Antidepressivos depois da cirurgia bariátrica: o que pode mudar no tratamento?

Postado em: 18/10/2026

Ilustração do estômago após gastrectomia vertical, com a porção removida destacada ao lado.

A cirurgia bariátrica pode modificar a quantidade de antidepressivo que chega à circulação. Isso depende do medicamento, da apresentação e do procedimento realizado. Se o humor piora depois da operação, a absorção é uma possibilidade a investigar, mas a piora, sozinha, não demonstra que o remédio deixou de funcionar.¹

Depois da operação, pode ser difícil engolir a cápsula, manter os horários ou tomar a medicação durante um período de vômitos. Informar essas dificuldades ajuda o médico a decidir se é necessário ajustar o tratamento e de que maneira.²

Menos medicamento no sangue significa menos efeito?

Não necessariamente. Em um estudo com 46 pessoas operadas — 20 por bypass e 26 por sleeve — e 17 participantes não operados, as concentrações de alguns antidepressivos diminuíram, em média, 24,7% aos seis meses da cirurgia. A variação entre as pessoas foi grande. Mesmo assim, a pontuação média em uma escala de sintomas depressivos não apresentou mudança estatisticamente significativa, e os pesquisadores não encontraram correlação entre a concentração e a intensidade desses sintomas.¹

Isso não permite ignorar uma piora individual: o estudo não incluiu pessoas com depressão grave ou risco suicida inicial. O resultado mostra por que uma queda de aproximadamente um quarto na concentração não significa uma perda de um quarto do benefício, nem indica aumentar a dose nessa proporção.¹

O organismo passa por mudanças que vão além da absorção. A redução do estômago e as alterações do trajeto digestivo podem interferir na desintegração de comprimidos, na dissolução e no trânsito do medicamento. A concentração no sangue também depende de como ele se distribui e é eliminado.² No sleeve, parte do estômago é retirada, sem desviar o intestino; no bypass, cria-se uma pequena bolsa gástrica e se desvia parte do trajeto intestinal.³

O que aconteceu com antidepressivos específicos

  • Sertralina: um estudo piloto comparou cinco pessoas após bypass com cinco não operadas. Depois de uma dose única, a exposição ao medicamento — avaliada pelas concentrações no sangue ao longo do tempo — foi menor no grupo operado. O estudo não avaliou se o tratamento da depressão havia perdido efeito.⁴
  • Duloxetina: dez pessoas um ano após bypass foram comparadas com controles não operados. A exposição após uma dose única correspondeu a cerca de 57,7% da observada nos controles. Essa comparação entre grupos não informa quanto cada paciente perdeu em relação ao próprio resultado anterior à cirurgia.⁵
  • Escitalopram: uma coorte de nove pessoas, cinco com sleeve e quatro com bypass, não encontrou uma mudança sistemática da exposição ajustada pela dose nas avaliações realizadas até doze meses. Houve variação individual e dados incompletos em parte do acompanhamento.⁶

São estudos pequenos, com procedimentos, momentos e métodos diferentes. Eles não permitem montar uma lista de antidepressivos que “funcionam” e “não funcionam” após a bariátrica. Mostram a necessidade de avaliar o medicamento usado e a evolução de quem o recebe.⁴⁻⁶

E os medicamentos de liberação prolongada?

Essas apresentações liberam o princípio ativo ao longo do tempo. A mudança no trato digestivo pode interferir nesse processo, mas não há uma regra de troca automática que se aplique a todo antidepressivo de liberação prolongada.²˒⁷

Um estudo com dez adultos avaliou uma dose única de venlafaxina de liberação prolongada antes e três a quatro meses depois de um bypass sem complicações. Não encontrou diferença estatisticamente significativa na exposição à venlafaxina ou ao seu principal metabólito ativo. O resultado se refere àquela apresentação e àquele momento: não responde o que ocorre nos primeiros dias após a operação nem demonstra que qualquer produto XR terá o mesmo comportamento.⁷

O que mudou entre a alta e o início dos sintomas?

Na consulta, a sequência dos acontecimentos costuma ser mais informativa do que dizer apenas “o antidepressivo não está fazendo efeito”. É preciso verificar o que foi prescrito na alta, o que está sendo efetivamente tomado e se houve troca de apresentação ou dificuldade para ingerir o medicamento.²

Omissão de doses, redução ou interrupção podem provocar sintomas de retirada, como tontura, náusea, sensações de choque, irritabilidade ou alteração do sono. Eles podem começar poucos dias depois da mudança no uso e se confundir com o retorno da depressão ou da ansiedade. A proximidade entre esses acontecimentos ajuda a avaliação, mas não resolve o diagnóstico sozinha. Ter feito a cirurgia não basta para atribuir os sintomas à retirada ou provar má absorção.⁸

O psiquiatra também avalia se os sintomas se parecem com os do episódio anterior, como estão o sono e o funcionamento diário e se surgiram efeitos adversos. A investigação geral de um antidepressivo que parece não estar funcionando continua importante; a cirurgia acrescenta informações a essa avaliação.

