Tranilcipromina na depressão resistente: quando pode ser considerada?

Postado em: 12/10/2026

Paciente e profissional revisam uma sequência de tratamentos, com uma nova opção destacada.

A tranilcipromina é um antidepressivo que pode ser considerado quando tratamentos anteriores não trouxeram melhora suficiente ou foram difíceis de tolerar. A escolha exige avaliar tanto o benefício possível quanto as interações com medicamentos e alimentos, que tornam seu uso diferente do de muitos outros antidepressivos. Sua indicação brasileira é o tratamento da depressão; não se restringe à depressão resistente.1

O que é a tranilcipromina

A tranilcipromina, princípio ativo do Parnate, pertence aos inibidores da monoaminoxidase, conhecidos pela sigla IMAO. Essa enzima participa da degradação de substâncias como serotonina, noradrenalina e dopamina. Ao inibi-la, o medicamento modifica a disponibilidade dessas substâncias no sistema nervoso. Esse mecanismo ajuda a explicar sua ação, mas não significa que a depressão seja simplesmente uma deficiência química a ser reposta.1

O foco aqui é a depressão unipolar: episódios depressivos que não fazem parte de um transtorno bipolar. Um histórico de mania ou hipomania — fases de alteração do humor acompanhadas, por exemplo, de aceleração e menor necessidade de sono — muda a avaliação e precisa ser informado antes de discutir um antidepressivo.2

Quando essa opção entra na avaliação

Ter usado vários medicamentos não esclarece, por si só, quanto cada um ajudou. Um tratamento pode ter sido interrompido cedo por efeitos adversos; outro pode ter produzido melhora parcial; um terceiro pode não ter funcionado apesar de uma tentativa adequada. Essas experiências têm significados diferentes para a próxima escolha.2,3

Antes de considerar uma troca, o psiquiatra revê diagnóstico, duração e regularidade do tratamento, tolerabilidade e condições que podem contribuir para os sintomas. O artigo sobre como a depressão resistente é identificada desenvolve essa avaliação. A diretriz NICE inclui os IMAO entre alternativas que exigem participação de um especialista, sem estabelecer que todas as pessoas devam seguir uma sequência idêntica.2

Também é preciso avaliar a saúde física. A bula brasileira contraindica a tranilcipromina em determinadas condições, incluindo hipertensão, doenças cardiovasculares ou vasculares cerebrais e lesão hepática.1 A discussão sobre antidepressivo que não está funcionando ajuda a situar essa possibilidade entre outras estratégias de tratamento.

Quanto os pacientes melhoraram nos estudos

Dois resultados precisam ser distinguidos. Resposta costuma significar uma redução de pelo menos metade da intensidade dos sintomas na escala usada pelo estudo. Remissão exige que os sintomas fiquem ausentes ou em nível muito baixo. Uma pessoa pode melhorar bastante e ainda não atingir remissão; remissão também não significa cura definitiva.4

Em um ensaio de cinco semanas com 77 pacientes internados por depressão grave, após falta de resposta a um antidepressivo tricíclico ou à fluvoxamina, 17 dos 39 participantes que receberam tranilcipromina tiveram resposta, cerca de 44%. Com fenelzina, outro IMAO, foram 18 de 38, aproximadamente 47%. O estudo foi duplo-cego e não encontrou diferença estatisticamente significativa entre os medicamentos. Cerca de um em cada cinco participantes de ambos os grupos apresentou efeitos adversos descritos como intensos, principalmente tontura, agitação e insônia.5

O STAR*D avaliou uma situação diferente: 109 adultos atendidos em ambulatório, com depressão maior sem sintomas psicóticos, que já haviam passado por três tentativas sem remissão ou interrompidas por intolerância. A etapa tinha duração prevista de 12 semanas, com possibilidade de extensão para alguns participantes. Pela avaliação principal, 4 dos 58 participantes designados para receber tranilcipromina atingiram remissão, 6,9%, contra 7 de 51, ou 13,7%, com venlafaxina e mirtazapina.6

A diferença de remissão não foi estatisticamente significativa. Houve, porém, menor redução dos sintomas e mais interrupções por intolerância no grupo da tranilcipromina. Era uma amostra pequena, o tratamento era conhecido por pacientes e médicos, e parte dos participantes não tomou o medicamento pelo período previsto. Os profissionais que avaliaram a remissão não sabiam qual tratamento cada participante havia recebido.6

Os 44% de resposta do primeiro estudo e os 6,9% de remissão do segundo não medem a mesma coisa. As populações e os tratamentos anteriores também eram diferentes. Esses resultados mostram benefício em parte dos participantes e dificuldades relevantes de tolerabilidade, sem fornecer uma porcentagem que antecipe o resultado de uma pessoa. Tampouco permitem chamar todos os que não atingiram remissão de “pessoas que não melhoraram”.

