Lurasidona na depressão bipolar: benefícios, efeitos adversos e acompanhamento
Postado em: 30/09/2026
A lurasidona é uma opção para tratar episódios depressivos do transtorno bipolar I. A bula brasileira prevê seu uso em adultos tanto isoladamente quanto em associação a lítio ou valproato. Essa indicação não se estende automaticamente ao bipolar II, que exige uma discussão própria de evidências e tratamento.1
Ela pertence à classe dos antipsicóticos atípicos. Apesar do nome da classe, pode ser prescrita para depressão bipolar sem que a pessoa tenha delírios ou alucinações. Sua ação terapêutica nessa fase não a torna um antidepressivo convencional.1
O que esperar do tratamento
Em um ensaio clínico com 505 adultos com depressão bipolar I, a lurasidona foi comparada a placebo durante seis semanas. Os grupos que receberam o medicamento apresentaram maior redução dos sintomas depressivos. Também houve melhora nas medidas de qualidade de vida e de dificuldades de funcionamento relatadas pelos participantes.2
São resultados relacionados, mas diferentes: a redução de tristeza e desânimo é avaliada por escalas de sintomas; conseguir retomar atividades envolve outras dimensões da recuperação. O benefício médio do estudo não permite prever quanto cada pessoa melhorará, nem garante recuperação completa em seis semanas.2
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2025 também encontrou benefício sobre sintomas depressivos e incapacidade associada. Os autores ressaltaram a necessidade de ampliar a investigação das estratégias de longo prazo.3
A atualização CANMAT/ISBD de 2023 inclui a lurasidona entre as opções de primeira linha para a depressão bipolar I. A escolha considera tratamentos anteriores, tolerabilidade, outras condições de saúde e preferências da pessoa. O resultado no episódio depressivo atual, por si só, não demonstra prevenção de todas as fases do transtorno.4
O guia sobre tratamento da depressão bipolar explica como o cuidado do episódio se articula ao plano de manutenção.
Por que precisa ser tomada com comida
A lurasidona deve ser tomada com alimento que forneça no mínimo 350 calorias, conforme a bula. A alimentação aumenta sua absorção; tomar em jejum pode reduzir a quantidade de medicamento disponível no organismo. Um lanche pequeno pode não fornecer as 350 calorias necessárias.1
Se for difícil conciliar a tomada com uma refeição, leve essa dificuldade ao prescritor. Vale esclarecer como integrar o medicamento à rotina, sem compensar mudanças na alimentação com alterações de dose por conta própria.
Interações que precisam ser revisadas
Alguns medicamentos interferem intensamente na CYP3A4, uma enzima que participa do processamento da lurasidona. A associação com inibidores ou indutores fortes dessa enzima é contraindicada. Exemplos incluem claritromicina, ritonavir, carbamazepina e erva-de-são-joão.1
Leve uma lista de todos os medicamentos e suplementos, inclusive os usados ocasionalmente. Antes de iniciar ou interromper outro produto durante o tratamento, confirme a compatibilidade com o médico ou farmacêutico.5
Efeitos adversos e a dúvida sobre ganho de peso
Náusea, sonolência e acatisia estiveram entre os efeitos mais frequentes no ensaio de seis semanas. Nesse estudo, as alterações médias de peso, gorduras no sangue e controle da glicose foram pequenas. Isso descreve o grupo estudado e o período observado; não significa que ninguém possa ganhar peso.2
A acatisia pode aparecer como inquietação intensa, necessidade de se movimentar e dificuldade para permanecer sentado. Esse desconforto merece ser relatado, sobretudo quando surge após o início do medicamento ou uma mudança no tratamento. Não dirija nem opere máquinas perigosas até saber como a lurasidona afeta você. Se houver sonolência, evite essas atividades e comunique o efeito ao prescritor.5
O acompanhamento inclui peso e saúde metabólica, com avaliação de glicemia, perfil de gorduras no sangue e pressão arterial conforme o plano clínico. Um perfil metabólico favorável não dispensa esse cuidado.4
Procure atendimento urgente diante de dificuldade para respirar, inchaço de face ou garganta, ou febre acompanhada de rigidez muscular importante e confusão. Piora acentuada do humor ou surgimento de pensamentos de se machucar exige contato imediato com a equipe; se houver risco de agir, procure um serviço de emergência.5
O que levar ao retorno
Exemplos concretos tornam a conversa mais útil: “voltei a terminar uma tarefa”, “durmo durante o expediente” ou “fico andando pela casa porque não consigo parar”. Anote quando percebeu a mudança e se houve alguma alteração na rotina da tomada.
Também vale combinar quais sinais serão usados para avaliar a resposta e quando o tratamento será revisto. A duração de um estudo não define o prazo individual de melhora nem um momento automático para suspender a medicação. Benefícios, efeitos adversos e regularidade do uso precisam ser avaliados em conjunto.4
Referências
- Daiichi Sankyo Brasil Farmacêutica Ltda. Latuda: cloridrato de lurasidona. Bula do profissional de saúde. 2025. Consultado em 30 set 2026.
- Loebel A, Cucchiaro J, Silva R, Kroger H, Hsu J, Sarma K, et al. Lurasidone monotherapy in the treatment of bipolar I depression: a randomized, double-blind, placebo-controlled study. Am J Psychiatry. 2014;171(2):160–168. doi:10.1176/appi.ajp.2013.13070984.
- Aronica R, Pagani C, Favalli V, Brambilla P, Nosari G, Delvecchio G. Efficacy of lurasidone in adults with bipolar depression: a systematic review and meta-analysis of its impact on depressive symptoms and disability. J Affect Disord. 2025;381:100–107. doi:10.1016/j.jad.2025.03.197.
- Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD Guidelines for the Treatment of Bipolar Disorder: Summary and a 2023 Update of Evidence. Focus. 2023;21(4):344–353. doi:10.1176/appi.focus.20230009.
- American Society of Health-System Pharmacists. Lurasidone. MedlinePlus Drug Information. Consultado em 30 set 2026.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.