Antidepressivos e ritmo cardíaco: quando o eletrocardiograma é necessário?

Postado em: 21/10/2026

Mãos seguram uma folha com o traçado de um eletrocardiograma.

Dr. Rogério Onofre

Receber um pedido de eletrocardiograma antes de começar um antidepressivo pode causar apreensão: o médico está preocupado com o medicamento ou suspeita de um problema no coração? O exame pode fazer parte do planejamento do tratamento, mesmo sem sintomas. Sua necessidade depende da substância prescrita, do histórico de saúde e dos outros medicamentos em uso; não existe uma exigência única para toda pessoa que toma antidepressivo.1,2

Por isso, duas pessoas com a mesma receita podem receber orientações diferentes. Uma doença cardíaca conhecida, por exemplo, pode justificar uma avaliação que não seria necessária no mesmo momento para alguém sem esse fator de risco.2

O que o médico procura no exame

O eletrocardiograma, ou ECG, registra a atividade elétrica do coração. Uma das medidas avaliadas é o intervalo QT: o tempo de ativação e recuperação elétrica dos ventrículos, as câmaras que bombeiam o sangue para os pulmões e o restante do corpo. Como esse intervalo varia com a velocidade dos batimentos, usa-se uma medida corrigida pela frequência cardíaca, chamada QTc.3

Um QTc prolongado pode indicar maior predisposição a determinadas arritmias. Encontrar essa alteração no traçado não significa que a pessoa já teve uma arritmia. O resultado precisa ser interpretado junto do histórico, dos sintomas e dos medicamentos utilizados.3

O ECG de repouso registra um período curto e pode não captar uma alteração do ritmo que aparece apenas de vez em quando. Assim, um resultado normal não encerra necessariamente a investigação de palpitações ou desmaios que continuam acontecendo. O médico pode indicar um registro mais prolongado, como o Holter, conforme o caso.4

Quais informações podem mudar a decisão

Antes de solicitar ou repetir o ECG, o médico considera fatores como doença cardíaca, QT longo já identificado, desmaios anteriores e história familiar de morte súbita. Alterações de potássio ou magnésio e o uso simultâneo de medicamentos que afetam a atividade elétrica do coração também importam.2,3

Uma pessoa pode precisar do exame antes da primeira dose; outra, depois de uma mudança no tratamento ou do aparecimento de sintomas. A ausência de palpitações, por si só, não dispensa a avaliação quando há fatores de risco, porque alterações do QT podem não produzir sintomas.1,3

Citalopram e escitalopram têm alertas específicos sobre prolongamento do QT, cujo efeito pode variar com a dose. Antidepressivos tricíclicos, como a clomipramina, também exigem atenção ao contexto cardiovascular. Esses riscos variam entre os medicamentos e conforme o histórico de saúde de quem os utiliza.1,2 Os artigos sobre escitalopram na depressão e na ansiedade e clomipramina no TOC explicam suas indicações e o acompanhamento mais amplo.

Outro medicamento pode somar efeitos sobre o QT ou aumentar a concentração do antidepressivo no organismo. É por isso que uma nova prescrição feita por outro profissional precisa ser informada, mesmo que o antidepressivo esteja sendo usado há bastante tempo sem dificuldades.2

O que os estudos mostram sobre o risco cardíaco

Uma análise publicada em 2026 reuniu dados individuais de 8.679 adultos com depressão, provenientes de 35 ensaios clínicos. Encontrou diferenças no QTc entre antidepressivos e conforme as características dos participantes. Uma análise adicional de 139 ensaios, com 52.398 participantes, não detectou aumento de morte súbita não relacionada a suicídio com antidepressivos em comparação ao placebo.5

O período estudado foi de até oito semanas, e as análises tinham capacidade limitada para detectar diferenças em eventos raros. Esses resultados não demonstram ausência de risco em qualquer combinação de medicamentos ou durante anos de tratamento.5

Como se preparar para a avaliação

Leve os eletrocardiogramas anteriores e a relação completa dos medicamentos, incluindo os de uso eventual e os produtos sem receita. Se houve uma alteração recente, anote o nome, a dose prescrita e quando começou a utilizá-lo. Essa organização facilita a revisão do conjunto de medicamentos.1,2

Se há palpitações, descreva quando aparecem, quanto tempo parecem durar e se vêm acompanhadas de tontura ou desmaio. Anotar o horário ajuda a relacionar os sintomas aos registros quando um exame prolongado é indicado. A proximidade com uma mudança de medicamento é uma informação útil, mas não prova, sozinha, que ele seja a causa.4

Desmaio, sobretudo acompanhado de palpitações, exige atendimento imediato. Palpitações novas também precisam ser avaliadas: não confirmam QT prolongado e não devem ser atribuídas automaticamente à ansiedade. Não espere o retorno agendado diante de sinais de agravamento.2,6

Se a dúvida surgiu ao ler um laudo ou um alerta sobre o medicamento, procure o prescritor para interpretar a informação antes de alterar o tratamento. No caso do escitalopram, o próprio comunicado de segurança orienta não interromper ou reduzir a dose abruptamente por conta própria.6

Referências

  1. NHS Specialist Pharmacy Service. Commonly used medicines associated with QT interval prolongation [Internet]. 24 ago 2026 [atualizado em 27 ago 2026; citado em 21 out 2026].
  2. Medicines and Healthcare products Regulatory Agency. Citalopram and escitalopram: QT interval prolongation. Drug Safety Update. 2011;5(5):A1. Página publicada em 11 dez 2014 [citado em 21 out 2026].
  3. NHS Specialist Pharmacy Service. Managing medicines associated with QT interval prolongation [Internet]. 24 ago 2026 [atualizado em 14 set 2026; citado em 21 out 2026].
  4. University Hospital Southampton NHS Foundation Trust. Ambulatory electrocardiogram (ECG) monitor: telephone appointment [Internet]. Versão 1. Southampton: UHS; fev 2026 [citado em 21 out 2026].
  5. Ostinelli EG, Capocci S, Li Z, Friederich C, Mugnai G, Pottegård A, et al. QTc changes and early major adverse cardiovascular events associated with antidepressant treatment for major depressive disorder in adults: individual participant data network meta-regression of double blind randomised trials. BMJ. 2026;394:e100600. doi:10.1136/bmj-2026-100600.
  6. Lundbeck Brasil Ltda. Comunicado aos profissionais de saúde: associação do escitalopram a prolongamento dose-dependente do intervalo QT [Internet]. Rio de Janeiro: Lundbeck; 15 fev 2012 [citado em 21 out 2026]. Documento histórico hospedado pela Anvisa.

Foto: Pavel Danilyuk.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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