Transtorno bipolar e compulsão alimentar: como reconhecer e tratar os dois problemas?
Postado em: 18/10/2026
Sentir mais fome, passar por momentos em que parece impossível parar de comer e ganhar peso são experiências diferentes. Podem acontecer juntas, mas uma não comprova a outra. Na pessoa com transtorno bipolar, entender o que mudou na alimentação ajuda a escolher o tratamento sem atribuir tudo ao humor ou ao medicamento.
A perda de controle merece atenção mesmo quando o peso pouco mudou. Comer muito em uma ocasião, por outro lado, não basta para diagnosticar um transtorno alimentar.¹
O que acontece durante os episódios?
Um episódio de compulsão alimentar envolve comer uma quantidade incomumente grande em um período delimitado, com a sensação de não conseguir parar ou controlar o que se come. Pode haver ingestão rápida, desconforto por estar muito cheio e vergonha que leva a comer escondido. Para diagnosticar o transtorno de compulsão alimentar, o profissional investiga a repetição dos episódios, o sofrimento e o contexto em que ocorrem.¹
Considere duas situações ilustrativas: alguém passa a sentir fome mais cedo e aumenta as porções das refeições; outra pessoa descreve episódios em que come muito e sente que não consegue parar, mesmo tentando. Ambas podem dizer “estou comendo demais”, mas essas descrições levam a perguntas diferentes.
Aumento do apetite durante a depressão ou depois de uma mudança de medicação não estabelece, sozinho, compulsão alimentar. Se também há vômitos provocados, uso de laxantes ou outros comportamentos recorrentes para compensar o que foi ingerido, isso precisa ser informado: a investigação pode apontar outro transtorno alimentar.¹
O peso tampouco resume a repercussão do problema. Em uma pesquisa observacional com 717 participantes de um banco clínico de bipolaridade, compulsão alimentar e obesidade apareceram relacionadas, mas associadas a perfis diferentes de adoecimento. A compulsão associou-se, por exemplo, a maior instabilidade do humor e maior frequência de transtornos ansiosos, mesmo após considerar a obesidade. O estudo não demonstra que uma condição cause a outra; ajuda a explicar por que investigar apenas a balança deixa informações importantes de fora.²
Alimentação e humor precisam estar na mesma história
Na consulta, importa localizar os episódios alimentares ao longo do tempo. Eles começaram durante uma depressão? Persistem quando o humor está estável? Surgiram depois de mudar um medicamento? Nesse período, o sono diminuiu, a energia aumentou ou a rotina se desorganizou?
Essa sequência orienta a avaliação junto dos episódios anteriores de mania ou hipomania e da resposta aos tratamentos. A proximidade no tempo, porém, não prova que uma mudança tenha causado a outra.³ Se a queixa principal for fome aumentada e ganho de peso durante o uso de um antipsicótico, há uma investigação própria, detalhada no artigo sobre antipsicóticos e ganho de peso.
Os episódios de compulsão podem persistir após a melhora do humor. Por isso, a alimentação também precisa ser avaliada nas consultas.²⁴
Como organizar o tratamento dos dois problemas
O plano pode reunir tratamento psiquiátrico, psicoterapia dirigida ao comportamento alimentar e acompanhamento nutricional, conforme a necessidade. Não é obrigatório resolver completamente um transtorno para começar a tratar o outro. A gravidade e a fase atual podem mudar as prioridades.³⁴
Na terapia, uma parte do trabalho é reconhecer o que antecede os episódios: longos períodos sem comer, emoções difíceis, situações recorrentes ou regras alimentares rígidas. A partir disso, o profissional ajuda a organizar refeições regulares e a desenvolver respostas para essas situações. Tentar compensar uma compulsão com restrição intensa pode favorecer novos episódios.⁴
Essas estratégias vêm do tratamento da compulsão alimentar e precisam ser ajustadas à fase do humor quando há bipolaridade. Para coordenar os tratamentos, os profissionais acompanham mudanças no sono e na energia, efeitos dos medicamentos e evolução dos episódios. O artigo sobre tratamento da compulsão alimentar aprofunda as modalidades.³⁴
Por que a escolha de medicamentos exige uma avaliação específica
