Plano de segurança na depressão: o que combinar com a equipe?

Postado em: 16/10/2026

Profissional escreve em um caderno durante conversa com uma mulher.

Se existe perigo imediato de autoagressão ou você não consegue se manter em segurança, procure um pronto-socorro e peça a alguém de confiança que acompanhe você. Não espere terminar este texto, preencher um plano ou receber uma resposta por mensagem.1

Um plano de segurança reúne, por escrito, estratégias e contatos que a pessoa combina com um profissional para momentos em que o sofrimento aumenta ou surgem pensamentos de suicídio. A ideia é deixar decisões importantes encaminhadas antes de uma crise: como perceber a piora, que apoio pode ajudar e onde procurar atendimento.2

Esse planejamento pode fazer parte do tratamento da depressão quando a avaliação identifica essa necessidade. É diferente de um “contrato de não suicídio”, em que se pede uma promessa de não se machucar. Uma promessa não esclarece quem estará disponível nem como chegar à ajuda. O plano trabalha essas dificuldades de forma concreta, junto do tratamento e do acompanhamento.1,3

“Avise alguém” precisa de uma combinação mais específica

Considere uma situação ilustrativa: uma pessoa costuma piorar à noite e recebeu a orientação de procurar alguém de confiança. Ela pensa em telefonar para a irmã, mas não sabe se pode ligar naquele horário. O consultório já fechou. Nesse momento, a recomendação deixa dúvidas justamente sobre o que fazer.

Na construção do plano, essas dúvidas precisam ser conversadas. A irmã pode receber uma ligação à noite? Sabe que poderá ser procurada por esse motivo? Se não atender, existe outra pessoa disponível? Qual serviço pode receber a pessoa quando for necessário atendimento? Os nomes, os contatos e as alternativas devem corresponder ao que foi realmente combinado.4

Também é preciso reconhecer quando usar o plano. Em vez de depender apenas de “quando eu estiver muito mal”, paciente e profissional procuram mudanças que façam sentido naquela história: pensamentos que se intensificam, comportamentos que mudam ou situações em que o sofrimento costuma aumentar. Esses sinais orientam a busca de apoio; não permitem prever uma crise com certeza.4

Algumas estratégias pessoais, escolhidas com a equipe, ajudam a atravessar um período de sofrimento. Em outros momentos, estar em um ambiente seguro com outras pessoas pode diminuir o isolamento. Já pedir ajuda explicitamente significa contar a alguém que há uma crise e que se precisa de apoio. Estar acompanhado não garante que a outra pessoa tenha entendido a gravidade do momento.2

O profissional pode ajudar a ensaiar como fazer esse pedido e a encontrar alternativas se houver vergonha, dificuldade para falar ou receio de não ser compreendido. Um contato que quase nunca está disponível não deve ser a única opção registrada.5

Qual ajuda está disponível fora do horário de consulta?

O plano deve esclarecer como contatar a equipe, em quais horários esse canal é acompanhado e qual serviço procurar fora deles. Também vale discutir como chegar ao atendimento e quem poderia acompanhar a pessoa. Enviar uma mensagem para um consultório não significa que haverá resposta imediata; o canal de consulta precisa ser diferenciado do atendimento de urgência.4

No Brasil, o CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo 188, 24 horas por dia.6 Se há perigo imediato, a orientação é procurar um serviço de urgência. Não é necessário tentar todos os contatos pessoais ou recursos do plano antes de buscar esse atendimento.1

Um plano que possa ser encontrado e usado

Deixar o ambiente mais seguro faz parte da conversa. Com o profissional e, quando pertinente, uma pessoa de confiança, combina-se como reduzir o acesso a meios de autoagressão. É uma medida prática de proteção que precisa ser discutida conforme a situação, sem depender apenas da força de vontade de quem está sofrendo.2,4

O registro pode estar em papel ou em um formato digital acessível à pessoa. O importante é conseguir encontrá-lo, ler as orientações e reconhecer o que foi combinado. Se o telefone costuma ficar sem bateria ou se um documento guardado é difícil de localizar, essa barreira precisa ser resolvida durante o planejamento.5

Os acordos também mudam. Um familiar troca de horário de trabalho, um telefone deixa de funcionar ou uma estratégia que parecia viável se mostra difícil na prática. O plano deve ser revisto quando isso acontece e depois de uma crise. Dizer que não conseguiu usá-lo ajuda a identificar o que precisa mudar.2,5

O que os estudos mostram

Uma pesquisa acompanhou 1.640 adultos atendidos por questões relacionadas ao suicídio em serviços de urgência de veteranos nos Estados Unidos, em sua maioria homens. Nos seis meses seguintes, houve registro de comportamentos suicidas, categoria que incluía tentativas e tentativas interrompidas, em 3,0% dos que receberam plano de segurança com contatos telefônicos posteriores, contra 5,3% dos que receberam o atendimento habitual. A comparação não foi randomizada: o resultado mostra uma associação favorável ao conjunto da intervenção, sem separar o efeito do plano do efeito das ligações.7

