Depressão em pessoas com epilepsia: como reconhecer e organizar o tratamento?
Postado em: 18/10/2026
Foto: Baburov / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
Ter epilepsia não impede o tratamento da depressão. Psicoterapia e medicamentos podem ser utilizados, com escolhas que considerem o quadro depressivo, as crises epilépticas e as possíveis interações entre as prescrições. As recomendações da Liga Internacional Contra a Epilepsia incluem intervenções psicológicas e antidepressivos quando indicados.1
A depressão merece avaliação mesmo quando as crises estão controladas. Seus sintomas não devem ser aceitos como consequência inevitável da epilepsia.2
O que mudou além das crises?
Deixar de sentir prazer, perder a vontade de encontrar pessoas, sentir-se sem perspectiva e ter dificuldade para realizar tarefas podem fazer parte da depressão. Sono ruim, cansaço e dificuldade de concentração também são relevantes, mas têm várias explicações possíveis. A avaliação considera o conjunto, sua duração e o impacto na vida.2
Uma descrição concreta ajuda a separar limitações que já existiam de mudanças recentes. Considere alguém que mantém a mesma restrição para dirigir, mas agora deixou também de fazer atividades que poderia realizar em casa e das quais gostava. A restrição anterior não explica, sozinha, essa nova perda de interesse.
Também importa saber quando o desânimo aparece em relação às crises. Há sintomas psiquiátricos que surgem ou se intensificam no período após uma crise, chamado de pós-ictal. Um estudo em pessoas com epilepsia focal de difícil controle documentou essas manifestações. Isso não permite classificar toda tristeza após uma crise como depressão nem descartar um episódio depressivo que persista entre elas.3
Leve as datas aproximadas das mudanças de humor, das crises e dos ajustes de medicamentos. Se houver um padrão que se repete, descreva-o. A relação temporal ajuda a investigar, mas não prova que um remédio ou uma crise tenha causado o sintoma.1,3
Questionários podem facilitar o reconhecimento de sintomas que não apareceriam espontaneamente na consulta. O NDDI-E, desenvolvido para pessoas com epilepsia, é um instrumento breve de rastreamento: sinaliza a necessidade de investigar depressão, mas não substitui o diagnóstico clínico.4 O artigo geral sobre depressão apresenta os principais sintomas e formas de tratamento.
Quanto o tratamento ajudou em um ensaio clínico?
Um estudo distribuiu aleatoriamente 140 adultos com epilepsia e depressão maior para receber sertralina ou sessões semanais de terapia cognitivo-comportamental, a TCC, durante 16 semanas. A remissão foi avaliada por uma entrevista diagnóstica: significava não preencher mais os critérios do episódio depressivo naquele momento.5
| Tratamento estudado | Participantes que atingiram remissão da depressão |
|---|---|
| Sertralina | 38 de 72 — 52,8% |
| TCC semanal | 41 de 68 — 60,3% |
Os números mostram que houve remissão em mais da metade dos participantes de cada grupo. A diferença não demonstrou superioridade de um tratamento sobre o outro. Como não havia um grupo recebendo placebo no mesmo estudo, não é possível calcular diretamente quanto do benefício excederia o de placebo.5
Não alcançar remissão não significa necessariamente ausência de melhora: pode ter havido benefício parcial. Remissão também não é sinônimo de cura definitiva. Quanto às crises tônico-clônicas generalizadas, não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos durante o ensaio; esse resultado não garante ausência de risco para toda pessoa ou todo antidepressivo.5
Como escolher entre psicoterapia e medicamento
Nas formas leves de depressão, as recomendações da Liga Internacional Contra a Epilepsia priorizam intervenções psicológicas. Quando há indicação de medicamento, os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, ou ISRS, são opções de primeira escolha; essa classe inclui a sertralina. Em quadros moderados ou graves, pode ser indicada a combinação de tratamento medicamentoso e psicoterapia.1
Na TCC, o trabalho pode envolver reconhecer pensamentos que intensificam o sofrimento e recuperar atividades interrompidas pela depressão.2 As metas precisam respeitar as limitações reais da epilepsia.
A seleção do antidepressivo considera os medicamentos para epilepsia, interações, resposta anterior e efeitos adversos. O texto sobre sertralina e acompanhamento do tratamento aprofunda o uso desse medicamento, sem substituir a avaliação da combinação prescrita.1
Há contraindicações específicas: a bula profissional brasileira do Wellbutrin XL, que contém bupropiona, contraindica seu uso em pessoas com epilepsia ou outros transtornos convulsivos. Se a bupropiona estiver na sua prescrição, comunique esse histórico ao médico para revisão. Não faça a substituição ou a interrupção por conta própria.6
O acompanhamento precisa reunir as duas prescrições
Psiquiatra e neurologista devem ter acesso às informações relevantes dos dois tratamentos. Leve uma lista atualizada de medicamentos, o registro das crises e o que mudou no humor após cada ajuste. Antes de sair da consulta, confirme quem acompanhará a resposta depressiva e como comunicar novos sintomas ou uma mudança nas crises.7
Escolha também uma atividade que a depressão prejudicou e que você gostaria de retomar: cozinhar, estudar por um período que consiga sustentar ou reencontrar alguém, por exemplo. Observe o que consegue fazer ao longo do tratamento. Se desejar, peça a alguém próximo que ajude a descrever as mudanças percebidas.
Pensamentos de morte ou autoagressão devem ser comunicados à equipe. Se houver intenção de agir, tentativa de suicídio ou dificuldade de permanecer em segurança, procure atendimento de urgência. Não é necessário esperar o próximo retorno ou o controle completo das crises para pedir ajuda com a depressão.2
Referências
- Mula M, Brodie MJ, de Toffol B, et al. ILAE clinical practice recommendations for the medical treatment of depression in adults with epilepsy. Epilepsia. 2022;63(2):316–334. doi:10.1111/epi.17140.
- National Institute of Mental Health. Depression [Internet]. Bethesda: NIMH; [acesso em 18 out 2026].
- Kanner AM, Soto A, Gross-Kanner H. Prevalence and clinical characteristics of postictal psychiatric symptoms in partial epilepsy. Neurology. 2004;62(5):708–713. doi:10.1212/01.WNL.0000113763.11862.26.
- Gilliam FG, Barry JJ, Hermann BP, et al. Rapid detection of major depression in epilepsy: a multicentre study. Lancet Neurol. 2006;5(5):399–405. doi:10.1016/S1474-4422(06)70415-X.
- Gilliam FG, Black KJ, Carter J, et al. A trial of sertraline or cognitive behavior therapy for depression in epilepsy. Ann Neurol. 2019;86(4):552–560. doi:10.1002/ana.25561.
- GlaxoSmithKline Brasil. Wellbutrin XL (cloridrato de bupropiona): bula do profissional de saúde [Internet]. Versão com aprovação pela Anvisa informada em 4 set 2026. Seção 4, Contraindicações. [acesso em 18 out 2026].
- National Institute for Health and Care Excellence. Epilepsies in children, young people and adults [Internet]. London: NICE; 2022. Guideline NG217. Seção 9.1. [acesso em 18 out 2026].
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.