Cetamina e benzodiazepínicos: como avaliar o uso conjunto
Postado em: 02/10/2026
Imagem ilustrativa de diazepam: DMTrott / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Versão disponibilizada no Commons com recorte por Marbletan.
Usar clonazepam ou outro benzodiazepínico não permite prever, sozinho, se o tratamento com cetamina para depressão vai funcionar. Esse medicamento precisa entrar na avaliação: a equipe deve entender por que foi prescrito, como está sendo usado e o que pode mudar na segurança e no acompanhamento. Não o interrompa por conta própria para tentar melhorar o resultado.
A revisão começa pelo conjunto da prescrição e pelo que a pessoa efetivamente toma, inclusive remédios usados só em noites difíceis.
Por que o benzodiazepínico entra nessa conversa
Clonazepam, diazepam, alprazolam e lorazepam são exemplos de benzodiazepínicos. A classe tem usos em condições como ansiedade e insônia e pode causar sonolência. Nem todo medicamento usado para ansiedade ou sono pertence a ela.1
Há duas perguntas a esclarecer. A primeira é se a combinação exige cuidados adicionais durante a aplicação e a recuperação. A segunda é se o benzodiazepínico pode influenciar a melhora dos sintomas depressivos. Um resultado sobre eficácia não responde, por si só, à pergunta sobre segurança.
Em uma análise de estudos com escetamina nasal, a sedação — redução do estado de alerta — foi mais frequente entre os participantes que usavam benzodiazepínicos. Por isso, informe o uso à equipe mesmo quando o medicamento é tomado há muito tempo e parece bem tolerado.2
Também vale descrever o que acontece fora das sessões: dificuldade de despertar, sonolência durante o dia ou uso de uma dose extra em momentos de ansiedade. A receita e esse relato ajudam a equipe a conferir o que está sendo tomado.
O que os estudos mostram sobre a resposta à cetamina
As pesquisas disponíveis não sustentam uma regra única de que benzodiazepínicos “anulam” a cetamina. Elas avaliaram moléculas, vias, populações e períodos diferentes.
| Tratamento e população estudados | Resultado sobre benzodiazepínicos | Limite para interpretar |
|---|---|---|
| Escetamina subcutânea: coorte retrospectiva de 178 pessoas com episódios depressivos resistentes unipolares ou bipolares, em seis aplicações semanais.3 | O uso se associou a pontuações mais altas nas escalas que avaliam os sintomas depressivos, sem diferença detectada na evolução dessas pontuações ao longo do acompanhamento. | Associação observacional; não demonstra que o medicamento causou menor resposta. |
| Cetamina intravenosa: análise do estudo RAPID em adultos com depressão maior resistente, após uma única infusão intravenosa.4 | Na análise principal, doses maiores se associaram a menor melhora em 24 horas, sem associação significativa no terceiro dia. Comparar apenas usuários e não usuários não mostrou o mesmo resultado. | O uso de benzodiazepínicos não foi sorteado. O achado não pode ser transferido automaticamente à via subcutânea. |
| Escetamina nasal: análise posterior dos estudos ASPIRE em depressão maior com ideação ou comportamento suicida agudo.2 | Não houve diferença significativa de melhora em 24 horas entre usuários e não usuários no grupo escetamina. A sedação foi mais frequente com benzodiazepínicos. | Houve cuidado hospitalar e restrições aos momentos de uso; a análise não avaliou administração simultânea. |
Na coorte subcutânea, a expressão técnica “sem interação medicamento × tempo” significa que o modelo não detectou uma diferença na evolução das pontuações ligada ao uso do medicamento. Ter pontuações mais altas durante o período não equivale a demonstrar uma melhora mais lenta. O mesmo estudo não encontrou associações significativas com lítio ou lamotrigina nos modelos relatados; isso tampouco estabelece segurança universal dessas combinações.3
No RAPID, uma análise adicional que excluiu prescrições de uso “se necessário” encontrou associação também em uma das avaliações do terceiro dia. Esse conjunto de resultados não permite definir um período após o qual o benzodiazepínico deixaria de influenciar a resposta.4
Os dados da via nasal se referem ao contexto de crise e à avaliação após a primeira dose. Não estabelecem o efeito do uso crônico no tratamento ambulatorial nem autorizam aplicar as conclusões a pessoas com transtorno bipolar ou a outras vias.2
Nenhuma dessas análises distribuiu os participantes por sorteio para usar ou deixar de usar benzodiazepínicos. Por isso, mesmo nos trabalhos derivados de ensaios clínicos, a comparação desse medicamento mantém limitações. O artigo sobre cetamina endovenosa, subcutânea e intranasal aprofunda as diferenças entre as formas de administração.
