Brexpiprazol associado ao antidepressivo: quando é considerado e como acompanhar
Postado em: 11/10/2026
O brexpiprazol pode ser acrescentado ao antidepressivo quando a melhora da depressão foi insuficiente. Essa é uma de suas indicações no Brasil: atuar como adjuvante, isto é, como um medicamento que complementa o antidepressivo no tratamento de adultos com transtorno depressivo maior. É comercializado como Rexulti.1
A proposta costuma trazer duas dúvidas: quanto essa associação pode ajudar e como saber se vale a pena mantê-la?
Por que acrescentar outro medicamento?
O brexpiprazol pertence à classe dos antipsicóticos. Receber essa prescrição para depressão, porém, não significa que o diagnóstico tenha mudado para psicose ou transtorno bipolar. Um dos estudos que fundamentam esse uso incluiu justamente pessoas com depressão maior sem sintomas psicóticos.2
Antes da associação, o psiquiatra revê o diagnóstico, o tempo de tratamento, a forma como os medicamentos foram usados e os efeitos que dificultaram sua continuidade. Também investiga condições associadas e episódios anteriores de elevação do humor, que podem mudar a compreensão do quadro. Essa avaliação orienta a escolha entre diferentes possibilidades quando o antidepressivo não está funcionando como esperado.3
Vale levar à consulta o que melhorou e o que continua difícil. Ter voltado a dormir, mas continuar sem conseguir trabalhar ou conviver com outras pessoas, por exemplo, é diferente de não perceber nenhuma mudança. A escolha da associação deve ter um objetivo compreensível para o paciente: quais sintomas e limitações ainda precisam melhorar?
Quanto o brexpiprazol ajudou nos estudos?
Dois ensaios importantes avaliaram adultos de 18 a 65 anos que permaneciam deprimidos após tratamento com antidepressivo. Após oito semanas de tratamento acompanhado com antidepressivo, os participantes que continuavam com resposta insuficiente e preenchiam os critérios do estudo foram sorteados para receber brexpiprazol ou placebo por mais seis semanas. Todos os grupos mantiveram o antidepressivo.2,4
No estudo Pyxis, a análise principal incluiu 353 participantes e mostrou redução média dos sintomas maior com a associação de brexpiprazol. Ao final das seis semanas:2
- 23,4% tiveram resposta com antidepressivo mais brexpiprazol, contra 15,7% com antidepressivo mais placebo. Resposta significava redução de pelo menos metade da pontuação dos sintomas na escala MADRS.
- 14,9% atingiram remissão, contra 9,0% no grupo com placebo. O critério exigia sintomas em nível baixo na escala, além da redução de pelo menos metade. Essa diferença de remissão não foi estatisticamente significativa.
Em números arredondados, foram 23 pessoas com resposta em cada 100 tratadas com a associação, comparadas a 16 em cada 100 no outro grupo. Quem atingiu remissão já está incluído entre os que responderam; esses percentuais não devem ser somados. Não alcançar o critério de resposta também não significa necessariamente ausência de qualquer melhora.
O segundo estudo, Polaris, comparou duas doses diferentes de brexpiprazol com placebo e mostrou resultados menos uniformes. Na análise principal, cerca de 23% responderam nos dois grupos que receberam brexpiprazol, contra 14,3% com placebo, sempre associados ao antidepressivo. A remissão ocorreu em 14,1% a 14,7%, contra 10,8%, sem diferença significativa. Um dos grupos com brexpiprazol apresentou vantagem no desfecho principal, a mudança média dos sintomas; o outro não. Quando a análise incluiu também participantes que não atendiam aos critérios mais restritos de resposta insuficiente, a vantagem não se confirmou pelo critério estatístico usado para avaliar as várias comparações.4
Esses ensaios sustentam um benefício médio da associação em pacientes selecionados. Foram estudos curtos, financiados pelos fabricantes, e não compararam brexpiprazol com outras estratégias de tratamento. Seus percentuais ajudam a dimensionar o resultado observado, sem prever a resposta de uma pessoa.2,4
Como acompanhar a melhora no dia a dia
Além de conversar sobre os sintomas, escolha com o psiquiatra duas ou três atividades que faziam parte da sua rotina e ficaram prejudicadas pela depressão.3
Considere estes exemplos: alguém que deixou de preparar as refeições pode observar se consegue voltar a cozinhar; quem abandonou a leitura pode notar se acompanha algumas páginas; quem se afastou dos amigos pode perceber se retomou o interesse em conversar.
Também importa o esforço necessário. A pessoa pode ter conseguido cumprir uma tarefa e, ainda assim, sentir que precisou se obrigar a cada etapa. Esse relato acrescenta informação que se perde quando a avaliação fica apenas em “fiz” ou “não fiz”.
