Ritmo circadiano, depressão e transtorno bipolar: o papel da rotina no tratamento

Postado em: 19/09/2026

Pessoa organizando compromissos em um calendário semanal.

Uma mudança de emprego pode trazer satisfação e, ao mesmo tempo, alterar boa parte da vida: reuniões à noite, refeições mais tarde, menos convivência com o parceiro e pouco espaço para descansar. Para uma pessoa em tratamento de um transtorno do humor, entender essa mudança exige olhar tanto para os horários quanto para as relações.

É por isso que perguntas sobre trabalho, sono e convivência entram na consulta. Elas ajudam a identificar dificuldades que podem ser trabalhadas no cuidado — sem atribuir a depressão ou o transtorno bipolar à falta de organização.

O ritmo circadiano participa dessa história. Ele corresponde à organização de funções biológicas em ciclos de aproximadamente 24 horas, ajustada por sinais como a luz. O sono interage com esse sistema, mas também depende da necessidade de descanso acumulada durante o tempo acordado.1

Uma das abordagens que considera essas relações é a terapia interpessoal e de ritmos sociais, conhecida pela sigla inglesa IPSRT. Ela combina o trabalho com dificuldades nas relações e a organização de rotinas, dentro de um plano de tratamento.2

O que os estudos mostram na depressão e no transtorno bipolar?

Um episódio depressivo pode ocorrer na depressão unipolar ou no transtorno bipolar. Na bipolaridade, a história inclui episódios de mania ou hipomania, conforme o tipo de transtorno. Essa distinção orienta o tratamento; não pode ser feita apenas observando o horário em que alguém dorme ou a intensidade da tristeza.3

Também muda o que podemos esperar de cada intervenção. Aliviar um episódio atual, recuperar o funcionamento e diminuir a chance de novos episódios são objetivos relacionados, mas não idênticos.

A terapia interpessoal, ou IPT, trabalha dificuldades nas relações e mudanças de vida relacionadas à depressão. A IPSRT adapta essa abordagem e acrescenta um trabalho estruturado com os ritmos sociais.2 As evidências precisam ser consideradas conforme o método e a condição estudados:

Situação estudada O que a pesquisa permite dizer
Transtorno bipolar I e novos episódios Um ensaio com 175 participantes comparou IPSRT com manejo clínico intensivo — acompanhamento estruturado com orientação sobre a doença e os medicamentos, revisão de sintomas e apoio. Todos recebiam medicação. Receber IPSRT na fase aguda esteve associado a mais tempo sem novo episódio durante a manutenção, após os ajustes da análise. Não houve diferença no tempo até a estabilização inicial.4
Episódio de depressão bipolar No STEP-BD, com 293 participantes, psicoterapias intensivas associadas à medicação favoreceram a recuperação em comparação com uma intervenção psicoeducativa breve. Cada participante do grupo intensivo recebeu uma das três abordagens: IPSRT, terapia cognitivo-comportamental (TCC) ou terapia focada na família. A análise principal considerou seus resultados em conjunto; o benefício não pode ser atribuído exclusivamente à IPSRT.5
Depressão unipolar A diretriz NICE inclui a terapia interpessoal entre as opções de tratamento, especialmente quando dificuldades relacionais, perdas ou mudanças de papel são relevantes. Isso não equivale a demonstrar a mesma eficácia para IPSRT ou para regular horários isoladamente.6

No estudo de recorrência bipolar, maior regularidade dos ritmos sociais também se associou a menor probabilidade de um novo episódio. Essa associação ajuda a investigar como o tratamento pode funcionar, mas não demonstra que todo o benefício se deva à normalização do relógio biológico.4

Prevenir recaídas, nesse contexto, significa trabalhar para reduzir a chance de o quadro voltar em quem já adoeceu. Não significa impedir o primeiro aparecimento do transtorno bipolar nem garantir que nunca haverá outro episódio. Uma recaída também não é prova de que a pessoa falhou em cumprir sua rotina.

O que a IPSRT trabalha além do sono?

O componente interpessoal examina acontecimentos e relações que afetam o humor: perdas, conflitos, mudanças de responsabilidades e dificuldades de apoio. O componente de ritmos sociais observa como a vida se organiza no tempo — levantar, fazer refeições, começar atividades e conviver com outras pessoas.2

Na IPSRT, essas dificuldades são trabalhadas junto com a rotina. O objetivo é construir mudanças que possam ser sustentadas e preparar a pessoa para situações que tendem a desorganizá-la. Por isso, a abordagem vai além de higiene do sono e não é outro nome para TCC.2,7

Figura com três painéis. Relações — perdas, conflitos, mudanças de responsabilidades, comunicação e apoio — e ritmos sociais — sono e despertar, refeições, atividades e convivência — são integrados na terapia interpessoal e de ritmos sociais, IPSRT. O trabalho inclui entender o contexto, negociar mudanças viáveis e preparar transições. No transtorno bipolar, a IPSRT foi estudada como complemento à medicação; o cuidado também inclui acompanhamento clínico e plano para sinais de piora. A evidência de terapia interpessoal, IPT, na depressão unipolar não demonstra a mesma eficácia para IPSRT ou regular horários isoladamente.
Relações e ritmos sociais integrados ao cuidado.