Como a pesquisa ajuda a revisar a prescrição
A equipe precisa saber o que o benzodiazepínico está tratando e qual benefício ainda oferece. Foi prescrito para insônia, crises de ansiedade ou outra condição? O uso continua igual ao planejado? Há efeitos indesejados ou uma dificuldade que o tratamento atual deixou sem resposta?
Dose prescrita, apresentação, horários e duração do uso são informações para essa revisão. Não são critérios para o paciente se excluir do tratamento ou calcular sozinho uma quantidade que “não atrapalhe” a cetamina.
Se o psiquiatra que acompanha a depressão e o profissional responsável pelas aplicações forem diferentes, as orientações precisam ser coordenadas. A decisão pode envolver manter o medicamento ou rever sua utilização, considerando a indicação original, a tolerabilidade e o restante do tratamento. Uma alteração não deve deixar o paciente sem saber como lidar com o sintoma que motivou a prescrição.
Se a pessoa relata melhora do humor, mas está sonolenta demais para retomar atividades, as duas informações merecem espaço na consulta. Apenas dizer “melhorei” ou “não funcionou” pode esconder uma dificuldade que precisa ser avaliada.
Por que não suspender antes das aplicações por conta própria
Após uso regular, a retirada abrupta ou uma redução rápida de benzodiazepínicos pode provocar abstinência, inclusive convulsões. Quando há indicação de redução, ela precisa de um plano com o prescritor e acompanhamento.1
Os intervalos de uso adotados em uma pesquisa pertencem àquele protocolo. Eles não servem como instrução de preparo para uma sessão em outro serviço. Antes das aplicações, confirme com a equipe como usar os medicamentos prescritos. Avise se houve alguma mudança recente ou se uma orientação ficou pouco clara.
Uma discussão mais ampla sobre dependência física, tolerabilidade e reavaliação está no artigo sobre uso prolongado de benzodiazepínicos.
O que levar à avaliação
Prepare uma lista que permita conferir:
- Nome e apresentação de cada medicamento, com a dose e os horários prescritos.
- Como você realmente usa cada um, incluindo doses eventuais e mudanças recentes.
- Outros medicamentos sedativos, produtos sem receita, álcool e demais substâncias utilizados.
Uma fotografia das embalagens ou da receita pode ajudar quando há dúvida sobre a apresentação. Informe também quem acompanha a prescrição e quais sintomas continuam difíceis. O artigo sobre avaliação, sessões e acompanhamento com cetamina explica como essa conversa se integra ao tratamento.
Na Genuine Mental Health, o tratamento utiliza escetamina por via subcutânea. A avaliação do tratamento com cetamina permite revisar os medicamentos em uso e esclarecer as orientações antes das aplicações.
Nota de transparência: o Dr. Rogério Onofre participou como coautor do estudo de escetamina subcutânea citado neste artigo.
Referências
- US Food and Drug Administration. FDA requiring Boxed Warning updated to improve safe use of benzodiazepine drug class [Internet]. 2020 set 23 [citado 2 out 2026].
- Diekamp B, Borentain S, Fu DJ, Murray R, Heerlein K, Zhang Q, et al. Effect of concomitant benzodiazepine use on efficacy and safety of esketamine nasal spray in patients with major depressive disorder and acute suicidal ideation or behavior: pooled randomized, controlled trials. Neuropsychiatr Dis Treat. 2021;17:2347–2357. doi:10.2147/NDT.S314874.
- Atidio JP, Delfino RS, Garios IS, de Brito CSGF, Gerheim YP, de Almeida E Vasconcelos GM, et al. Role of concomitant benzodiazepines, lithium, and lamotrigine in modulating the antidepressant effects of subcutaneous esketamine in patients with treatment-resistant depressive episodes: a retrospective naturalistic study. J Affect Disord. 2026;406:121721. doi:10.1016/j.jad.2026.121721. Resumo e registro bibliográfico consultados.
- Feeney A, Hoeppner BB, Freeman MP, Flynn M, Iosifescu DV, Trivedi MH, et al. Effect of concomitant benzodiazepines on the antidepressant effects of ketamine: findings from the RAPID intravenous ketamine study. J Clin Psychiatry. 2023;84(1):22m14491. Publicação eletrônica em 14 nov 2022.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.