Transtorno bipolar e ciclo menstrual: como avaliar a piora antes da menstruação?

Postado em: 15/10/2026

Mãos seguram um celular com calendário de acompanhamento do ciclo menstrual.

Para avaliar a piora antes da menstruação, o psiquiatra precisa saber também como você fica depois. O desânimo pode diminuir sem que o interesse pelas atividades e a energia voltem ao habitual. Esse padrão é diferente de passar o restante do mês bem — e a diferença ajuda a esclarecer qual problema precisa ser tratado.1

É fácil que os dias mais difíceis dominem o relato. Se neles você cancela compromissos, se irrita mais ou tem dificuldade para sair da cama, é compreensível querer uma solução para esse período. Mas o tratamento também precisa considerar o que acontece entre uma piora e outra.

O que significa estar melhor depois da menstruação?

Considere duas situações ilustrativas. Em uma, a pessoa perde ainda mais energia nos dias anteriores à menstruação, mas já vinha desanimada e sem interesse durante o mês. Na outra, volta a dormir, se relacionar e realizar suas atividades como de costume depois que esses dias passam. Dizer apenas “minha TPM é muito ruim” deixa essa diferença de fora.

Quando sintomas de um transtorno já existente se intensificam antes da menstruação, o termo usado é exacerbação pré-menstrual. Isso inclui a possibilidade de sintomas antes controlados pelo tratamento reaparecerem nessa fase. Portanto, estar bem no restante do mês, por si só, também não resolve o diagnóstico.1

O transtorno disfórico pré-menstrual, ou TDPM, apresenta sintomas concentrados no período pré-menstrual, com melhora após o início da menstruação, e pode coexistir com o transtorno bipolar. Para reconhecer essa associação, é preciso distinguir seus sintomas da piora da própria bipolaridade. A diretriz CANMAT/ISBD recomenda investigar o padrão quando o transtorno bipolar está estável fora da fase sintomática e registrar os sintomas e os dias em que está bem, junto das datas da menstruação, por pelo menos dois meses. As anotações feitas no dia a dia ajudam a verificar a repetição do padrão, em vez de depender apenas da memória.2

Também pode haver um episódio de depressão, mania ou hipomania que começou perto da menstruação sem apresentar uma relação consistente com o ciclo. A duração e a evolução dos sintomas ajudam a esclarecer essa possibilidade.1 Os critérios de TPM e TDPM estão detalhados em outro artigo.

“Piorar” pode significar mudanças muito diferentes

Ao descrever o mês, vale substituir uma avaliação geral — “fiquei péssima” — pelo que mudou de fato. Dormir menos, por exemplo, pode ocorrer porque cólicas interrompem o sono, com cansaço no dia seguinte. Outra situação é dormir pouco sem sentir falta de descanso, junto de aceleração e aumento incomum de atividades. A segunda combinação pede atenção a uma possível mudança do estado de humor.3

Informação O detalhe que muda a interpretação
Sono Além das horas dormidas, houve cansaço ou você passou a precisar de menos descanso?
Energia e atividades Você recuperou a disposição habitual ou ficou acelerada de uma forma incomum?
Tristeza e interesse O desânimo diminuiu ou você voltou a se interessar pelo que gosta?
Impulsividade Houve decisões, gastos ou comportamentos que destoaram do seu habitual?
Funcionamento e contexto O que ficou prejudicado? Houve mudança de medicação, anticoncepcional ou rotina no mesmo período?

Esse quadro ajuda a organizar a conversa; não atribui pontos nem define um diagnóstico. O artigo sobre sono no transtorno bipolar aprofunda a diferença entre insônia e menor necessidade de dormir.

Se o sofrimento já é importante, a avaliação pode começar com as informações disponíveis. Os dois meses de registro ajudam a esclarecer um possível TDPM associado; não são um período obrigatório de espera. Aceleração incomum, redução acentuada da necessidade de sono ou piora que compromete suas atividades justificam antecipar o contato. Risco imediato de autoagressão ou perda de contato com a realidade exige atendimento de urgência.3,4

O tratamento precisa considerar o mês inteiro

Se há sintomas entre as pioras, o psiquiatra precisa entender o que permanece sem resposta e se existe um episódio em curso. Se o restante do mês está bem, a repetição dos sintomas em determinada fase merece uma investigação mais específica. Em ambos os casos, entram na avaliação o tratamento atual, a resposta anterior e eventuais dificuldades para seguir a prescrição.4

A pesquisa ajuda a dimensionar o problema, mas ainda não aponta um ajuste mensal que sirva para todas. No STEP-BD, 293 mulheres foram acompanhadas por um ano. As que relatavam piora pré-menstrual tiveram mais episódios, principalmente depressivos, e maior carga de sintomas. O padrão menstrual era baseado no relato, e o estudo não demonstrou que a oscilação hormonal causou os episódios.5

Em outro estudo, com uma pequena amostra de 11 mulheres com bipolaridade em tratamento e 10 participantes sem o transtorno, o acompanhamento de três ciclos não encontrou diferença significativa dos sintomas entre as fases menstruais avaliadas. O estudo não foi desenhado para medir o efeito protetor da medicação.6

Isso torna importante avaliar o seu padrão antes de modificar uma prescrição. Uma estratégia usada para TDPM não deve ser transferida automaticamente para a bipolaridade.1 No transtorno bipolar I, por exemplo, antidepressivo isolado não é recomendado para tratar a depressão. No tipo II, alguns antidepressivos podem ser considerados em situações selecionadas, especialmente quando a depressão não vem acompanhada de sinais de mania ou hipomania. Também pesa nessa decisão a ocorrência anterior de aceleração ou elevação anormal do humor com antidepressivos.4

Mudanças de anticoncepcional precisam entrar nessa história. Alguns métodos podem interagir com medicamentos psiquiátricos, e a troca ou interrupção deve ser conhecida pelos profissionais que acompanham você. Há uma explicação específica sobre essas combinações no artigo de transtorno bipolar e anticoncepcionais.2 Evite ajustar a medicação por conta própria conforme o calendário menstrual.

Para a próxima consulta, procure descrever uma diferença concreta: depois que a piora passa, quais atividades, interesses e relações voltam ao habitual — e quais continuam difíceis? Essa informação ajuda o profissional a avaliar tanto os dias que mais incomodam quanto os sintomas que podem estar passando despercebidos no restante do mês.

Referências

  1. Kuehner C, Nayman S. Premenstrual exacerbations of mood disorders: findings and knowledge gaps. Curr Psychiatry Rep. 2021;23(11):78. doi: 10.1007/s11920-021-01286-0.
  2. Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, Schaffer A, Bond DJ, Frey BN, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97–170. doi: 10.1111/bdi.12609.
  3. National Institute of Mental Health. Bipolar disorder [Internet]. Bethesda: NIMH; 2025 [citado 15 out 2026]. Disponível em: NIMH — Bipolar disorder.
  4. Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD guidelines for the treatment of bipolar disorder: summary and a 2023 update of evidence. Focus (Am Psychiatr Publ). 2023;21(4):344–53. doi: 10.1176/appi.focus.20230009.
  5. Dias RS, Lafer B, Russo C, Del Debbio A, Nierenberg AA, Sachs GS, et al. Longitudinal follow-up of bipolar disorder in women with premenstrual exacerbation: findings from STEP-BD. Am J Psychiatry. 2011;168(4):386–94. doi: 10.1176/appi.ajp.2010.09121816.
  6. Sit D, Seltman H, Wisner KL. Menstrual effects on mood symptoms in treated women with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2011;13(3):310–7. doi: 10.1111/j.1399-5618.2011.00921.x.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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