Novas pesquisas com cetamina: o que os estudos mostram
Postado em: 20/10/2025

Quando a depressão persiste apesar dos tratamentos, duas perguntas ganham importância: o que pode ajudar e quanto tempo leva para fazer efeito? Um estudo de 2025 com escetamina nasal encontrou melhora superior à do placebo já nas primeiras 24 horas. Outras pesquisas investigam aplicações subcutâneas e comprimidos, com resultados que variam conforme a formulação e o protocolo.1
Aqui reunimos estudos selecionados, publicados entre 2021 e 2026. O foco é o que eles acrescentam ao tratamento da depressão e à pesquisa sobre pensamentos suicidas — não uma revisão de todas as indicações da cetamina.
Uma distinção ajuda na leitura: a cetamina racêmica reúne as formas S e R da molécula; a escetamina corresponde à forma S. A via de administração também importa. Um resultado obtido com determinada formulação não se transfere automaticamente às demais.
Escetamina nasal sem antidepressivo oral
Um ensaio publicado no JAMA Psychiatry em 2025 estudou escetamina intranasal sem associação a antidepressivo oral em adultos com depressão resistente. Na análise de eficácia, com 378 participantes, os dois grupos de escetamina tiveram redução dos sintomas superior à do placebo em quatro semanas. A diferença já aparecia 24 horas após a primeira dose.1
É um avanço na investigação de alternativas para quem não melhorou com tratamentos anteriores. O estudo avaliou especificamente a formulação nasal; não orienta a suspensão de medicamentos por conta própria.
Via subcutânea: praticidade e resultados na depressão resistente
A via subcutânea administra o medicamento no tecido abaixo da pele, sem necessidade de acesso venoso para a aplicação. Essa simplicidade é uma vantagem prática nos tratamentos com sessões repetidas, mantendo a supervisão e a observação clínica.2
No KADS, publicado em 2023, a cetamina racêmica subcutânea mostrou benefício na depressão resistente. Com doses ajustáveis, 19,6% dos participantes atingiram remissão em quatro semanas, contra 2,0% com midazolam. Remissão significa sintomas abaixo do limite definido pelo estudo, não cura definitiva. Na etapa com dose fixa, não houve diferença significativa.2
Outro achado favorável foi o caráter transitório dos efeitos agudos: alterações perceptivas e elevação da pressão arterial retornaram ao nível anterior ou se resolveram durante as duas horas de observação. Houve, porém, eventos adversos e interrupções do tratamento. O resultado apoia o uso acompanhado, não a ideia de uma aplicação sem riscos.2
Há também pesquisa brasileira específica com escetamina subcutânea. Em um estudo publicado em 2021, 70 pacientes com depressão resistente unipolar ou bipolar receberam seis aplicações semanais, como complemento ao tratamento. Metade apresentou resposta clínica — redução de pelo menos 50% na pontuação dos sintomas depressivos. É um sinal favorável em pacientes com histórico de tratamentos insuficientes. Por ser uma análise retrospectiva, sem grupo controle, não permite atribuir toda a melhora à escetamina nem comparar sua eficácia com outras vias.3
O KADS estudou cetamina racêmica, não escetamina. Os dois trabalhos sustentam o interesse pela via subcutânea, com níveis de evidência diferentes.
Para conhecer as diferenças entre as formas de administração, leia sobre cetamina endovenosa, subcutânea e escetamina intranasal.
Cetamina oral: duas formulações, resultados diferentes
Em 2024, um estudo de fase 2 avaliou o comprimido de liberação prolongada R-107. Na maior dose pesquisada, houve benefício em comparação ao placebo na manutenção da melhora. A etapa comparativa, porém, incluiu somente pessoas que já haviam respondido à fase inicial do tratamento. O resultado descreve esse grupo selecionado.4
Uma publicação de 2026 apresentou resultados da formulação KET01. No ensaio com 122 pacientes, ela não superou significativamente o placebo na medida principal de sintomas depressivos aos 21 dias. Os sinais de melhora em avaliações anteriores não substituem esse resultado principal.5
Os trabalhos mostram por que “cetamina em comprimidos” não deve ser tratada como uma opção única: formulação, seleção dos participantes e duração da avaliação mudam o que se pode concluir.