Por que alimentação e outros medicamentos precisam ser revistos

A tiramina é uma substância presente em certos alimentos, especialmente alguns produtos maturados ou fermentados. Durante o uso de tranilcipromina, sua ingestão pode provocar uma elevação perigosa da pressão arterial. Queijos maturados e carnes curadas são exemplos, mas não formam uma lista suficiente para orientar a alimentação. Conservação, processamento e composição do produto também importam.1

Antes de começar, peça uma orientação alimentar por escrito e esclareça dúvidas sobre o que costuma consumir em casa, no trabalho e em restaurantes. A orientação deve abranger também o período após uma eventual interrupção: os efeitos sobre a enzima não desaparecem assim que a última dose sai do organismo.1

As interações não se limitam a medicamentos psiquiátricos. Produtos para gripe e tosse, alguns remédios para enxaqueca, fitoterápicos e outros itens sem receita também precisam ser conferidos. Certas combinações com antidepressivos podem causar síndrome serotoninérgica. Por isso, a transição de um tratamento para outro deve ser planejada pelo prescritor; não existe um intervalo único que sirva para qualquer troca.1,3

O que combinar antes de começar

Leve estas informações e combine com o psiquiatra como será o acompanhamento:

  • Tratamentos anteriores: nomes, duração aproximada, melhora percebida e motivo da interrupção.
  • Medicamentos e produtos atuais: incluir os ocasionais, suplementos e itens comprados sem receita. Fotos das embalagens ajudam quando o nome não está claro.
  • Rotina: alimentação habitual, consumo de bebidas alcoólicas e atividades que dependem de dirigir ou operar máquinas. A bula brasileira orienta não dirigir nem operar máquinas durante todo o tratamento.1
  • Acompanhamento: quais sintomas serão avaliados, como acompanhar a pressão e por qual canal comunicar problemas entre as consultas.

Insônia, tontura ao se levantar e agitação merecem ser relatadas, pois podem exigir revisão do tratamento. Palpitações novas ou dores de cabeça frequentes devem ser comunicadas imediatamente ao médico. Uma dor de cabeça súbita e intensa, especialmente acompanhada de palpitações, dor ou rigidez no pescoço, náuseas ou vômitos, exige avaliação urgente pelo risco de uma reação hipertensiva. Informe à equipe que usa tranilcipromina e leve a relação dos demais produtos utilizados.1

Além de saber quando será o retorno, saia da consulta com uma resposta concreta para duas perguntas: “Qual melhora esperamos observar?” e “O que devo fazer se tiver uma dúvida sobre um alimento ou precisar de outro medicamento?”.

Referências

1. GlaxoSmithKline Brasil Ltda. Parnate (tranilcipromina): bula do profissional de saúde [Internet]. Bula aprovada pela Anvisa em 19 mar 2026 [citado 12 out 2026]. Disponível em: bula oficial.

2. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222 [Internet]. London: NICE; 2022 [citado 12 out 2026]. Disponível em: recomendações.

3. NHS Specialist Pharmacy Service. Considerations when choosing an alternative antidepressant [Internet]. 2023 [citado 12 out 2026]. Disponível em: orientação profissional.

4. National Institute of Mental Health. Questions and answers about the NIMH Sequenced Treatment Alternatives to Relieve Depression (STAR*D) study: all medication levels [Internet]. Bethesda: NIMH [citado 12 out 2026]. Disponível em: material institucional.

5. Birkenhäger TK, van den Broek WW, Mulder PG, Bruijn JA, Moleman P. Efficacy and tolerability of tranylcypromine versus phenelzine: a double-blind study in antidepressant-refractory depressed inpatients. J Clin Psychiatry. 2004;65(11):1505–10. doi: 10.4088/jcp.v65n1110.

6. McGrath PJ, Stewart JW, Fava M, Trivedi MH, Wisniewski SR, Nierenberg AA, et al. Tranylcypromine versus venlafaxine plus mirtazapine following three failed antidepressant medication trials for depression: a STAR*D report. Am J Psychiatry. 2006;163(9):1531–41. doi: 10.1176/ajp.2006.163.9.1531.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 0 / 5. Número de votos: 0

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.