Há medicamentos estudados para compulsão alimentar, mas um resultado favorável nessa condição não pode ser transferido automaticamente para quem também tem bipolaridade. Um ensaio de 12 semanas com 141 adultos comparou terapia cognitivo-comportamental, lisdexanfetamina e a combinação das duas. Pessoas com transtorno bipolar foram excluídas. Assim, seus resultados não estimam a chance de melhora de quem tem os dois diagnósticos.⁵
Em outro estudo, 25 pessoas com depressão bipolar receberam lisdexanfetamina ou placebo durante oito semanas, mantendo estabilizador do humor e/ou antipsicótico. Houve melhora de uma medida de compulsão alimentar em uma análise secundária. Na avaliação principal da depressão ao longo do tratamento, porém, o medicamento não foi superior ao placebo. A pesquisa não selecionou participantes por terem, simultaneamente, bipolaridade e transtorno de compulsão alimentar. Esse achado inicial não define a lisdexanfetamina como primeira escolha para essa combinação.⁶
Estimulantes podem provocar sintomas maníacos ou mistos em pessoas suscetíveis. Nos quadros mistos, sinais de depressão e de aceleração aparecem juntos. Se um estimulante for prescrito, mudanças como redução da necessidade de sono, aceleração e comportamento fora do habitual devem ser comunicadas à equipe. Usar um estabilizador junto não dispensa essa observação.⁷
Antidepressivos também exigem seleção conforme o tipo e a história da bipolaridade: não devem ser usados isoladamente para tratar a depressão bipolar I. Isso não significa uma proibição em toda situação de bipolaridade. As diferenças estão explicadas no texto sobre tratamento da depressão bipolar.³
O que levar à consulta — e como perceber melhora
Procure descrever quando os episódios começaram, com que frequência aproximada acontecem, como é a perda de controle e o que mudou no humor ou nos medicamentos. Se lembrar de uma situação recente, conte o que ocorreu antes, durante e depois. Não é preciso chegar com uma contagem de calorias ou um diário completo.
Ter menos episódios, perceber maior controle sobre a alimentação e sofrer menos com o problema são avanços, mesmo sem mudança de peso. Observe também a recuperação da rotina e a evolução do humor.²⁴
Se o receio de engordar estiver levando você a pensar em abandonar o estabilizador ou outro medicamento, informe isso ao psiquiatra antes de interrompê-lo. Descrever tanto o benefício obtido quanto a dificuldade com a alimentação permite rever o tratamento com essas duas necessidades em vista.³
Referências
- National Institute of Mental Health. Eating disorders: what you need to know [Internet]. Bethesda (MD): NIMH; 2024 [citado em 18 out 2026].
2. McElroy SL, Crow S, Biernacka JM, Winham S, Geske J, Cuellar Barboza AB, et al. Clinical phenotype of bipolar disorder with comorbid binge eating disorder. J Affect Disord. 2013;150(3):981–986. doi:10.1016/j.jad.2013.05.024.
3. Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD Guidelines for the Treatment of Bipolar Disorder: Summary and a 2023 Update of Evidence. Focus (Am Psychiatr Publ). 2023;21(4):344–353. doi:10.1176/appi.focus.20230009.
4. National Institute for Health and Care Excellence. Eating disorders: recognition and treatment. NICE guideline NG69 [Internet]. London: NICE; 2017 [atualizado em 2020; citado em 18 out 2026]. Seções 1.4 e 1.8.
5. Grilo CM, Ivezaj V, Tek C, Yurkow S, Wiedemann AA, Gueorguieva R. Cognitive behavioral therapy and lisdexamfetamine, alone and combined, for binge-eating disorder with obesity: a randomized controlled trial. Am J Psychiatry. 2025;182(2):209–218. doi:10.1176/appi.ajp.20230982.
6. McElroy SL, Martens BE, Mori N, Blom TJ, Casuto LS, Hawkins JM, et al. Adjunctive lisdexamfetamine in bipolar depression: a preliminary randomized, placebo-controlled trial. Int Clin Psychopharmacol. 2015;30(1):6–13. doi:10.1097/YIC.0000000000000051.
7. Takeda Pharma. Venvanse: dimesilato de lisdexanfetamina. Bula do profissional de saúde [Internet]. [citado em 18 out 2026]. Seção de advertências sobre doença bipolar.
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Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.