importam os episódios anteriores, os sintomas que permaneceram, o que ajudou até agora e a disposição para participar do programa. Ter apresentado três ou mais episódios foi um critério de inclusão de ensaios importantes; não é um requisito universal para discutir MBCT.1,3

Se a principal dificuldade neste momento é uma piora que está comprometendo o sono, a alimentação ou as atividades do dia a dia, a prioridade é avaliar essa mudança. A inscrição em um programa de prevenção não substitui essa consulta. O artigo sobre depressão recorrente explica como os episódios anteriores entram no planejamento do acompanhamento.

Quanto a MBCT ajudou nos estudos

Uma análise reuniu nove ensaios clínicos, com 1.329 participantes, dos quais 1.258 tinham dados utilizáveis sobre recaída e tempo de acompanhamento. Até 60 semanas, houve recaída em 38% das pessoas nos grupos com MBCT e 49% nos grupos de comparação. Esses grupos receberam tratamentos diferentes entre os estudos, incluindo acompanhamento usual e intervenções ativas. O resultado favoreceu a MBCT, mas os 49% não representam um único tratamento nem a evolução de pessoas necessariamente sem assistência.2

Dois ensaios ajudam a entender a relação com o antidepressivo:

Estudo e pergunta O que foi observado Como interpretar
PREVENT: MBCT com apoio para reduzir ou retirar o antidepressivo seria superior a manter o medicamento? Entre 424 adultos, houve recaída ou recorrência em 44% no grupo MBCT com apoio à retirada e 47% no grupo de manutenção, em 24 meses. O estudo não demonstrou superioridade da estratégia com MBCT. A ausência de diferença estatística não prova equivalência entre as estratégias.3
Ensaio com 249 adultos com depressão recorrente atendidos em serviços especializados: depois de oferecer MBCT a todos, seria possível retirar o antidepressivo sem aumentar as recaídas além do limite definido no estudo? Em 15 meses, houve recaída em 54% no grupo de retirada e 39% no grupo que continuou o antidepressivo. Houve mais recaídas no grupo de retirada. Não foi possível concluir que retirar o medicamento preservava a proteção obtida com sua manutenção. Adesão incompleta e perdas de acompanhamento limitam a interpretação do resultado.4

Os percentuais medem a ocorrência de um novo episódio durante períodos determinados. Não são taxas de cura nem permitem prever o resultado de uma pessoa. As duas comparações também são diferentes: no segundo ensaio, ambos os grupos receberam MBCT.

A MBCT é uma opção de prevenção com evidência de benefício. Participar dela, porém, não significa que o antidepressivo deixou de contribuir para a estabilidade. A discussão sobre por quanto tempo continuar o medicamento precisa considerar o histórico e ser conduzida com o prescritor.

Quatro perguntas antes de começar

  1. Qual é o objetivo no meu caso? Prevenir novos episódios, trabalhar sintomas residuais ou tratar outra dificuldade?
  2. Qual é a formação do profissional em MBCT? Como o programa é organizado e quanto tempo de participação exige?
  3. Como haverá comunicação com quem prescreve meus medicamentos? A proposta inclui manter a medicação ou discutir alguma mudança em consulta?
  4. O que devo fazer se houver desconforto importante ou piora dos sintomas? Quem deve ser contatado e quando é necessária uma avaliação antecipada?

Referências

  1. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management [Internet]. NG222. London: NICE; 2022 [citado 2026 out 11]. Disponível em: recomendações para prevenção de recaídas.
  2. Kuyken W, Warren FC, Taylor RS, Whalley B, Crane C, Bondolfi G, et al. Efficacy of mindfulness-based cognitive therapy in prevention of depressive relapse: an individual patient data meta-analysis from randomized trials. JAMA Psychiatry. 2016;73(6):565–574. doi:10.1001/jamapsychiatry.2016.0076. Texto completo.
  3. Kuyken W, Hayes R, Barrett B, Byng R, Dalgleish T, Kessler D, et al. The effectiveness and cost-effectiveness of mindfulness-based cognitive therapy compared with maintenance antidepressant treatment in the prevention of depressive relapse/recurrence: results of a randomised controlled trial (the PREVENT study) [Internet]. Southampton: NIHR Journals Library; 2015 [citado 2026 out 11]. Health Technology Assessment;19(73). Disponível em: resumo científico do relatório primário.
  4. Huijbers MJ, Spinhoven P, Spijker J, Ruhé HG, van Schaik DJF, van Oppen P, et al. Discontinuation of antidepressant medication after mindfulness-based cognitive therapy for recurrent depression: randomised controlled non-inferiority trial. Br J Psychiatry. 2016;208(4):366–373. doi:10.1192/bjp.bp.115.168971. Texto completo.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 0 / 5. Número de votos: 0

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.