Como esse trabalho acontece nas sessões?

O início envolve conhecer a história dos episódios de humor e o que estava acontecendo na vida em cada período. Paciente e terapeuta examinam relações importantes, mudanças de papel, horários e dificuldades atuais. A partir daí, escolhem um problema interpessoal prioritário e aspectos da rotina que valha a pena acompanhar.7

Observar os horários tem uma finalidade clínica: perceber padrões e testar ajustes. O registro, sozinho, não faz diagnóstico nem mede diretamente a fase do relógio biológico.

Os ajustes são negociados. Pode haver mais margem para proteger um intervalo de refeição do que para mudar uma escala de trabalho. Às vezes, a dificuldade está em pedir apoio ou conversar sobre expectativas; em outras, é uma limitação concreta que não depende só do paciente. O plano precisa distinguir essas situações.

Ao longo do acompanhamento, também se prepara a continuidade do cuidado em viagens, férias e transições de trabalho. A frequência e a duração das sessões são definidas conforme o plano terapêutico.2,7

O acompanhamento da rotina precisa ajudar a compreender a vida, não consumir o dia. Se preencher registros se torna pesado ou pouco útil, isso deve ser discutido. Da mesma forma, conhecer a proposta do profissional ajuda a distinguir uma psicoterapia estruturada de orientações gerais sobre hábitos.

Duas situações em que relações e horários se cruzam

As situações a seguir são fictícias e didáticas. Não descrevem pacientes da Genuine Mental Health nem resultados de tratamento.

Transtorno bipolar e um emprego novo

Rafael está em acompanhamento por transtorno bipolar e começa em uma empresa na qual os colegas costumam estender reuniões até a noite. Ele teme parecer pouco comprometido se sair antes. Aos poucos, passa a jantar em horários muito diferentes e cancela momentos que havia combinado com o parceiro.

Em uma proposta de IPSRT, a mudança de emprego pode ser compreendida como uma transição de papel: há novas expectativas, vontade de pertencer ao grupo e receio de decepcionar. O terapeuta e Rafael poderiam explorar o que foi realmente solicitado pela equipe e o que ele está assumindo sem conversar.

Uma possibilidade seria preparar uma conversa sobre disponibilidade e testar um horário de encerramento em determinados dias. Outra seria negociar com o parceiro quais compromissos precisam ser preservados e quais podem mudar. Essas escolhas seriam acompanhadas junto dos horários de sono, refeições e nível de atividade.

Não se trata de pedir que Rafael evite responsabilidades ou abra mão do emprego. A questão é encontrar condições de exercer esse papel sem deixar que toda a rotina dependa de demandas imprevistas. A participação do parceiro seria combinada com ele, como apoio, não como fiscalização.

O tratamento medicamentoso e o acompanhamento continuam. Se surgirem sinais já reconhecidos de piora, entra em ação o plano combinado com a equipe; não se espera que uma negociação de horários resolva sozinha um episódio de humor. A situação ilustra a integração entre transição de papel, comunicação e ritmos sociais.7,8

Depressão depois de uma separação

Marina está em tratamento de depressão unipolar após uma separação. Antes, costumava dividir refeições e tarefas com o companheiro. Agora, trabalha em casa, evita os amigos porque não quer explicar o que aconteceu e percebe que os dias passaram a ter poucos compromissos fora do trabalho.

Uma abordagem interpessoal poderia explorar a perda da relação, as mudanças de responsabilidades e as dificuldades de buscar apoio. Talvez Marina queira retomar contato com uma amiga, mas tema que o encontro se transforme em uma conversa para a qual ainda não está preparada.

Ela e o terapeuta poderiam pensar em como dizer do que precisa: companhia para um almoço, por exemplo, sem a obrigação de falar sobre a separação. Esse encontro teria um sentido relacional e também daria alguma estrutura ao dia. O horário seria consequência de um compromisso possível, não uma tarefa imposta para demonstrar esforço.

A organização de atividades pode acompanhar esse trabalho, respeitando a energia disponível e a evolução do quadro. Se Marina continua muito deprimida, a equipe reavalia o tratamento; não conclui que basta preencher a agenda.

