Carbamazepina no transtorno bipolar: quando é considerada e quais cuidados exige?
Postado em: 21/10/2026
Autor: Dr. Rogério Onofre
Receber uma receita de carbamazepina e descobrir que ela é um anticonvulsivante pode causar estranhamento. Um medicamento, porém, pode ter mais de uma indicação. Na bipolaridade, a carbamazepina pode ser usada para tratar a mania e prevenir novos episódios; a prescrição não significa que a pessoa tenha epilepsia. Essas indicações psiquiátricas constam na bula brasileira.1
Controlar um episódio de aceleração e manter a estabilidade nos meses seguintes são tarefas diferentes. O psiquiatra precisa considerar ambas, junto à resposta aos tratamentos anteriores e aos outros medicamentos em uso.
O que os estudos mostram sobre o benefício
Em um ensaio com 239 adultos hospitalizados por mania ou episódios mistos do transtorno bipolar I, a carbamazepina em cápsulas de liberação prolongada reduziu os sintomas mais que o placebo durante três semanas. A diferença começou a aparecer na primeira semana.2
Para dimensionar essa melhora, a documentação da formulação estudada apresenta os resultados em uma escala de mania que vai de 0 a 60: quanto maior o número, mais intensos os sintomas. Em um dos ensaios, a pontuação média passou de 28,5 para 13,4 com carbamazepina, contra 27,9 para 20,8 com placebo, em três semanas. A análise incluiu 120 pessoas no grupo do medicamento e 115 no grupo placebo.3
São médias de intensidade dos sintomas, não porcentagens de remissão. No ensaio de 239 participantes, cerca de 60% chegaram ao fim, e a análise utilizou a última avaliação disponível de quem saiu antes. O resultado apoia o benefício na mania aguda; não determina, sozinho, o efeito sobre a depressão ou a prevenção de recaídas. As cápsulas usadas no estudo também diferem dos comprimidos CR disponíveis no Brasil.1,2
Por que ela pode ser escolhida, mesmo sem ser a primeira opção
Na atualização de 2023 das recomendações CANMAT/ISBD, a carbamazepina aparece como opção de segunda linha para mania e manutenção no transtorno bipolar I. Para a depressão aguda desse mesmo tipo de bipolaridade, está na terceira linha.4
Essa classificação organiza a ordem em que os tratamentos costumam ser considerados. Além da eficácia, entram na avaliação os efeitos adversos, as interações e a utilidade nas diferentes fases. “Segunda linha” não significa que o medicamento seja ineficaz. Uma resposta anterior favorável ou a dificuldade de tolerar outras opções pode pesar na escolha.4
Essa hierarquia se refere ao tipo I e não deve ser aplicada automaticamente ao tipo II. O artigo sobre tipos e tratamento do transtorno bipolar explica essas diferenças.
O que os exames conseguem mostrar
O acompanhamento combina o que a pessoa sente e faz no cotidiano com informações dos exames.5
| Avaliação | Para que serve |
|---|---|
| Hemograma | Acompanhar células do sangue, incluindo leucócitos e plaquetas. |
| Exames do fígado | Identificar alterações que possam exigir investigação ou revisão do tratamento. |
| Eletrólitos, especialmente o sódio | Verificar se houve redução do sódio no sangue, um possível efeito da carbamazepina. |
| Dosagem de carbamazepina no sangue | Ajudar a avaliar suspeita de toxicidade, interação com outro medicamento ou dificuldade de manter o uso prescrito. |
A dosagem sanguínea não funciona como um “exame de estabilidade do humor”. Não há uma relação estabelecida que permita concluir, apenas pelo número, que a bipolaridade está controlada. O resultado precisa ser interpretado junto à evolução clínica.6
A frequência dos exames depende do histórico, dos resultados anteriores e das mudanças no tratamento. Informe também se houve interrupções: isso ajuda a interpretar os achados e a decidir os próximos passos.5,6
Um medicamento novo pode mudar o efeito dos outros
A carbamazepina acelera a atividade de enzimas do fígado e pode diminuir a concentração de outros fármacos, como a quetiapina. Outros medicamentos, por sua vez, podem aumentar ou reduzir a concentração da própria carbamazepina. Por isso, iniciar ou interromper uma medicação pode exigir revisão do esquema, mesmo quando a receita psiquiátrica permanece igual.1
Leve uma lista atualizada, incluindo produtos sem receita e suplementos. Se receber uma nova prescrição em outro serviço, informe que usa carbamazepina e peça a conferência da combinação.
Ela também pode reduzir a eficácia de certos anticoncepcionais hormonais. A avaliação depende do método; o artigo sobre transtorno bipolar e anticoncepcionais detalha essa questão. Se houver plano ou suspeita de gravidez, procure o prescritor: a exposição na gestação está associada a maior risco de malformações e exige revisão do tratamento, sem suspensão por conta própria.1
Quais mudanças relatar antes do retorno
Tontura, sonolência e náusea podem aparecer durante o tratamento. Relate quando começaram e quanto interferem na rotina.2 Se a tontura prejudicar a caminhada ou a sonolência impedir que permaneça desperto, procure orientação médica sem esperar o retorno e não dirija.1
Erupção nova na pele, febre, feridas na boca ou sangramento incomum pedem orientação médica imediata. Não espere a consulta agendada. Nem toda erupção será grave, mas esses sinais precisam ser avaliados para distinguir reações passageiras de problemas que exigem intervenção.3,5
No retorno, leve também exemplos das mudanças de sono, humor e comportamento: a necessidade de dormir voltou ao habitual? A aceleração diminuiu? Surgiram dificuldades que antes não existiam? Se houve esquecimentos ou interrupções, anote aproximadamente quando ocorreram. Isso permite comparar o benefício observado com os efeitos na rotina e discutir se o plano está atingindo o objetivo combinado.
Referências
- Novartis Biociências S.A. Tegretol/Tegretol CR (carbamazepina): bula profissional. VPS18. Aprovada pela Anvisa em 8 jan 2026. Disponível em: bula do fabricante.
- Weisler RH, Keck PE Jr, Swann AC, Cutler AJ, Ketter TA, Kalali AH; SPD417 Study Group. Extended-release carbamazepine capsules as monotherapy for acute mania in bipolar disorder: a multicenter, randomized, double-blind, placebo-controlled trial. J Clin Psychiatry. 2005;66(3):323–330. doi: 10.4088/jcp.v66n0308. Errata em: J Clin Psychiatry. 2005;66(5):659.
- Validus Pharmaceuticals LLC. Equetro (carbamazepine) extended-release capsules: prescribing information. Revisão de out 2022. Disponível em: informações de prescrição, seção 14.1.
- Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD Guidelines for the Treatment of Bipolar Disorder: Summary and a 2023 Update of Evidence. Focus (Am Psychiatr Publ). 2023;21(4):344–353. doi: 10.1176/appi.focus.20230009.
- NHS Specialist Pharmacy Service. Carbamazepine monitoring. Atualizado em 30 jan 2026. Disponível em: orientações de acompanhamento.
- Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, Schaffer A, Bond DJ, Frey BN, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97–170. doi: 10.1111/bdi.12609.
Foto: CostaPPPR, CC BY-SA 4.0. Imagem redimensionada.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.