Depressão grave: quando o acompanhamento no consultório não é suficiente?
Postado em: 17/10/2026
O acompanhamento precisa ser revisto quando as consultas e o apoio disponíveis já não permitem responder à gravidade dos sintomas, às dificuldades para se alimentar e cuidar de si ou aos riscos presentes. Isso pode exigir contatos mais próximos, avaliação imediata ou tratamento hospitalar. O nome do diagnóstico, sozinho, não decide o local do atendimento.1
Se há perigo imediato de autoagressão, incapacidade de se manter em segurança ou comprometimento importante de necessidades básicas, como deixar de comer ou beber, procure atendimento de urgência. Peça companhia e não espere a próxima consulta ou uma resposta por mensagem.1,2
Fora dessas situações imediatas, uma piora importante também precisa ser comunicada. A equipe pode precisar rever o plano antes da data marcada.
O que ficou difícil desde a última consulta?
“Estou pior” é uma informação importante. Descrever o que mudou ajuda a equipe a compreender a dimensão dessa piora: conseguir preparar uma refeição, sair da cama, tomar os medicamentos conforme a prescrição ou comparecer aos atendimentos pode ter se tornado muito mais difícil. A depressão afeta energia, concentração, tomada de decisões e funcionamento cotidiano, além do humor.2
Na avaliação, também entram pensamentos de morte ou autoagressão, mudanças marcantes do comportamento, condições físicas e a possibilidade real de seguir o tratamento. Ter uma consulta agendada não resolve, por si só, a situação de quem já não consegue chegar até ela. Esses elementos são avaliados em conjunto, sem uma contagem de sintomas que a família deva fazer em casa.1
Pode ajudar levar uma anotação curta:
- O que mudou e desde quando: alimentação, ingestão de líquidos, sono, higiene, tarefas e contato com outras pessoas.
- Quais pensamentos ou comportamentos preocupam, incluindo falas sobre morte ou dificuldade para permanecer em segurança.
- Quais tratamentos estão em uso e o que ficou difícil de manter: tomar a medicação, ir às sessões, buscar receitas ou retornar à consulta.
- Quem consegue ajudar de fato, em quais momentos, e que dificuldades de transporte, moradia ou acesso precisam ser consideradas.
Não é preciso completar essa lista antes de procurar atendimento. Se você não souber responder, diga o que percebeu e o que ainda está incerto.
Mais acompanhamento, avaliação de urgência e hospital têm funções diferentes
Quando há condições de seguir fora do hospital, a equipe pode reorganizar a frequência dos contatos, rever o tratamento e combinar o que fazer se a situação mudar. A disponibilidade de apoio faz parte dessa decisão. Um familiar morar na mesma casa não significa que consiga assumir sozinho todas as necessidades ou reconhecer e manejar uma crise.1
Uma avaliação de urgência serve para examinar o que precisa ser feito naquele momento, inclusive quanto à saúde física. Ela pode levar a mudanças no plano ou à indicação de internação, conforme a avaliação. Não é necessário percorrer primeiro todas as alternativas ambulatoriais para chegar a esse atendimento.
O hospital oferece proteção, avaliação clínica e tratamento durante uma fase em que esses recursos são necessários. A decisão considera se as necessidades da pessoa podem ser atendidas com segurança fora dele. Internação não significa que a família falhou nem encerra, por si só, o tratamento da depressão.1,3
Também é importante separar gravidade de resistência ao tratamento. A gravidade diz respeito ao episódio e às suas consequências; resistência se refere à resposta insuficiente a tratamentos adequados. Uma pessoa pode precisar de atendimento intensivo já no primeiro episódio, antes de ter passado por diferentes medicamentos. Não se deve esperar falhas sucessivas para avaliar uma crise.2
Onde entram os serviços do SUS?
Na rede pública, a atenção básica, os Centros de Atenção Psicossocial — CAPS — e os serviços de urgência e hospitalares exercem funções diferentes e devem se articular. Os CAPS oferecem acompanhamento por equipe multiprofissional e atendimento a pessoas em sofrimento psíquico intenso, inclusive em crises. Procurar um CAPS não significa automaticamente ser internado.4
As modalidades e os horários variam. Alguns CAPS funcionam 24 horas e têm acolhimento noturno; isso não se aplica a todas as unidades. O primeiro acolhimento pode ocorrer por procura direta, sem consulta marcada. A UBS da região ou a Secretaria Municipal de Saúde pode informar qual CAPS atende seu território e seus horários. Diante de uma urgência, a pessoa pode precisar de pronto-socorro ou UPA, sem esperar uma vaga em consulta programada.4
Os profissionais que darão continuidade ao tratamento precisam saber o que foi avaliado e qual plano foi definido durante a passagem pelo hospital.3,4
O que precisa estar combinado ao voltar para casa?
A alta hospitalar não significa que todos os sintomas desapareceram. Ela exige um plano viável para continuar o tratamento fora do hospital. Antes de sair, é importante entender quem acompanhará o caso, quando ocorrerá o próximo contato e como serão obtidos os medicamentos prescritos. Peça que essas orientações fiquem por escrito, para consultá-las depois. Se alguma dessas etapas não for possível, essa dificuldade precisa ser discutida ainda com a equipe.1,3
Quando indicado, um plano de segurança na depressão ajuda a deixar estratégias e contatos definidos para momentos de piora. Ele faz parte do acompanhamento e não substitui a assistência necessária durante uma crise.
Quem apoia também precisa saber o que foi combinado e o que consegue assumir. O artigo sobre como ajudar uma pessoa com depressão desenvolve formas de apoio no cotidiano. Para o paciente, participar do plano de tratamento pode começar por esclarecer três pontos antes de encerrar o atendimento: qual é o próximo passo, quem ficará responsável e onde procurar ajuda se não for possível esperar.
Referências
- National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222 [Internet]. London: NICE; 2022 [citado 16 out 2026]. Disponível em: NICE.
- National Institute of Mental Health. Depression [Internet]. Bethesda: NIMH; 2024 [citado 16 out 2026]. Disponível em: NIMH.
- Brasil. Ministério da Saúde. Atenção hospitalar [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2021 [citado 16 out 2026]. Disponível em: Ministério da Saúde.
- Brasil. Ministério da Saúde. Centros de Atenção Psicossocial [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde [citado 16 out 2026]. Disponível em: Ministério da Saúde.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.