Catatonia: sinais, relação com o humor e quando procurar atendimento

Postado em: 11/10/2026

Homem deitado em uma cama hospitalar, com os olhos abertos voltados para o teto e os braços apoiados ao lado do corpo.

A catatonia é uma síndrome que pode alterar de forma marcante os movimentos, a fala e a capacidade de responder ao ambiente. Uma pessoa pode ficar quase imóvel e falar muito pouco; outra pode apresentar agitação ou alternar entre estados diferentes. Ela pode ocorrer em transtornos do humor, em outras condições psiquiátricas e em doenças clínicas ou neurológicas.1

Uma mudança importante na capacidade de responder, de se alimentar ou de beber com segurança exige avaliação urgente. Não espere uma consulta de rotina para alguém que deixou de interagir como antes ou está piorando rapidamente. Febre e rigidez aumentam a preocupação, mas a ausência de febre não torna seguro aguardar.2

O que pode mudar na fala e nos movimentos

Os sinais podem incluir redução acentuada dos movimentos espontâneos, pouca ou nenhuma fala, permanência em posturas incomuns e repetição de palavras ou gestos. Também pode haver agitação que não parece responder ao que acontece ao redor. A apresentação pode variar ao longo do dia.1

Para a família, costuma chamar a atenção a mudança em relação ao comportamento habitual. Alguém que conversava e se levantava para as atividades passa a permanecer na mesma posição, deixa de iniciar ações ou responde muito menos. Essa descrição ajuda a equipe, mesmo quando o familiar não sabe nomear os sinais.

Silêncio, cansaço ou lentidão isolados não permitem diagnosticar catatonia. O profissional precisa examinar o conjunto e considerar outras explicações. A família também não precisa confirmar um número de sinais antes de buscar ajuda: uma mudança grave já justifica avaliação.2

A relação com depressão, bipolaridade e outras doenças

A catatonia não é exclusiva da esquizofrenia. Pode acompanhar episódios de depressão ou de transtorno bipolar e aparecer em outras condições, inclusive neurológicas e clínicas. Mesmo quando a pessoa já tem um diagnóstico psiquiátrico, é necessário investigar outras possíveis causas.1,2

Se alguém com depressão passa a responder muito pouco e a não conseguir beber, não basta atribuir a mudança à intensidade da tristeza. É necessário avaliar o que está acontecendo naquele momento. Da mesma forma, dizer que a pessoa “sempre foi quieta” não explica uma perda recente e importante de resposta.

A lentificação que pode ocorrer na depressão bipolar não equivale, sozinha, à catatonia. E catatonia não é sinônimo de depressão com sintomas psicóticos: delírios e alucinações dizem respeito a outras manifestações, que podem ou não estar presentes no mesmo quadro.2

Também podem ser necessárias investigações de infecções, alterações metabólicas ou doenças que afetam o cérebro. A história, o exame e a evolução indicam quais hipóteses precisam ser examinadas; não é preciso que toda pessoa faça a mesma lista de exames.1

Quando a avaliação não pode esperar

A dificuldade para manter alimentação e hidratação, a imobilidade prolongada e a agitação intensa podem trazer complicações físicas. Febre, rigidez, deterioração rápida ou redução importante da resposta reforçam a necessidade de atendimento imediato.2

Se a pessoa parece ter dificuldade para engolir ou não consegue participar da alimentação com segurança, não force comida, líquidos ou comprimidos. Alterações da deglutição podem permitir que alimento ou líquido entre nas vias respiratórias.3

Também não cabe à família tentar destravar movimentos ou reproduzir manobras de exame. Procure atendimento e descreva as mudanças observadas. Em situações de urgência ou emergência no Brasil, o SAMU atende pelo 192.4

Se avisar o consultório por mensagem, procure o atendimento urgente sem esperar a resposta.