Cansaço e dificuldade de concentração, por exemplo, precisam ser examinados junto da alimentação, hidratação, suplementação e recuperação física. Não devem ser atribuídos automaticamente à depressão ou à falta de vitaminas. O psiquiatra e a equipe bariátrica precisam avaliar essas possibilidades em conjunto.⁹

Em situações selecionadas, medir a concentração do antidepressivo pode ajudar, quando o exame estiver disponível e houver uma pergunta clínica que ele possa esclarecer. O resultado é interpretado com a dose, o horário da coleta, os sintomas e a tolerabilidade; não substitui essa avaliação nem é obrigatório para todos.¹˒⁶

O que organizar antes da cirurgia ou da próxima consulta

Leve um resumo curto, com:

  • Procedimento e data: relatório da cirurgia ou da alta, se disponível.
  • Medicação atual: nomes, doses, apresentações e mudanças feitas desde a operação; inclua os suplementos.
  • Dificuldades para tomar: vômitos, dificuldade para engolir, doses não tomadas ou dúvidas sobre as instruções recebidas.
  • Mudança dos sintomas: quando começou, o que piorou ou melhorou e como isso afetou atividades habituais.⁹

Antes da operação, combine com os profissionais responsáveis como manter o tratamento e a quem recorrer se houver dificuldade. Abrir cápsulas, triturar comprimidos ou repetir uma dose após vômito exige orientação para o produto e a situação; não existe uma regra segura para todas as apresentações.¹⁰

Vômitos persistentes ou dificuldade importante para ingerir líquidos e alimentos exigem contato rápido com a equipe assistencial. Além de comprometerem a medicação, podem indicar complicações e favorecer deficiências nutricionais, inclusive de vitamina B1 (tiamina). Nessa situação, não espere apenas a próxima consulta para discutir o antidepressivo.⁹

Referências

1. Pasi P, Kröll D, Siegfried A, Sykora M, Wildisen A, Milone C, et al. Plasma concentrations of SSRI/SNRI after bariatric surgery and the effects on depressive symptoms. Front Psychiatry. 2023;14:1132112. doi:10.3389/fpsyt.2023.1132112.

2. NHS Specialist Pharmacy Service. Considerations for using medicines following bariatric surgery [Internet]. Atualizado em 30 maio 2025 [citado em 18 out 2026]. Orientação profissional.

3. American Society for Metabolic and Bariatric Surgery. Bariatric surgery procedures [Internet]. Atualizado em maio 2021 [citado em 18 out 2026]. Informações para pacientes.

4. Roerig JL, Steffen K, Zimmerman C, Mitchell JE, Crosby RD, Cao L. Preliminary comparison of sertraline levels in postbariatric surgery patients versus matched nonsurgical cohort. Surg Obes Relat Dis. 2012;8(1):62–66. doi:10.1016/j.soard.2010.12.003.

5. Roerig JL, Steffen KJ, Zimmerman C, Mitchell JE, Crosby RD, Cao L. A comparison of duloxetine plasma levels in postbariatric surgery patients versus matched nonsurgical control subjects. J Clin Psychopharmacol. 2013;33(4):479–484. doi:10.1097/JCP.0b013e3182905ffb.

6. Schoretsanitis G, Strømmen M, Krabseth HM, Helland A, Spigset O. Effects of sleeve gastrectomy and Roux-en-Y gastric bypass on escitalopram pharmacokinetics: a cohort study. Ther Drug Monit. 2023;45(6):805–812. doi:10.1097/FTD.0000000000001114.

7. Krieger CA, Cunningham JL, Reid JM, Langman LJ, Grothe KB, Clark MM, et al. Comparison of bioavailability of single-dose extended-release venlafaxine capsules in obese patients before and after gastric bypass surgery. Pharmacotherapy. 2017;37(11):1374–1382. doi:10.1002/phar.2022.

8. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222 [Internet]. 2022 [citado em 18 out 2026]. Recomendações 1.4.13–1.4.19. Diretriz.

9. British Obesity and Metabolic Surgery Society. BOMSS overview of GP management of patients post-bariatric surgery [Internet]. 2023 [citado em 18 out 2026]. Orientação profissional.

10. British Obesity and Metabolic Surgery Society. BOMSS guidance on medications post-bariatric surgery for GPs [Internet]. Versão 1.0. 20 jan 2023 [citado em 18 out 2026]. Documento institucional.

Imagem de destaque: Manu5 / Scientific Animations / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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