Cetamina para depressão resistente em pessoas idosas: o que muda na avaliação?
Postado em: 03/10/2026
Ao considerar cetamina para uma pessoa idosa com depressão resistente, a avaliação precisa ir além da idade. Condições de saúde, medicamentos em uso, memória, mobilidade e atividades do cotidiano ajudam a entender os possíveis benefícios, os riscos e o apoio necessário.1
Há sinais de benefício em estudos pequenos, mas um ensaio importante com escetamina intranasal não encontrou diferença estatisticamente significativa no seu resultado principal.2,3
A idade, sozinha, define a indicação?
Pessoas da mesma idade podem ter necessidades muito diferentes. Uma pode organizar seus medicamentos e deslocamentos sem ajuda; outra pode precisar de apoio por dificuldades de visão, mobilidade ou memória. A decisão deve considerar o que acontece com aquela pessoa, inclusive o que ela espera recuperar com o tratamento.1
Isso se soma à avaliação da própria depressão e dos tratamentos anteriores: o que foi utilizado, qual benefício houve e quais efeitos adversos limitaram as tentativas. O artigo sobre depressão em idosos aborda a investigação mais ampla; aqui, o foco é o que precisa ser discutido quando cetamina ou escetamina entram entre as possibilidades.
Os dados disponíveis não estabelecem uma idade que, isoladamente, determine quem vai melhorar ou quem deve ser excluído do tratamento. A idade de inclusão de uma pesquisa tampouco é uma regra automática para a indicação clínica.2,3
O que os estudos em pessoas idosas mostram?
O ensaio TRANSFORM-3 estudou pessoas com 65 anos ou mais e depressão resistente. Comparou escetamina intranasal mais um novo antidepressivo oral com placebo nasal mais um novo antidepressivo oral. Portanto, o grupo de comparação também iniciou um tratamento antidepressivo.2
Entre os participantes avaliados no 28º dia — 63 no grupo escetamina e 60 no grupo placebo —, a resposta, definida como redução de pelo menos metade da pontuação de sintomas, ocorreu em 27% e 13,3%, respectivamente. A remissão, definida como pontuação de até 12 na escala de sintomas depressivos MADRS, ocorreu em 17,5% e 6,7%, na mesma ordem.4
Na análise principal, a diferença entre os grupos na mudança dos sintomas depressivos não foi estatisticamente significativa. Análises por subgrupos encontraram sinais de benefício em alguns participantes, mas não estabelecem um limite de eficácia aos 75 anos nem demonstram que pessoas acima dessa idade não possam melhorar.2
Outro estudo, um piloto publicado em 2017, incluiu 16 pessoas a partir de 60 anos. Investigou cetamina subcutânea, com uma fase em que cada participante recebeu, em ocasiões distintas, cetamina e midazolam, usado como comparador ativo, seguida de uma fase aberta. Dos 14 participantes que concluíram a fase controlada, sete atingiram remissão pelos critérios da pesquisa.3
Essa pesquisa pequena não permite prever a resposta de um paciente ou afirmar segurança duradoura em pessoas com fragilidade importante. Além disso, estudou cetamina subcutânea, não escetamina subcutânea. O conjunto desses estudos não demonstra especificamente a eficácia e a segurança geriátrica da escetamina subcutânea utilizada pela Genuine. Essa lacuna exige cautela na aplicação dos resultados; não constitui prova de ineficácia.2,3
O texto sobre diferenças entre as vias de cetamina explica por que não basta reconhecer o nome do medicamento para tratar pesquisas distintas como equivalentes.
Como entram as condições clínicas e os medicamentos?
Leve uma lista completa dos medicamentos, incluindo os prescritos por outras especialidades e os produtos sem receita. Condições clínicas coexistentes, quedas anteriores, dificuldades para caminhar e mudanças recentes de saúde ajudam a planejar o cuidado. Essa forma de avaliar segue princípios gerais de atenção à pessoa idosa, não um protocolo exclusivo de cetamina.1
A informação profissional norte-americana da escetamina intranasal descreve sedação, alterações de percepção chamadas dissociação, elevação da pressão arterial e prejuízos agudos de atenção ou coordenação. Também alerta que certos medicamentos e o álcool podem aumentar a sedação.5
Essa bula se refere à formulação intranasal: não define o protocolo de aplicação subcutânea nem transforma regras dos Estados Unidos em exigências brasileiras. A equipe responsável deve avaliar os riscos da intervenção que está propondo e explicar como serão acompanhados.