O exemplo mostra princípios interpessoais e cuidado com a rotina na depressão. Não demonstra eficácia específica da IPSRT para depressão unipolar. A base clínica aqui é o trabalho com relações, perdas e transições descrito para a terapia interpessoal.6

Como o cuidado dos ritmos se integra ao tratamento?

No tratamento do transtorno bipolar, a escolha de psicoterapia considera a fase atual, as necessidades e as preferências da pessoa. A diretriz NICE recomenda intervenções psicológicas estruturadas, desenvolvidas para bipolaridade, no cuidado de sintomas persistentes e na prevenção de recaídas. Isso inclui reconhecer dificuldades, acompanhar mudanças e construir um plano para novos sinais de piora.8

Nos estudos de transtorno bipolar citados aqui, a IPSRT foi avaliada como complemento do tratamento medicamentoso. Melhorar a organização do dia não é motivo para interromper a medicação por conta própria.3,4,5

Se houver insônia persistente, ela também merece avaliação própria. A terapia cognitivo-comportamental para insônia, TCC-I, é uma intervenção específica, com recomendações clínicas próprias; não se resume à regularidade de horários.9 O artigo sobre insônia e quando procurar ajuda explica melhor esse cuidado.

Um ensaio com 291 adultos de 60 anos ou mais, com insônia e sem depressão maior no ano anterior, encontrou menor ocorrência de depressão no grupo tratado com TCC-I do que no grupo que recebeu educação sobre sono. É uma evidência de prevenção para aquela intervenção e população — não uma demonstração de que IPSRT ou uma rotina regular previnem depressão em qualquer idade.10

Quando ajustar a rotina não basta?

Uma redução marcante do sono acompanhada de energia crescente, aceleração ou impulsividade merece contato rápido com a equipe. O mesmo vale para uma piora importante da depressão. Não é necessário completar semanas de registros antes de procurar ajuda. Diante de risco imediato de autoagressão, comportamento perigoso ou incapacidade de manter a segurança, procure um serviço de emergência.3,8

A diferença entre dificuldade para dormir e menor necessidade de sono está detalhada no artigo sobre sono e transtorno bipolar.

O que vale levar para a próxima consulta?

Não é preciso chegar com uma planilha pronta. Um ou dois exemplos concretos podem abrir uma conversa mais útil:

  • O que mudou nos meus horários e nas minhas relações antes da piora?
  • Qual compromisso ou dificuldade está mais atrapalhando a rotina?
  • Que parte posso negociar e em que ponto preciso de apoio?
  • Uma terapia com foco interpessoal e em ritmos sociais faz sentido para o meu quadro?
  • Quais sinais devem motivar contato com a equipe antes da próxima consulta?

Referências

  1. National Heart, Lung, and Blood Institute. How sleep works: your sleep/wake cycle. 2022.
  2. Interpersonal and Social Rhythm Therapy. IPSRT overview. Descrição da abordagem pela equipe desenvolvedora.
  3. National Institute of Mental Health. Bipolar disorder. Revisado em 2025.
  4. Frank E, Kupfer DJ, Thase ME, et al. Two-year outcomes for interpersonal and social rhythm therapy in individuals with bipolar I disorder. Arch Gen Psychiatry. 2005;62(9):996–1004. doi:10.1001/archpsyc.62.9.996.
  5. Miklowitz DJ, Otto MW, Frank E, et al. Psychosocial treatments for bipolar depression: a 1-year randomized trial from the Systematic Treatment Enhancement Program. Arch Gen Psychiatry. 2007;64(4):419–426. doi:10.1001/archpsyc.64.4.419.
  6. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management — NG222. Tabelas de opções terapêuticas: psicoterapia interpessoal.
  7. Frank E, Swartz HA, Boland E. Interpersonal and social rhythm therapy: an intervention addressing rhythm dysregulation in bipolar disorder. Dialogues Clin Neurosci. 2007;9(3):325–332. doi:10.31887/DCNS.2007.9.3/efrank.
  8. National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management — CG185. Recomendações 1.2.2, 1.2.5 e 1.7.3–1.7.4. Atualizado em 2025.
  9. Edinger JD, Arnedt JT, Bertisch SM, et al. Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. J Clin Sleep Med. 2021;17(2):255–262. doi:10.5664/jcsm.8986.
  10. Irwin MR, Carrillo C, Sadeghi N, et al. Prevention of incident and recurrent major depression in older adults with insomnia: a randomized clinical trial. JAMA Psychiatry. 2022;79(1):33–41. doi:10.1001/jamapsychiatry.2021.3422.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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