TEPT complexo: o que significa e como é avaliado?

Postado em: 14/10/2026

Mulher leva a mão à testa enquanto outra mulher a escuta com um caderno no colo.

O transtorno de estresse pós-traumático complexo, ou TEPT complexo, é um diagnóstico da CID-11 que reúne os sintomas de TEPT e dificuldades persistentes na regulação das emoções, na maneira de perceber a si mesmo e nas relações. Ter vivido traumas repetidos aumenta a possibilidade desse quadro, mas a história, sozinha, não confirma o diagnóstico.1

A avaliação procura entender tanto as reações ligadas ao trauma quanto dificuldades do cotidiano: sentir-se permanentemente sem valor, ter dificuldade para se aproximar de alguém ou demorar muito para se recuperar de uma reação emocional intensa.

O que significa TEPT complexo na CID-11

Na CID-11, a Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde, o TEPT envolve reviver a experiência como se ela estivesse acontecendo agora, evitar lembranças ou situações associadas e manter uma sensação acentuada de ameaça atual. Para caracterizar TEPT complexo, esse conjunto precisa estar presente junto das dificuldades adicionais descritas a seguir.1

O DSM-5 e sua revisão, o DSM-5-TR, organizam essas manifestações de outra forma: não apresentam TEPT complexo como um diagnóstico separado. A definição de TEPT nesses manuais é mais ampla e já inclui parte das alterações emocionais e de pensamento discutidas nesse contexto.1˒2

Por isso, dois profissionais podem empregar termos diferentes ao discutir sintomas semelhantes. Vale perguntar qual classificação está sendo utilizada e quais dificuldades o diagnóstico ajuda a explicar. O artigo sobre reconhecimento do TEPT apresenta o quadro geral.

As três dificuldades adicionais e como podem aparecer

Os profissionais chamam esses três domínios de “alterações na organização do self”. Aqui, self se refere à experiência de si mesmo, incluindo emoções, percepção de valor pessoal e vínculos.3

Os exemplos abaixo são ilustrativos. Nenhum deles, isoladamente, permite concluir que uma pessoa tem TEPT complexo.

Domínio avaliado O que pode estar prejudicado Exemplo ilustrativo
Regulação emocional Recuperar-se de emoções intensas; em outras situações, pode haver entorpecimento ou desligamento emocional. Depois de uma conversa difícil, a reação emocional permanece intensa por muito tempo, mesmo quando a situação já terminou.
Percepção de si A forma persistente de avaliar o próprio valor, frequentemente marcada por vergonha, culpa ou sensação de fracasso. Um erro pontual no trabalho é vivido como confirmação de que a pessoa inteira não tem valor.
Relações Sentir proximidade e sustentar vínculos com outras pessoas. Mesmo desejando companhia, a pessoa se mantém distante e encontra dificuldade para estabelecer intimidade emocional.

Na avaliação, importa quanto essas dificuldades persistem, sua intensidade e como interferem na vida. Uma discussão recente, uma fase de autocrítica ou a preferência por ficar sozinho não bastam, por si sós, para caracterizá-las. É preciso compreender o padrão ao longo do tempo e sua relação com os demais sintomas.3

Ter vivido trauma prolongado não define o diagnóstico

O termo “trauma complexo” pode descrever experiências prolongadas ou repetidas, muitas vezes em relações das quais era difícil escapar. “TEPT complexo” é o diagnóstico definido pelo conjunto de sintomas. Assim, alguém pode desenvolver TEPT após exposição repetida sem preencher os requisitos de TEPT complexo, e este também pode ocorrer após um evento único.1

A palavra “complexo” também não funciona como uma escala simples de gravidade. Para discutir tratamento, interessa saber o que está comprometido. Por exemplo, voltar a circular por um lugar evitado e conseguir sustentar proximidade com uma pessoa de confiança são objetivos diferentes. A escolha desses objetivos precisa partir das dificuldades identificadas na avaliação.

A dissociação merece investigação quando está presente, mas não é obrigatória para o diagnóstico de TEPT complexo.1 Experiências como sentir-se distante do próprio corpo ou perceber o ambiente como irreal são explicadas no texto sobre despersonalização e desrealização.

Como a avaliação distingue condições que se parecem

Na consulta, o profissional investiga quando os sintomas começaram, como evoluíram, em quais situações aparecem e como afetam o sono, o trabalho, as relações e as atividades habituais. Também investiga depressão, manifestações dissociativas, uso de substâncias e transtorno de personalidade borderline. Algumas dificuldades podem se sobrepor; a presença de vergonha, isolamento ou instabilidade emocional não permite escolher entre esses diagnósticos.4

Uma descrição do cotidiano costuma ser mais útil do que tentar chegar à consulta com o nome certo. Você pode contar que começou a faltar ao trabalho depois de noites com pesadelos, por exemplo, ou que deseja retomar uma relação, mas se afasta sempre que a proximidade aumenta.

