Depressão na esclerose múltipla: como reconhecer além da fadiga?
Postado em: 25/10/2026
Em quem já tem esclerose múltipla, a avaliação de uma possível depressão precisa ir além da fadiga e da dificuldade de concentração. Mudanças persistentes de humor, perda de interesse e afastamento de atividades antes importantes precisam ser consideradas junto dos sintomas neurológicos, do sono e dos medicamentos em uso.1,2
A fadiga da esclerose múltipla pode ser intensa e incapacitante. Reconhecer uma depressão associada não significa explicar esse cansaço como falta de vontade. Significa investigar uma dificuldade que também pode ser tratada, sem atribuir tudo à mesma causa.1
O que mudou em relação ao padrão habitual?
A avaliação procura saber se a pessoa perdeu o interesse pelas atividades, passou a se sentir persistentemente triste ou sem esperança e como essas mudanças afetam sua vida. Sono, apetite e energia também importam, mas precisam ser interpretados no contexto da esclerose múltipla. Os sintomas gerais de depressão ajudam a reconhecer motivos para buscar avaliação, sem substituir essa análise.2,3
Por exemplo, em uma situação hipotética, alguém pode ter deixado de participar de uma atividade porque o deslocamento ficou exaustivo. Outra possibilidade é não sentir mais interesse por ela, inclusive quando se torna acessível. Essas situações podem se misturar; a pergunta sobre o que mudou ajuda a compreendê-las, sem funcionar como um teste para separar fadiga de depressão.
A NICE recomenda investigar outras contribuições para a fadiga, como problemas de sono, dor, efeitos de medicamentos, anemia, alterações da tireoide, ansiedade e depressão. Isso não equivale a pedir os mesmos exames para todos: a história e a avaliação clínica orientam o que precisa ser investigado.1
Há tratamento para a depressão nesse contexto
As possibilidades incluem psicoterapia e, quando indicado, medicamento antidepressivo. A escolha considera intensidade dos sintomas, impacto cotidiano, preferências, tratamentos anteriores e condições físicas associadas. A presença de esclerose múltipla também precisa ser levada em conta na organização das sessões e na avaliação do conjunto de medicamentos.2,3
O formato da intervenção pode facilitar ou dificultar a participação. Se o deslocamento esgota a pessoa, a modalidade remota pode ser uma opção a discutir. Se fica difícil lembrar o que foi combinado ou acompanhar explicações longas, a pessoa pode pedir orientações por escrito e discutir com a equipe ajustes no formato ou na duração das sessões.1,3
O que mostrou um estudo específico de TCC digital
Gold e colaboradores estudaram 279 adultos com esclerose múltipla e sintomas depressivos. Todos mantiveram o tratamento habitual. Dois grupos acrescentaram um programa digital de terapia cognitivo-comportamental (TCC) adaptado à doença, com ou sem orientação de terapeuta; o controle receberia acesso posterior. O programa trabalhava a retomada de atividades importantes, a revisão de padrões de pensamento e a resolução de problemas cotidianos.4
Em 12 semanas, a pontuação no questionário de sintomas depressivos BDI-II ficou, em média, 6,32 pontos menor com o programa sem orientação e 5,80 pontos menor com orientação, em comparação ao controle. Pontuações menores representam menos sintomas. São diferenças entre grupos, não porcentagens de pacientes que melhoraram. Aos seis meses, a diferença favorável ainda era observada, enquanto os participantes dos dois grupos continuavam com acesso ao programa.4
Não houve diferença significativa no resultado referente ao diagnóstico de depressão maior. Portanto, reduzir a intensidade dos sintomas não equivale a demonstrar que mais pessoas deixaram de preencher esse diagnóstico.4
O estudo avaliou um programa específico; os resultados não podem ser estendidos a qualquer aplicativo ou psicoterapia. Além disso, 18% dos participantes não completaram a avaliação de 12 semanas. Os participantes sabiam se tinham recebido o programa.4
Como articular os acompanhamentos
Uma mudança de disposição, memória ou funcionamento pode exigir revisão neurológica, psiquiátrica ou das duas áreas. Compartilhar as decisões entre os profissionais ajuda a considerar o quadro depressivo junto de alterações da doença, do sono e dos efeitos dos medicamentos. Eles não precisam trabalhar na mesma instituição para coordenar esse acompanhamento.1,3
Também é útil definir resultados que tenham sentido para a pessoa: sentir menos sofrimento, voltar a se interessar por uma atividade ou participar de um encontro dentro dos seus limites físicos. Essas mudanças ajudam a acompanhar a melhora da depressão, mas não indicam, por si só, recuperação neurológica.
Se houver piora acentuada, dificuldade importante para se alimentar ou manter atividades básicas, antecipe a avaliação. Risco imediato de autoagressão exige atendimento de urgência. Fora dessas situações, o acompanhamento pode ajustar o tratamento conforme a resposta, sem exigir que a fadiga desapareça por completo para reconhecer um avanço.2,3
Referências
- National Institute for Health and Care Excellence. Multiple sclerosis in adults: management. NICE guideline NG220 [Internet]. London: NICE; 2022 [atualizado 3 jun 2026; citado 25 out 2026]. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng220/chapter/Recommendations.
- National Institute of Mental Health. Depression [Internet]. Bethesda: NIMH; 2024 [citado 25 out 2026]. Disponível em: https://www.nimh.nih.gov/health/publications/depression.
- National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222 [Internet]. London: NICE; 2022 [citado 25 out 2026]. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng222/chapter/Recommendations.
- Gold SM, Friede T, Meyer B, Moss-Morris R, Hudson J, Asseyer S, et al. Internet-delivered cognitive behavioural therapy programme to reduce depressive symptoms in patients with multiple sclerosis: a multicentre, randomised, controlled, phase 3 trial. Lancet Digit Health. 2023;5(10):e668–e678. doi:10.1016/S2589-7500(23)00109-7. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S2589-7500(23)00109-7.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.