Zolpidem: quando reavaliar o uso para dormir
Postado em: 17/10/2026
O zolpidem pode ajudar quem tem dificuldade para adormecer e, conforme a apresentação, para manter o sono. É um hipnótico não benzodiazepínico, também chamado de medicamento Z. Quando o uso se prolonga, a pergunta deixa de ser apenas se ele faz dormir: é preciso verificar se continua ajudando, como a pessoa passa o dia e o que mantém a insônia.¹
Na síntese de dez ensaios usada na diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono, adultos com insônia crônica relataram levar, em média, cerca de 20 minutos menos para adormecer com zolpidem do que com placebo. Nas avaliações em laboratório do sono, a diferença média foi de aproximadamente 12 minutos, em cinco ensaios. Esses resultados vêm de estudos de zolpidem oral de liberação imediata, com durações diferentes; não são uma previsão para todas as apresentações ou pessoas. A certeza dessas estimativas foi considerada muito baixa, principalmente pelas diferenças entre os estudos e suas limitações.¹
O sono melhorou. E a manhã seguinte?
Adormecer mais depressa pode fazer diferença depois de noites difíceis. Mas sonolência ao levantar, lentidão para reagir ou dificuldade de concentração também entram na avaliação. Se a pessoa dorme melhor e passa a cometer erros no trabalho, por exemplo, esse resultado precisa ser descrito ao prescritor.²
O prejuízo no dia seguinte pode existir mesmo quando a pessoa se sente desperta. A sensação de estar alerta não é suficiente para concluir que dirigir será seguro. A bula brasileira consultada orienta não dirigir veículos nem operar máquinas durante o tratamento. Informe ao médico se essas atividades fazem parte da sua rotina, para que isso seja considerado na prescrição.²³
Não combine zolpidem com álcool. Outros medicamentos que causam sedação também precisam ser conferidos pelo prescritor; a associação pode intensificar seus efeitos. Leve a relação completa do que utiliza, inclusive remédios sem receita, sem suspender por conta própria outros tratamentos já prescritos.³
Por que revisar antes de renovar a receita
A orientação brasileira é usar zolpidem pelo menor tempo necessário. Prolongar o tratamento além de quatro semanas exige reavaliação, porque os riscos de abuso e dependência aumentam com a dose e a duração do uso.⁴ Esse marco serve para revisar a indicação e o plano; não é uma instrução para interromper o medicamento abruptamente ao completar um mês.
Se a insônia persiste, renovar a receita ou aumentar a quantidade pode deixar o problema principal sem avaliação. O médico precisa saber como estão os horários de sono, o humor, a ansiedade, o consumo de substâncias e os demais medicamentos. Ronco intenso e pausas respiratórias percebidas por alguém próximo, por exemplo, podem apontar para apneia do sono e mudar a investigação.⁵
A reavaliação pode levar à manutenção por um período definido, a uma mudança no tratamento ou a uma retirada planejada. Se você usa zolpidem há meses, procure lembrar quando o sono e os efeitos do medicamento foram avaliados pela última vez, além da renovação da receita.
Perder efeito e dormir pior ao tentar parar são situações diferentes
Três fenômenos podem aparecer durante o uso e a retirada:³
- Tolerância: o efeito para dormir diminui com o uso repetido. Relate essa mudança, sem aumentar a dose sozinho.
- Dependência física: o organismo se adapta ao medicamento; a interrupção pode provocar abstinência, com ansiedade, agitação e piora do sono.
- Insônia de rebote: após a retirada, a dificuldade para dormir volta temporariamente mais intensa do que antes do tratamento.
