Cetamina e lamotrigina: o medicamento interfere no resultado?

Postado em: 20/10/2026

Três comprimidos rosados de lamotrigina sobre uma superfície clara.

Quem usa lamotrigina pode se preocupar com a possibilidade de o medicamento diminuir o efeito da cetamina. Até o momento, os estudos em pacientes não mostram de maneira consistente uma redução do benefício antidepressivo com essa associação. Há dados com cetamina intravenosa, escetamina intranasal e, mais recentemente, escetamina subcutânea. Isso ajuda a avaliar o uso conjunto, mas não cria uma regra de manter ou retirar lamotrigina para todas as pessoas.1,2

A decisão precisa considerar por que a lamotrigina foi prescrita, o que ela já trouxe de benefício e como a depressão será acompanhada durante as aplicações. Não pule doses nem suspenda o medicamento por conta própria para tentar aumentar o efeito da cetamina.

De onde surgiu a dúvida sobre essa associação?

Os dois medicamentos interferem, por caminhos diferentes, na sinalização do glutamato, uma substância envolvida na comunicação entre células do cérebro. Como a lamotrigina pode reduzir sua liberação, surgiu a hipótese de que ela modificaria alguns efeitos da cetamina. Esse raciocínio justifica pesquisar a combinação; não demonstra que um medicamento anule o outro.3

Em um experimento com 16 voluntários saudáveis, a lamotrigina reduziu alterações perceptivas e alguns efeitos cognitivos provocados pela cetamina. Era uma avaliação dos efeitos agudos dos medicamentos, não um tratamento de pessoas com depressão. Portanto, aquele resultado não respondia se alguém em uso contínuo de lamotrigina teria menor chance de melhorar de um episódio depressivo.3

O que aconteceu nos estudos com pacientes?

Uma pesquisa de Yale reuniu 347 pessoas com depressão unipolar, das quais 57 usavam lamotrigina. Elas receberam cetamina racêmica intravenosa ou escetamina intranasal na fase inicial do tratamento, durante duas a quatro semanas. A evolução dos sintomas, medida por duas escalas de depressão, não apresentou diferença estatisticamente significativa entre quem usava e quem não usava lamotrigina. O resultado se manteve após ajustes para características dos pacientes e outros tratamentos.1

No Brasil, pesquisadores do Programa de Transtornos Afetivos da UNIFESP analisaram 178 pacientes com episódios depressivos resistentes, incluindo depressão unipolar e bipolar. O tratamento consistiu em seis aplicações semanais de escetamina subcutânea. Os sintomas diminuíram ao longo do acompanhamento, e o uso concomitante de lamotrigina não se associou a uma trajetória diferente de melhora.2

Esses dois estudos observaram tratamentos realizados na prática clínica, sem sortear quem receberia lamotrigina. Eles não encontraram o prejuízo que a hipótese inicial sugeria, mas também não comprovam que a interação seja inexistente em qualquer pessoa. A pesquisa de Yale, em particular, não responde sobre manutenção prolongada nem deve ser aplicada automaticamente à depressão bipolar.1,2

Um trabalho menor da Mayo Clinic, com cetamina racêmica intravenosa ou escetamina intranasal, também não detectou diferença de resposta ou remissão entre pacientes com e sem lamotrigina. A comparação inicial tinha 62 participantes, apenas oito em uso do medicamento.4

Em uma série ampliada de 13 pessoas que mantiveram lamotrigina, nove atingiram resposta — redução de pelo menos metade da pontuação dos sintomas — em algum momento da fase inicial. Dessas nove, seis chegaram à remissão, uma pontuação baixa de sintomas. Quatro não atingiram o critério de resposta nessa fase. Esses resultados mostram que houve melhora mesmo com o uso concomitante; pelo tamanho da série e pela ausência de um grupo de comparação nessa análise ampliada, não estimam a chance individual de sucesso nem provam benefício adicional da lamotrigina.4

Em outro pequeno ensaio, 26 pacientes receberam, por sorteio, uma dose de lamotrigina ou placebo antes de uma infusão de cetamina. A lamotrigina não aumentou o efeito antidepressivo. Esse desenho investigou uma administração pontual antes da infusão, diferente de avaliar a manutenção de um tratamento já utilizado há meses.5

Sentir menos dissociação significa menor efeito?