Em um ensaio randomizado publicado em 2025, acrescentar plano de segurança e acompanhamento telefônico ao atendimento padrão ampliado reduziu o número de eventos relacionados ao suicídio e de tentativas durante o ano após a saída de detenção provisória, em comparação ao atendimento padrão ampliado sozinho. Esse contexto é diferente do acompanhamento ambulatorial habitual.8

Em 2026, um estudo com 207 veteranos com alto risco de suicídio avaliou acrescentar encontros em grupo e treino de habilidades a um tratamento que já incluía plano individual. Não houve diferença significativa no tempo até o primeiro comportamento suicida. Uma análise posterior, exploratória, sugeriu maior tempo até a primeira tentativa de suicídio registrada no acompanhamento, mas esse resultado precisa de confirmação.9

Esses resultados ajudam a entender por que o plano é utilizado como parte do acompanhamento. Não se trata de entregar um documento e considerar o problema resolvido, nem de atribuir a ele um percentual de proteção para cada pessoa. O tratamento da depressão e a reavaliação da segurança continuam necessários.1,7,8

Quem apoia também precisa saber o que foi combinado

A participação de familiares ou de outras pessoas de confiança deve considerar as necessidades, o consentimento e as circunstâncias clínicas. Quem aceita ajudar precisa entender o que consegue oferecer e quando recorrer aos profissionais. Não deve assumir sozinho a responsabilidade pela segurança.4 O artigo sobre como ajudar uma pessoa com depressão aprofunda esse apoio cotidiano.

Se não há alguém disponível, isso precisa ser dito à equipe para que o planejamento considere os recursos acessíveis. A ausência de uma rede pessoal não elimina a necessidade de tratamento.1

Na próxima consulta, uma pergunta pode iniciar essa conversa: “Se eu piorar fora do horário, como vamos organizar a ajuda?”. Ao revisar o plano, vale conferir se você sabe onde ele está, consegue explicar suas orientações e reconhece alguma combinação que não funcionaria na sua rotina. Leve à equipe o que parece difícil de cumprir, para que o plano possa ser ajustado. Essa conversa é uma das formas de participar do tratamento da depressão.5

Referências

  1. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222 [Internet]. London: NICE; 2022 [citado 15 out 2026]. Disponível em: recomendações NICE NG222.
  2. Stanley-Brown Safety Planning Intervention. Home [Internet]. [citado 15 out 2026]. Disponível em: Stanley-Brown Safety Planning Intervention.
  3. US Department of Veterans Affairs. Crisis response planning and safety planning. Recommendation 7 [Internet]. VA/DoD Clinical Practice Guideline for Assessment and Management of Patients at Risk for Suicide; 2024 [citado 15 out 2026]. Disponível em: MIRECC — Recommendation 7.
  4. National Institute for Health and Care Excellence. Self-harm: assessment, management and preventing recurrence. NICE guideline NG225 [Internet]. London: NICE; 2022 [citado 15 out 2026]. Disponível em: recomendações NICE NG225.
  5. Veterans Health Administration. Safety plan: quick guide for clinicians [Internet]. Washington (DC): US Department of Veterans Affairs; 2012 [citado 15 out 2026]. Disponível em: guia clínico de planejamento de segurança.
  6. Centro de Valorização da Vida. CVV [Internet]. [citado 15 out 2026]. Disponível em: https://www.cvv.org.br/.
  7. Stanley B, Brown GK, Brenner LA, Galfalvy HC, Currier GW, Knox KL, et al. Comparison of the Safety Planning Intervention With Follow-up vs Usual Care of Suicidal Patients Treated in the Emergency Department. JAMA Psychiatry. 2018;75(9):894–900. doi: 10.1001/jamapsychiatry.2018.1776.
  8. Weinstock LM, Jones RN, Miller TR, Brown GK, Arias SA, Graves HR, et al. Safety Planning vs Standard Care for Suicide Prevention After Pretrial Jail Detention: A Randomized Clinical Trial. JAMA Netw Open. 2025;8(11):e2543156. doi: 10.1001/jamanetworkopen.2025.43156.
  9. Goodman M, Jager-Hyman S, Monahan M, Glatt S, Thase ME, O’Brien S, et al. Group-Based Suicide Safety Planning and Skills Training for Veterans With High Suicide Risk: A Randomized Clinical Trial. JAMA Netw Open. 2026;9(5):e2615029. doi: 10.1001/jamanetworkopen.2026.15029.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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