Corticoides podem alterar o humor e o sono? O que observar e informar ao médico
Postado em: 17/10/2026
Sim. Corticoides podem causar dificuldade para dormir e mudanças de humor ou comportamento. O foco aqui são os corticoides sistêmicos, usados para agir no organismo como um todo. Prednisona, prednisolona e dexametasona são exemplos de medicamentos empregados nesse tipo de tratamento. Reconhecer uma possível reação permite discuti-la com o prescritor e avaliar como manter o tratamento necessário.1
Esses medicamentos não são os esteroides anabolizantes usados para ganho de massa muscular. Também não se deve aplicar automaticamente o que foi observado com corticoides por via oral a qualquer spray, inalador ou pomada: a exposição ao medicamento e as circunstâncias de uso são diferentes.
Que mudanças merecem ser relatadas?
Pode surgir insônia, inquietação ou irritabilidade. Algumas pessoas se sentem com energia muito acima do habitual, mais aceleradas ou com uma mudança de comportamento percebida pela família. Outras apresentam ansiedade ou humor deprimido. A intensidade e a combinação desses sintomas variam.1,2
Para o médico, faz diferença saber se você quer dormir, não consegue e passa o dia esgotado, ou se está dormindo muito menos e se sentindo excepcionalmente disposto. Também vale contar se ficou mais difícil se concentrar, conversar ou manter as atividades habituais. Não é preciso encontrar o nome médico do que está acontecendo para pedir uma avaliação.2,3
Se a dificuldade principal for dormir, descreva como eram suas noites antes do tratamento e o que mudou. O artigo sobre insônia e saúde mental ajuda a reconhecer as diferentes formas desse problema.
A sequência dos acontecimentos ajuda a investigar
Algumas reações aparecem cedo, após o início do corticoide. Também há relatos durante a retirada. Por isso, importa contar quando o medicamento começou, se houve alguma mudança prescrita e em que momento surgiram as alterações. Não existe um prazo único que confirme ou exclua a relação com o tratamento.1
A avaliação precisa considerar o que mais estava acontecendo: a própria doença, dor, dificuldade respiratória, outros medicamentos e sintomas anteriores podem interferir no sono e no estado emocional. Aparecer depois do remédio é uma pista, mas não prova sozinho que ele foi a causa. Da mesma forma, sentir-se acelerado durante o uso não basta para concluir que há transtorno bipolar.3
Um estudo sueco analisou registros de mais de 1,1 milhão de usuários de corticoides orais, de 15 a 54 anos. A pesquisa associou os períodos de uso a um aumento modesto no risco de atendimentos psiquiátricos especializados não programados. A frequência desses atendimentos não mostra quantas pessoas tiveram insônia ou irritabilidade, pois o estudo avaliou apenas as situações que chegaram a esse tipo de serviço.4
Na análise que comparou períodos com e sem uso na mesma pessoa, não houve associação clara com comportamento suicida. A doença que motivou a prescrição e outros fatores que mudam ao longo do tempo podem influenciar os resultados. Portanto, a pesquisa não permite calcular a chance individual de reação nem atribuir todo sintoma ao corticoide.4
O que informar ao profissional que prescreveu
Um registro breve já pode ajudar. Leve a receita, a embalagem ou uma lista que permita conferir:
- Nome do corticoide, motivo do uso, dose e horário prescritos.
- Data de início e mudanças recentes orientadas pelo médico, incluindo o término do tratamento, se já ocorreu.
- Quando começou a alteração de sono, humor ou comportamento e como ela afetou o dia a dia.
- Outros medicamentos e substâncias em uso, além de episódios semelhantes no passado.
Não é necessário esperar várias noites para reunir um histórico completo. Uma mudança importante deve ser comunicada mesmo que você ainda não saiba descrevê-la com precisão. Se alguém próximo percebeu algo diferente, essa observação também pode ajudar.
O prescritor e o psiquiatra podem precisar trocar informações para avaliar as possíveis causas e decidir o que fazer. A conduta depende tanto da reação suspeita quanto da doença em tratamento; acrescentar um remédio para dormir não deve ser uma resposta automática. Se for indicada uma avaliação programada, veja como funciona a primeira consulta com psiquiatra.
Quando a avaliação não pode esperar
Confusão, ouvir ou ver coisas que outras pessoas não percebem, perder o contato com a realidade, comportamento muito diferente do habitual ou risco de autoagressão pedem avaliação urgente. Nessas situações, procure um serviço de urgência e peça que alguém acompanhe você. Não espere retorno por mensagem de um consultório.2
Não interrompa nem reduza o corticoide por conta própria. Além de prejudicar o tratamento da doença de base, uma retirada inadequada pode causar problemas porque o organismo pode ter reduzido sua produção natural de cortisol, especialmente após uso prolongado. A forma de encerrar o tratamento precisa ser definida pelo prescritor.5
Referências
- Medicines and Healthcare products Regulatory Agency. Corticosteroids: early psychiatric side-effects [Internet]. London: MHRA; 2014 [alerta original de set 2007; citado 16 out 2026]. Disponível em: GOV.UK.
- National Health Service. Side effects of prednisolone tablets and liquid [Internet]. NHS; 2022 [citado 16 out 2026]. Disponível em: NHS.
- National Institute of Mental Health. Bipolar disorder [Internet]. Bethesda: NIMH; 2025 [citado 16 out 2026]. NIH Publication No. 25-MH-8088. Disponível em: NIMH.
- Lagerberg T, Gustafsson TT, Molero Y, Forton J, Sariaslan A, Chang Z, et al. Oral glucocorticoids and risk of psychiatric and suicidal behaviour outcomes: population-based cohort study. Br J Psychiatry. 2026;229(1):43–50. doi:10.1192/bjp.2025.128.
- A-S Medication Solutions. Prednisone tablets, USP [bula, Internet]. DailyMed; 2026 [revisão do registro: jun 2026; citado 16 out 2026]. Disponível em: DailyMed.
Foto: Tony Webster / Wikimedia Commons, CC BY 4.0.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.