Dormir mais, isoladamente, não permite concluir que a depressão melhorou. Convém observar se o sono ficou reparador e como estão disposição, interesse e funcionamento durante o dia. Se houver sonolência nova, ela precisa entrar na avaliação junto com os possíveis benefícios.3
O que observar além do humor
Acatisia, sonolência e ganho de peso estão entre os efeitos relevantes do brexpiprazol. Também podem ocorrer aumento do apetite e tontura, inclusive ao se levantar.5,6 No Pyxis, a acatisia foi relatada por 7,4% com brexpiprazol e 1,0% com placebo; ganho de peso como evento adverso, por 8,0% e 3,1%, respectivamente. Todos mantinham o antidepressivo.2
A acatisia pode ser sentida como inquietação interna, necessidade de andar ou dificuldade de permanecer sentado. Se isso surgir depois de iniciar a associação, não conclua sozinho que a ansiedade piorou: descreva a sensação e quando começou para o prescritor.5
O quadro abaixo traz exemplos hipotéticos de observações que ajudam na consulta:
| Mudança observada | Exemplo concreto | O que relatar |
|---|---|---|
| Retomada de uma atividade | Voltar a preparar uma refeição que vinha sendo adiada | Frequência, esforço necessário e se houve interesse ou prazer |
| Inquietação nova | Precisar levantar várias vezes durante uma conversa | Início, relação com mudanças no tratamento e intensidade do incômodo |
| Sonolência durante o dia | Cochilar em um horário em que antes permanecia desperto | Horário, duração e interferência nas atividades |
| Apetite ou peso aumentando | Sentir mais fome entre refeições ou notar mudança nas pesagens | Quando começou, evolução e medidas disponíveis |
A avaliação da saúde física começa antes ou no início do tratamento. Peso, pressão arterial, glicemia ou hemoglobina glicada e colesterol e triglicerídeos fornecem medidas iniciais para acompanhar possíveis alterações. O profissional define os exames e sua periodicidade conforme o medicamento, os resultados iniciais e a situação clínica.3 O artigo sobre antipsicóticos e ganho de peso aprofunda essa parte do acompanhamento.
Movimentos involuntários novos e impulsos intensos para jogar, comprar ou comer compulsivamente também devem ser comunicados ao prescritor. Se surgirem pensamentos suicidas ou de autoagressão, procure avaliação sem esperar o retorno marcado; diante de risco imediato, vá a um serviço de urgência. Febre acompanhada de rigidez muscular e confusão também exige atendimento urgente.5,6
O que levar à revisão da associação
Leve as mudanças percebidas desde o início, os sintomas que persistem, os efeitos novos e os exames solicitados. Inclua a lista de todos os medicamentos, mesmo os prescritos por outros profissionais: alguns alteram a concentração de brexpiprazol no organismo e precisam ser considerados na avaliação.5,6
Uma anotação breve pode ser suficiente: “voltei a almoçar com a família, mas ainda não consigo ler; comecei a sentir inquietação à tarde”. Não é preciso produzir um relatório extenso; leve exemplos como esses para discutir os benefícios e os incômodos com o psiquiatra.
A continuidade da associação deve ser reavaliada com o psiquiatra; ajustes ou suspensão não devem ser feitos por conta própria.3 Antes de sair da consulta, procure deixar definidos quais resultados serão acompanhados, quando haverá nova avaliação e como entrar em contato caso apareça um problema antes dela.
Referências
1. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Rexulti (Brexpiprazole): novo registro [Internet]. Brasília: Anvisa; 2020 abr 6 [citado 2026 out 10]. Disponível no site da Anvisa.
2. Thase ME, Youakim JM, Skuban A, Hobart M, Augustine C, Zhang P, et al. Efficacy and safety of adjunctive brexpiprazole 2 mg in major depressive disorder: a phase 3, randomized, placebo-controlled study in patients with inadequate response to antidepressants. J Clin Psychiatry. 2015;76(9):1224-31. doi:10.4088/JCP.14m09688.
3. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222 [Internet]. London: NICE; 2022 [citado 2026 out 10]. Recomendações.
4. Thase ME, Youakim JM, Skuban A, Hobart M, Zhang P, McQuade RD, et al. Adjunctive brexpiprazole 1 and 3 mg for patients with major depressive disorder following inadequate response to antidepressants: a phase 3, randomized, double-blind study. J Clin Psychiatry. 2015;76(9):1232-40. Versão corrigida em 17 set 2015. doi:10.4088/JCP.14m09689.
5. Lundbeck Brasil Ltda. Rexulti (brexpiprazol): bula profissional de saúde [Internet]. Versão REG_00103135 v.13.0 / REG_00094287 v.13.0. Rio de Janeiro: Lundbeck Brasil; [data de publicação não identificada] [citado 2026 out 10]. Cópia do documento hospedada em Consulta Remédios.
6. Otsuka America Pharmaceutical, Inc. Rexulti (brexpiprazole): full prescribing information [Internet]. Rockville: Otsuka; 2026 abr [citado 2026 out 10]. Documento oficial americano no DailyMed.
Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.
Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.
De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.