Dormir pior ao tentar parar pode refletir rebote, abstinência ou retorno da insônia. Uma noite ruim não demonstra necessidade de uso indefinido. A retirada deve ser planejada com o médico e pode exigir redução gradual, conforme o tempo e a forma de uso e o estado clínico.³
Há uma situação em que não se deve esperar a próxima consulta
Se você ou alguém próximo perceber atividades realizadas sem estar plenamente acordado — como cozinhar, sair de casa ou dirigir —, interrompa o zolpidem e procure orientação médica imediatamente. A pessoa pode não se lembrar do episódio na manhã seguinte. A recomendação se aplica também quando há relato de atividades realizadas após tomar o medicamento das quais ela não tem memória.⁶
Esses são os chamados comportamentos complexos do sono. Podem causar lesões graves e são diferentes da sonolência ou lentidão na manhã seguinte. Havendo lesão ou perigo imediato, procure atendimento de urgência. Essa situação é uma exceção à orientação de planejar a retirada habitual com o prescritor.²⁶
Tratar a insônia para além do efeito do comprimido
Na insônia crônica, a terapia cognitivo-comportamental para insônia, ou TCC-I, é uma opção central. Ela trabalha fatores que mantêm a dificuldade para dormir: passar longos períodos acordado na cama, antecipar uma noite ruim e ficar cada vez mais alerta tentando forçar o sono. O tratamento pode reorganizar essa relação com a cama e examinar pensamentos e comportamentos que perpetuam o problema.⁵
É uma intervenção estruturada, que vai além de reduzir café ou telas. Pode integrar a revisão do tratamento medicamentoso, mas não garante que toda pessoa conseguirá retirar zolpidem. As estratégias devem ser adaptadas ao quadro clínico; reduzir o tempo na cama por conta própria, por exemplo, não é uma orientação adequada, especialmente para quem tem transtorno bipolar. O artigo sobre insônia e quando procurar ajuda explica melhor essa avaliação.⁵
Para o próximo atendimento, anote há quanto tempo usa zolpidem, qual apresentação toma e como realmente o utiliza. Descreva o que melhorou e o que incomoda, incluindo o funcionamento durante o dia, esquecimentos, quedas ou relatos de quem presencia seu sono. Leve também a lista dos demais medicamentos e informe o consumo de álcool. Esses detalhes permitem discutir um plano para as próximas semanas: o que manter ou modificar, qual resultado observar e quando reavaliar.
Referências
1. Sateia MJ, Buysse DJ, Krystal AD, Neubauer DN, Heald JL. Clinical practice guideline for the pharmacologic treatment of chronic insomnia in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. J Clin Sleep Med. 2017;13(2):307–349. doi:10.5664/jcsm.6470. Texto integral.
2. US Food and Drug Administration. Questions and answers: risk of next-morning impairment after use of insomnia drugs; FDA requires lower recommended doses for certain drugs containing zolpidem (Ambien, Ambien CR, Edluar, and Zolpimist) [Internet]. Silver Spring: FDA; [s.d.] [citado 17 out 2026]. Documento oficial.
3. Eurofarma Laboratórios SA. Hemitartarato de zolpidem: bula do paciente, comprimidos revestidos. VP_V03 [Internet]. São Paulo: Eurofarma; 2026 [citado 17 out 2026]. Atualizada conforme bula-padrão aprovada pela Anvisa em 23 jan 2026. Bula do fabricante.
4. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Comunicado GGMON 02/2024: medicamento zolpidem terá alteração no tipo de receita para prescrição e venda [Internet]. Brasília: Anvisa; 15 maio 2024 [citado 17 out 2026]. Comunicado oficial.
5. Department of Veterans Affairs, Department of Defense. VA/DoD clinical practice guideline for the management of chronic insomnia disorder and obstructive sleep apnea: provider summary. Version 3.0 [Internet]. Washington (DC): VA/DoD; 2025 [citado 17 out 2026]. Resumo profissional.
6. US Food and Drug Administration. Certain prescription insomnia medicines: new boxed warning — due to risk of serious injuries caused by sleepwalking, sleep driving and engaging in other activities while not fully awake [Internet]. Silver Spring: FDA; 30 abr 2019 [citado 17 out 2026]. Alerta oficial.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.