Cariprazina na depressão bipolar: benefícios e acompanhamento
Postado em: 14/10/2026
A cariprazina é um medicamento que pode reduzir os sintomas de um episódio depressivo em adultos com transtorno bipolar tipo I. Em estudos de seis semanas, houve benefício em comparação com placebo, embora nem todos os resultados tenham sido positivos.1˒2
Por que usar um antipsicótico para tratar depressão?
A cariprazina pertence à classe dos antipsicóticos atípicos. Receber essa prescrição não significa, por si só, ter psicose: alguns medicamentos dessa classe também são usados para tratar a depressão bipolar.3˒4
Ela atua em receptores de dopamina e serotonina, substâncias envolvidas na comunicação entre células do cérebro. Ainda não está completamente esclarecido como a cariprazina alivia os sintomas depressivos.3
Os ensaios apresentados aqui estudaram depressão bipolar tipo I. Seus resultados não estabelecem o mesmo benefício para o transtorno bipolar tipo II, nem demonstram, por si sós, prevenção de novos episódios ao longo dos anos.1˒2
Quanto os participantes melhoraram nos estudos?
Um ensaio publicado em 2019 distribuiu 480 adultos entre placebo e dois grupos de cariprazina, um com dose menor e outro com dose maior. A intensidade dos sintomas depressivos foi avaliada pela MADRS, uma escala de 0 a 60 em que pontuações menores indicam sintomas menos intensos. Na sexta semana, ambos os grupos do medicamento tiveram uma redução maior dos sintomas: a diferença média ajustada foi de 2,5 pontos no grupo da dose menor e 3 pontos no da dose maior. Essa é a diferença em relação ao placebo, não a melhora total de cada grupo. Na avaliação global de gravidade, outro desfecho do estudo, as diferenças não foram estatisticamente significativas após o ajuste previsto na análise.1
Um segundo ensaio, publicado em 2020, sorteou 493 adultos entre placebo e dois grupos de cariprazina, também com doses diferentes. O grupo da dose menor mostrou vantagem estatística em relação ao placebo na redução média da MADRS; o da dose maior não. Isso não demonstra que a dose menor seja superior à maior, nem que aumentar a dose necessariamente traga mais benefício.2
A análise desse segundo estudo incluiu 478 participantes e usou estimativas para as avaliações que faltaram. Na sexta semana, os resultados foram:
- Resposta: redução de pelo menos metade da pontuação na escala. Ocorreu em 40,7% no grupo da dose menor e 42,5% no da dose maior, comparados com 35,6% no placebo.
- Remissão: pontuação de até 10 nessa escala, indicando sintomas ausentes ou leves. Ocorreu em 25,9% no grupo da dose menor e 26,1% no da dose maior, comparados com 19,6% no placebo.2
As diferenças dessas taxas de resposta e remissão não foram estatisticamente significativas. Portanto, esse ensaio encontrou benefício em uma medida média, mas não demonstrou superioridade nesses dois desfechos. Também não se deve somar resposta e remissão: uma pessoa pode preencher os dois critérios.2
Os dois estudos tiveram participação de pesquisadores ligados aos fabricantes. Avaliaram tratamento de curto prazo contra placebo, sem comparação direta com outros medicamentos.1˒2
O que pesa na escolha do medicamento
A atualização CANMAT/ISBD de 2023 inclui a cariprazina entre as opções de primeira linha para depressão bipolar tipo I.5
Na consulta, entram na decisão a intensidade da depressão, o histórico dos episódios, os medicamentos que já ajudaram ou causaram dificuldades e suas preferências. O plano também precisa considerar o acompanhamento depois da melhora. Essas escolhas são discutidas no artigo sobre tratamento da depressão bipolar.5
Se um medicamento anterior melhorou os sintomas, mas provocou um efeito difícil de tolerar, conte tanto o benefício quanto o incômodo.