Como é feita a avaliação e quais tratamentos podem ajudar

O diagnóstico é clínico: depende da observação, do exame e da história. Não existe um exame de sangue único que confirme catatonia. Exames laboratoriais e, em situações selecionadas, investigações neurológicas ajudam a procurar causas e complicações.2

Benzodiazepínicos e/ou eletroconvulsoterapia (ECT) são opções de primeira linha, de acordo com a diretriz da Associação Britânica de Psicofarmacologia. A escolha considera a gravidade, a condição associada, a resposta inicial e as condições para realizar o tratamento. ECT não precisa ser reservada obrigatoriamente para depois de várias tentativas malsucedidas.2

Pode causar estranhamento o uso de um medicamento conhecido como sedativo em alguém que quase não se move. Na catatonia, porém, benzodiazepínicos podem melhorar justamente a capacidade de falar e se movimentar. A resposta precisa ser avaliada sob supervisão médica; esse uso não deve ser reproduzido em casa.5

A eletroconvulsoterapia, realizada sob anestesia geral, também pode ser indicada para tratar a síndrome, conforme a avaliação.1 A indicação por catatonia tem fundamentos próprios e não depende de a pessoa ter depressão.

As recomendações se apoiam em experiência clínica acumulada, estudos observacionais e séries de casos, com poucos ensaios controlados. Não há uma porcentagem única de recuperação que represente todas as causas e apresentações da catatonia.2

A equipe também precisa tratar a condição associada e acompanhar a alimentação, a hidratação e os problemas que podem surgir com a imobilidade. Conforme o quadro, são necessárias medidas para prevenir aspiração de alimentos ou líquidos, lesões na pele por pressão prolongada e trombose.3

O que a família pode contar à equipe

Algumas pessoas percebem o que acontece ao redor apesar de terem dificuldade para responder e podem se lembrar depois. Fale com calma, explique o que está acontecendo e evite tratar a ausência de resposta como teimosia ou falta de esforço.5

Relatos concretos ajudam mais do que tentar dar um diagnóstico. Os exemplos abaixo são hipotéticos e mostram o tipo de informação útil:

Informação que a equipe precisa Exemplo do que relatar
Quando começou e como evoluiu “Ontem conversava conosco; hoje quase não responde.”
Como era o funcionamento habitual “Costumava se levantar e preparar o café; desde ontem permanece sentado sem iniciar essas atividades.”
Alimentação e hidratação “Não conseguiu beber como de costume e tossiu ao tentar engolir.”
Medicamentos e mudanças recentes “Houve uma mudança na receita na semana passada; trouxemos a lista e as embalagens.”

Não é necessário observar todos esses acontecimentos, nem esperar que se repitam, para procurar atendimento. Conte também o que não sabe: por exemplo, se não acompanhou as últimas tomadas de medicamentos ou se não consegue precisar quando a mudança começou.

Após a estabilização, peça à equipe que explique a causa considerada, como o tratamento vai continuar e quais sinais exigem retorno antecipado. Se outras pessoas também ajudam no acompanhamento, peça essas orientações por escrito para que todos saibam como agir diante de uma nova piora.

Referências

  1. Royal College of Psychiatrists. Catatonia [Internet]. London: RCPsych; 2022 abr [citado 2026 out 11]. Disponível em: informações para pacientes e familiares.
  2. Rogers JP, Oldham MA, Fricchione G, Northoff G, Wilson JE, Mann SC, et al. Evidence-based consensus guidelines for the management of catatonia: recommendations from the British Association for Psychopharmacology. J Psychopharmacol. 2023;37(4):327–369. doi:10.1177/02698811231158232. Diretriz completa.
  3. NHS Lothian. Catatonia Bundle [Internet]. Versão 1.0. Aprovado em 2024 set [citado 2026 out 11]. Disponível em: documento institucional.
  4. Brasil. Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — SAMU 192 [Internet]. [citado 2026 out 11]. Disponível em: página institucional.
  5. University College London. Catatonia: information for patients and carers [Internet]. Versão 1.4. London: UCL; 2021 jun 25 [citado 2026 out 11]. Disponível em: folheto para pacientes e familiares.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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