A intensidade das sensações durante a aplicação não é uma medida confiável, por si só, da melhora da depressão. Dissociação é o nome dado a alterações transitórias na percepção de si ou do ambiente, como sentir o corpo distante ou perceber o tempo de outra maneira. Ela deve ser acompanhada pela equipe, mas não precisa se tornar um objetivo da sessão.

No estudo da Mayo Clinic, houve um sinal de menor dissociação entre usuários de lamotrigina, sobretudo na análise de quem recebeu cetamina intravenosa. Isso não veio acompanhado de menor melhora dos sintomas depressivos. Já no pequeno ensaio de administração pontual, a lamotrigina não reduziu esses efeitos agudos. Os resultados não sustentam a ideia de acrescentá-la apenas para tornar a aplicação mais confortável.4,5

Essa distinção é aprofundada no artigo sobre dissociação e resposta ao tratamento com cetamina.

Como acompanhar o tratamento quando se usa lamotrigina

Na avaliação prévia, informe a indicação da lamotrigina, a dose em uso, mudanças recentes e os demais medicamentos. Se ela faz parte do tratamento do transtorno bipolar, sua função ao longo do tempo também precisa entrar na decisão; o artigo sobre lamotrigina no transtorno bipolar explica esse contexto.

Os estudos citados não demonstraram que interromper rotineiramente a lamotrigina de manutenção antes das aplicações melhore os resultados. A orientação sobre a prescrição deve vir da equipe que conhece o conjunto do tratamento.1,2,4

Para acompanhar o benefício, combine com o médico quais mudanças serão avaliadas e quando. Além das escalas de sintomas, exemplos do cotidiano ajudam a descrever a evolução: conseguir voltar a preparar uma refeição, retomar uma atividade antes abandonada ou sustentar melhor a atenção no trabalho. Escolha atividades que ficaram difíceis com a depressão e observe o que muda durante o tratamento.

Relate também efeitos indesejados e mudanças de sono, energia ou comportamento. Registrar que uma aplicação teve poucas alterações perceptivas é útil para avaliar a experiência; saber como você passou os dias seguintes ajuda a avaliar o tratamento da depressão.

Referências

  1. Santucci MC, Katz RB, Pittman B, Nikayin S, Wilkinson ST. Lamotrigine is not associated with differential clinical outcomes in a real-world sample of patients with unipolar depression receiving ketamine or esketamine. Psychopharmacology (Berl). 2026;243(6):1427–1435. doi:10.1007/s00213-025-06896-7.
  2. Atidio JP, Delfino RS, Garios IS, Farias de Brito CSG, Gerheim YP, de Almeida e Vasconcelos GM, et al. Role of concomitant benzodiazepines, lithium, and lamotrigine in modulating the antidepressant effects of subcutaneous esketamine in patients with treatment-resistant depressive episodes: a retrospective naturalistic study. J Affect Disord. 2026;406:121721. doi:10.1016/j.jad.2026.121721.
  3. Anand A, Charney DS, Oren DA, Berman RM, Hu XS, Cappiello A, et al. Attenuation of the neuropsychiatric effects of ketamine with lamotrigine: support for hyperglutamatergic effects of N-methyl-D-aspartate receptor antagonists. Arch Gen Psychiatry. 2000;57(3):270–276. doi:10.1001/archpsyc.57.3.270.
  4. Joseph B, Nunez NA, Kung S, Vande Voort JL, Pazdernik VK, Schak KM, et al. Efficacy of ketamine with and without lamotrigine in treatment-resistant depression: a preliminary report. Pharmaceuticals (Basel). 2023;16(8):1164. doi:10.3390/ph16081164.
  5. Mathew SJ, Murrough JW, aan het Rot M, Collins KA, Reich DL, Charney DS. Riluzole for relapse prevention following intravenous ketamine in treatment-resistant depression: a pilot randomized, placebo-controlled continuation trial. Int J Neuropsychopharmacol. 2010;13(1):71–82. doi:10.1017/S1461145709000169.

Imagem: P3829 / Wikimedia Commons.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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