Informe também os demais medicamentos, suplementos e condições de saúde, além de gravidez, planejamento de gestação ou amamentação. Essas informações podem mudar a escolha e o acompanhamento.6
O que observar depois de iniciar
Uma reação que merece atenção é a acatisia: inquietação interna acompanhada de dificuldade para permanecer parado. Pode parecer ansiedade, mas precisa ser avaliada, especialmente quando aparece após o início ou uma mudança do tratamento. Nos três ensaios de depressão bipolar reunidos na bula norte-americana, foi relatada em cerca de 8% das pessoas com cariprazina e 2% com placebo.3
Náusea, sonolência, alterações do sono e sintomas motores também podem ocorrer.3 Ao conversar com o médico, descreva quando o sintoma apareceu e o que passou a atrapalhar:
| Mudança percebida | Informação útil para contar ao médico | Por que comunicar |
|---|---|---|
| Inquietação que dificulta ficar sentado | Quando começou e quanto interfere nas atividades | Ajuda a avaliar acatisia e outras explicações. |
| Sonolência, tontura ou piora do sono | Horário e impacto no trabalho ou ao dirigir | Permite avaliar tolerabilidade e segurança na rotina. |
| Tremor, rigidez ou movimentos involuntários | O que mudou em relação ao seu padrão | Alterações motoras precisam de avaliação. |
Não dirija se estiver sonolento ou com os reflexos prejudicados.6 O artigo sobre acatisia explica melhor essa forma de inquietação.
A cariprazina e seus metabólitos — substâncias formadas quando o organismo a processa — permanecem por bastante tempo no corpo. Por isso, alguns efeitos podem aparecer semanas após o início ou uma mudança de dose, e o acompanhamento não termina nos primeiros dias.3
Também se acompanham peso, glicose e gorduras no sangue. Isso vale mesmo quando não há um incômodo perceptível; alterações metabólicas podem precisar de exames para serem identificadas.4
Febre associada a rigidez intensa e confusão, dificuldade para respirar ou engolir, ou piora com risco de se machucar exigem atendimento imediato.6
O que combinar com o psiquiatra
Antes de iniciar, vale esclarecer o que se espera melhorar e quando o resultado será revisto. Escolha também uma dificuldade cotidiana para acompanhar: conseguir começar as tarefas, retomar compromissos ou passar menos tempo isolado. Esses exemplos ajudam a contar o que mudou entre as consultas, junto da avaliação dos sintomas.
Pergunte quais alterações justificam contato antes do retorno e como avisar a equipe. Se surgir um efeito incômodo, descreva-o; não é preciso esperar que se torne insuportável. Mudanças de medicação devem ser discutidas com o prescritor.6
Ao reavaliar, leve tanto o benefício quanto as dificuldades: o humor melhorou? O interesse voltou? Algum efeito atrapalhou a rotina?
Referências
- Earley W, Burgess MV, Rekeda L, Dickinson R, Szatmári B, Németh G, et al. Cariprazine treatment of bipolar depression: a randomized double-blind placebo-controlled phase 3 study. Am J Psychiatry. 2019;176(6):439–448. doi: 10.1176/appi.ajp.2018.18070824.
- Earley WR, Burgess MV, Khan B, Rekeda L, Suppes T, Tohen M, et al. Efficacy and safety of cariprazine in bipolar I depression: a double-blind, placebo-controlled phase 3 study. Bipolar Disord. 2020;22(4):372–384. doi: 10.1111/bdi.12852.
- AbbVie Inc. Vraylar (cariprazine) capsules: prescribing information [Internet]. North Chicago: AbbVie; 2025 [revisado dez 2025; citado 13 out 2026]. Disponível em: bula norte-americana no FDA.
- National Institute of Mental Health. Mental health medications [Internet]. Bethesda: NIMH; [citado 13 out 2026]. Disponível em: NIMH.
- Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD Guidelines for the Treatment of Bipolar Disorder: Summary and a 2023 Update of Evidence. Focus (Am Psychiatr Publ). 2023;21(4):344–353. doi: 10.1176/appi.focus.20230009.
- American Society of Health-System Pharmacists. Cariprazine. MedlinePlus Drug Information [Internet]. Bethesda: National Library of Medicine; 2025 [revisado 15 nov 2025; citado 13 out 2026]. Disponível em: MedlinePlus.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.