TCC-I no transtorno bipolar: como funciona e por que precisa de adaptações?

Postado em: 17/10/2026

Homem acordado na cama, com relógio digital indicando 4h56.

O humor está mais estável, o tratamento segue em andamento e a pessoa tenta manter uma rotina regular. Ainda assim, demora para adormecer ou passa longos períodos acordada durante a noite. A insônia pode continuar entre os episódios do transtorno bipolar e merece avaliação própria.1

A terapia cognitivo-comportamental para insônia, ou TCC-I, trabalha os pensamentos e comportamentos que ajudam a manter essa dificuldade. É um tratamento estruturado, com estratégias escolhidas e revistas ao longo das sessões. Na bipolaridade, as decisões também precisam considerar o humor e a resposta da pessoa às mudanças no sono.2,3

Antes das técnicas, entender o que está acontecendo à noite

O ponto de partida é reconstruir a dificuldade: quando começou, como varia, o que acontece no dia seguinte e quais tratamentos ou condições podem estar envolvidos. Medicamentos, outros problemas de sono e o estado atual do humor entram nessa avaliação.

Querer dormir, não conseguir e passar o dia cansado é diferente de dormir pouco sem sentir necessidade de descanso, sobretudo quando há aceleração ou mudança marcante de comportamento. Nessa segunda situação, pode ser necessário priorizar a avaliação de uma alteração do humor. O artigo sobre sono e transtorno bipolar desenvolve essa distinção.2

A orientação para manter horários regulares pode ser útil, mas não explica sozinha por que alguém continua acordado apesar de tentar dormir.

Quando o esforço para dormir passa a ocupar a noite

Considere o seguinte caso ilustrativo: depois de uma crise de humor associada a noites mal dormidas, uma pessoa passa a temer que qualquer dificuldade de sono provoque outra crise. Começa a se deitar cada vez mais cedo e permanece mais tempo na cama, tentando garantir descanso. Mesmo assim, continua acordada e preocupada.

Na terapia, esse receio precisa ser compreendido à luz da história real da pessoa. O profissional examina tanto a preocupação quanto o que ela passou a fazer para tentar se proteger. A cama está sendo associada a descanso ou a horas de vigília e preocupação? Que expectativa ela tem para o dia seguinte depois de uma noite ruim? Que mudanças seriam apropriadas, considerando o transtorno bipolar?

A TCC-I pode trabalhar essas associações, as expectativas sobre o sono e os comportamentos que prolongam a dificuldade. As estratégias são discutidas e testadas com acompanhamento do terapeuta. Orientações de higiene do sono, isoladamente, não equivalem à TCC-I.3

O que precisa ser adaptado na bipolaridade?

Uma das técnicas da TCC-I ajusta o tempo passado na cama para reduzir os períodos de vigília e tornar o sono mais contínuo. É a chamada restrição do tempo na cama. Seu uso exige avaliação especial quando há transtorno bipolar: o histórico de ativação após perda de sono e a situação atual do humor influenciam a escolha e a intensidade da intervenção. Essa técnica não resume toda a TCC-I, nem está automaticamente proibida para qualquer pessoa com bipolaridade.4

Regularidade do sono, sonolência durante o dia e sinais de mudança do humor precisam ser acompanhados. Se a pessoa passa a se sentir acelerada, com energia muito acima do habitual ou menor necessidade de dormir, isso deve ser comunicado à equipe para reavaliar o plano. A adaptação depende dessa observação e da comunicação com o psiquiatra; copiar uma regra de restrição encontrada na internet deixa de fora justamente essa parte do tratamento.4

A proposta é tratar a insônia junto do acompanhamento da bipolaridade. A TCC-I não substitui os medicamentos ou outras intervenções indicadas para o transtorno.2

Quanto a terapia ajudou no estudo em transtorno bipolar?

Em um ensaio piloto, 58 adultos com bipolar I, entre episódios e com insônia, foram sorteados para dois programas de oito sessões: TCC-I adaptada ou psicoeducação. Ambos os grupos mantiveram acompanhamento psiquiátrico.1

Remissão da insônia, pela escala ISI TCC-I adaptada Psicoeducação
Ao terminar as oito sessões 72,7% 14,3%
Na avaliação seis meses depois 63,6% 21,1%

Nesse estudo, remissão significava atingir menos de oito pontos no Índice de Gravidade da Insônia (ISI), faixa que não indica insônia clinicamente significativa nessa escala. Os percentuais consideram quem tinha dados disponíveis. Quem não alcançou remissão pode ter melhorado parcialmente.1

Em seis meses, recaídas de mania ou hipomania ocorreram em 4,6% versus 31,6%. Não houve diferença estatisticamente significativa para recaídas depressivas ou para o conjunto de recaídas. O estudo é pequeno, realizado em bipolar I entre episódios; não estabelece o benefício em bipolar II ou mania aguda.1

TCC-I, TCC para bipolaridade e terapia de ritmos sociais

As abordagens têm pontos de contato, mas respondem a dificuldades diferentes. A TCC no transtorno bipolar pode trabalhar questões mais amplas do tratamento, dos sintomas e do funcionamento. A TCC-I concentra o trabalho na insônia. Já a terapia interpessoal e de ritmos sociais, conhecida como IPSRT, relaciona acontecimentos interpessoais, rotinas e estabilidade dos ritmos e do humor.2

O artigo sobre ritmo circadiano, depressão e bipolaridade explica melhor a IPSRT. As abordagens podem compartilhar estratégias, como atenção à regularidade, sem serem o mesmo tratamento.

Ao discutir TCC-I, vale perguntar quais fatores parecem manter sua insônia, que adaptações seriam necessárias e como o sono e o humor serão acompanhados. Avaliar o progresso inclui a dificuldade para dormir e o funcionamento durante o dia, além do número de horas dormidas. Se houver mudanças de energia ou da necessidade de sono durante o processo, conte à equipe antes de seguir com novas etapas do plano.

Referências

  1. Harvey AG, Soehner AM, Kaplan KA, Hein K, Lee J, Kanady J, et al. Treating insomnia improves mood state, sleep, and functioning in bipolar disorder: a pilot randomized controlled trial. J Consult Clin Psychol. 2015;83(3):564–577. doi:10.1037/a0038655. Texto disponível no repositório da University of Pennsylvania.
  2. National Institute of Mental Health. Bipolar disorder [Internet]. Bethesda: NIMH; 2025 [citado 16 out 2026]. NIH Publication No. 25-MH-8088. Disponível em: NIMH.
  3. Edinger JD, Arnedt JT, Bertisch SM, Carney CE, Harrington JJ, Lichstein KL, et al. Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. J Clin Sleep Med. 2021;17(2):255–262. doi:10.5664/jcsm.8986.
  4. Kaplan KA, Harvey AG. Behavioral treatment of insomnia in bipolar disorder. Am J Psychiatry. 2013;170(7):716–720. doi:10.1176/appi.ajp.2013.12050708.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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