Não suspenda remédios para “facilitar” a aplicação. Informe efeitos já percebidos, como sonolência, tontura ou confusão, para que possam ser considerados antes do início.5
Por que conhecer a memória e a autonomia antes?
Saber como a pessoa está funcionando antes do tratamento cria uma referência para os retornos. Como organiza compromissos? Consegue seguir as orientações e cuidar das tarefas habituais? Houve mudança recente na memória ou na capacidade de se cuidar? A avaliação deve ouvir a própria pessoa e, quando pertinente e com sua participação, alguém próximo.1
Isso não significa presumir demência diante de qualquer esquecimento. O artigo sobre depressão e memória explica por que essas queixas precisam ser investigadas no contexto clínico.
Já existe pesquisa preliminar em pessoas com depressão e comprometimento cognitivo leve. No KET-MCI, publicado em 2026, 13 participantes receberam uma única administração de cetamina intravenosa em um estudo aberto, sem grupo de comparação. Oito dos 13 mantinham redução de pelo menos metade dos sintomas até um mês após a administração. Não foram relatados eventos adversos graves.6
Esse resultado exploratório não comprova melhora da cognição, proteção contra demência ou segurança de aplicações repetidas. Comprometimento cognitivo leve também não equivale a demência; o estudo não permite estender suas conclusões a essa outra população.6
Que apoio pode ser necessário?
Antes das aplicações, combine como chegar ao serviço e voltar para casa. Confirme também se as orientações para depois da sessão ficaram claras. A bula da escetamina intranasal, por exemplo, alerta para prejuízo da capacidade de dirigir após a administração e orienta planejar transporte. Os cuidados precisam ser definidos conforme o tratamento realizado.5
Precisar de apoio em um dia de aplicação não significa perder autonomia para decidir. Pergunte à pessoa quem ela deseja incluir nas conversas e que ajuda considera útil. Um familiar pode contribuir com observações e logística sem substituir sua voz.1
Como acompanhar se o tratamento está valendo a pena?
Além da intensidade dos sintomas, convém combinar o que será observado na vida diária. Conseguir preparar uma refeição, retomar uma conversa ou voltar a uma atividade valorizada são exemplos de mudanças que podem ser discutidas, sem exigir o mesmo objetivo de todos.1
Os benefícios precisam ser considerados junto dos efeitos adversos e das dificuldades para manter o cuidado. Nos retornos, descreva o que melhorou, o que continuou limitado e o que surgiu após as aplicações. A decisão sobre continuidade deve ser reavaliada com essas informações, sem um número de aplicações definido apenas pela idade.
Na avaliação da depressão resistente na Genuine Mental Health, leve o histórico dos tratamentos e a lista de medicamentos. Se desejar a participação de alguém próximo, combine como essa pessoa poderá ajudar a reconstruir a história e acompanhar as decisões.
Referências
- British Geriatrics Society. Comprehensive geriatric assessment (CGA) hub. Recurso institucional. Acesso em 3 out 2026.
- Ochs-Ross R, Daly EJ, Zhang Y, Lane R, Lim P, Morrison RL, et al. Efficacy and safety of esketamine nasal spray plus an oral antidepressant in elderly patients with treatment-resistant depression: TRANSFORM-3. Am J Geriatr Psychiatry. 2020;28(2):121–141. doi:10.1016/j.jagp.2019.10.008.
- George D, Gálvez V, Martin D, Kumar D, Leyden J, Hadzi-Pavlovic D, et al. Pilot randomized controlled trial of titrated subcutaneous ketamine in older patients with treatment-resistant depression. Am J Geriatr Psychiatry. 2017;25(11):1199–1209. doi:10.1016/j.jagp.2017.06.007.
- Janssen. Documentação de escetamina e estudos TRANSFORM-3. In: Medicinrådet. Baggrund for Medicinrådets anbefaling vedrørende esketamin til behandling af behandlingsresistent depression hos voksne, versão 1.0. Seções 5.2.3 e 6.1.5; tabelas A2.2a e A3c. Documento do patrocinador incluído em avaliação pública. Acesso em 3 out 2026.
- Janssen Pharmaceuticals, Inc. SPRAVATO (esketamine) nasal spray: full prescribing information. DailyMed. Informação profissional dos Estados Unidos. Versão vigente em 22 set 2026. Acesso em 3 out 2026.
- Fremont R, Karim A, Estevez TP, McDonough C, LaBarbiera A, Feder A, et al. KET-MCI: a pilot safety and tolerability study of single infusion intravenous ketamine for older adults with depression and mild cognitive impairment. Am J Geriatr Psychiatry. 2026;34(7):899–910. doi:10.1016/j.jagp.2026.02.005.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.