O Questionário Internacional de Trauma, conhecido pela sigla ITQ, pode ajudar a organizar os sintomas e seu impacto. Ele avalia aspectos de TEPT e TEPT complexo conforme a CID-11. Seu resultado aponta uma possibilidade diagnóstica, que precisa ser interpretada na avaliação clínica; não substitui a investigação de outras explicações.4˒5

Não preencher os requisitos de TEPT complexo tampouco significa que o sofrimento seja pequeno ou que o trauma não tenha consequências. A avaliação deve explicar o que foi identificado e quais necessidades merecem tratamento, mesmo que o diagnóstico final seja outro.

O que essa avaliação muda no tratamento

O planejamento considera a segurança atual, as dificuldades que atrapalham a participação nas sessões e os objetivos do paciente. Pode ser necessário dedicar mais tempo à construção de confiança ou trabalhar formas de lidar com emoções e relações. A diretriz NICE recomenda ajustar o tratamento a essas necessidades, incluindo condições de vida que dificultem sua continuidade.6

Isso não estabelece uma longa etapa de “estabilização” obrigatória para todos antes de abordar o trauma. Tampouco significa que toda pessoa deva iniciar esse trabalho imediatamente, sem avaliar riscos e condições para participar.4

Um ensaio de 2023 analisou 92 adultos com TEPT complexo e histórico de abuso na infância, tratados em um programa residencial na Noruega. Comparou exposição prolongada, treinamento de habilidades emocionais e interpessoais e uma abordagem em fases, com esse treinamento seguido de terapia narrativa.7

Ao fim do tratamento, que durou dez ou dezesseis semanas conforme o grupo, 63% dos participantes com exposição prolongada, 50% com treinamento de habilidades e 42% com a abordagem em fases deixaram de preencher o perfil de TEPT complexo pelos critérios de sintomas utilizados na pesquisa. Esse resultado foi calculado com questionários de sintomas adaptados e não significa ausência de todos os sintomas. As diferenças entre os grupos nesse desfecho não foram estatisticamente significativas, e a superioridade esperada da abordagem em fases não foi demonstrada.7

O estudo não prova equivalência entre os métodos nem permite prever uma chance individual de melhora no consultório. No acompanhamento de um ano, 24 participantes não foram avaliados, o que limita as conclusões sobre a evolução prolongada.7

Na conversa sobre o plano, vale perguntar: qual dificuldade será trabalhada primeiro, por que essa abordagem foi proposta e como os resultados serão acompanhados. O artigo sobre tratamentos focados no trauma aprofunda as principais modalidades.

Se os sintomas persistem e limitam sua vida, uma avaliação na Genuine Mental Health pode ajudar a esclarecer o quadro e discutir as possibilidades de tratamento. Em uma situação de perigo imediato, procure um serviço de urgência.

Referências

  1. Larsen SE. Complex PTSD: history and definitions [Internet]. National Center for PTSD, US Department of Veterans Affairs; 2026 [atualizado set 2026; citado 13 out 2026]. Disponível em: National Center for PTSD.
  2. National Center for PTSD. PTSD and DSM-5 [Internet]. US Department of Veterans Affairs [citado 13 out 2026]. Disponível em: PTSD and DSM-5.
  3. Cloitre M, Shevlin M, Brewin CR, Bisson JI, Roberts NP, Maercker A, et al. The International Trauma Questionnaire: development of a self-report measure of ICD-11 PTSD and complex PTSD. Acta Psychiatr Scand. 2018;138(6):536–546. doi: 10.1111/acps.12956.
  4. Larsen SE. Complex PTSD: assessment and treatment [Internet]. National Center for PTSD, US Department of Veterans Affairs [citado 13 out 2026]. Disponível em: Assessment and treatment.
  5. National Center for PTSD. International Trauma Questionnaire (ITQ) [Internet]. US Department of Veterans Affairs; 2026 [atualizado 29 abr 2026; citado 13 out 2026]. Disponível em: International Trauma Questionnaire.
  6. National Institute for Health and Care Excellence. Post-traumatic stress disorder. NICE guideline NG116 [Internet]. London: NICE; 2018 [citado 13 out 2026]. Recomendações 1.2.2 e 1.7.3. Disponível em: NICE NG116.
  7. Sele P, Hoffart A, Cloitre M, Hembree E, Øktedalen T. Comparing phase-based treatment, prolonged exposure, and skills-training for complex posttraumatic stress disorder: a randomized controlled trial. J Anxiety Disord. 2023;100:102786. doi: 10.1016/j.janxdis.2023.102786.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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