Por que também considerar estudos sem resultado positivo?
No KARMA-Dep 2, publicado em 2025, a análise de 62 participantes não demonstrou benefício adicional das infusões de cetamina sobre o midazolam na medida principal de depressão ao final do tratamento. Ambos foram acrescentados ao cuidado hospitalar habitual.6
Isso não prova que a cetamina seja ineficaz em qualquer situação. Mostra que, naquele contexto, o benefício esperado não foi demonstrado. Para interpretar uma pesquisa, é preciso saber quem participou, qual foi o comparador e quando o resultado foi medido.
E os pensamentos suicidas?
Um ensaio de 2022 encontrou redução rápida de pensamentos suicidas após cetamina intravenosa em pacientes hospitalizados. O efeito variou conforme o diagnóstico; não foi uniforme entre os grupos. O estudo não demonstrou prevenção de tentativas de suicídio ou mortes.7
Em risco imediato, procure um pronto-socorro ou acione o SAMU 192. Não espere uma consulta eletiva ou uma aplicação de cetamina.
Como levar essas pesquisas para a consulta
Os estudos ajudam a discutir opções quando tratamentos anteriores foram insuficientes. Para a decisão individual, importam o diagnóstico, as tentativas anteriores, a formulação disponível e o acompanhamento necessário. Resposta rápida e manutenção da melhora são questões diferentes.
O acompanhamento também considera efeitos adversos, como tontura, alterações perceptivas e aumento transitório da pressão arterial, descritos nos ensaios. A supervisão médica faz parte do tratamento.12
Para entender as expectativas ao longo do cuidado, leia sobre resultados clínicos da cetamina na depressão. A explicação dos mecanismos está em como a cetamina age no cérebro.
Avaliação na Genuine Mental Health
Na Genuine Mental Health, em Pinheiros, São Paulo, utilizamos escetamina, também chamada S-cetamina, por via subcutânea. A indicação considera o histórico de tratamento e as condições clínicas de cada pessoa. Conheça a avaliação para tratamento com cetamina.
Referências
- Janik A, Qiu X, Lane R, et al. Esketamine Monotherapy in Adults With Treatment-Resistant Depression: A Randomized Clinical Trial. JAMA Psychiatry. 2025;82(9):877–887. Artigo e DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2025.1317.
- Loo C, Glozier N, Barton D, et al. Efficacy and safety of a 4-week course of repeated subcutaneous ketamine injections for treatment-resistant depression (KADS study): randomised double-blind active-controlled trial. Br J Psychiatry. 2023;223(6):533–541. Registro e DOI: 10.1192/bjp.2023.79.
- Lucchese AC, Sarin LM, Magalhães EJM, et al. Repeated subcutaneous esketamine for treatment-resistant depression: Impact of the degree of treatment resistance and anxiety comorbidity. J Psychopharmacol. 2021;35(2):142–149. Registro e DOI: 10.1177/0269881120978398.
- Glue P, Loo C, Fam J, et al. Extended-release ketamine tablets for treatment-resistant depression: a randomized placebo-controlled phase 2 trial. Nat Med. 2024;30:2004–2009. Registro e DOI: 10.1038/s41591-024-03063-x.
- Walter M, zu Eulenburg C, Damyanova A, et al. Oral Prolonged-Release Ketamine for Treatment-Resistant Depression: Two Randomized Clinical Trials. JAMA Netw Open. 2026;9(6):e2619121. Registro e DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2026.19121.
- Jelovac A, McCaffrey C, Terao M, et al. Serial Ketamine Infusions as Adjunctive Therapy to Inpatient Care for Depression: The KARMA-Dep 2 Randomized Clinical Trial. JAMA Psychiatry. 2025. Registro e DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2025.3019.
- Abbar M, Demattei C, El-Hage W, et al. Ketamine for the acute treatment of severe suicidal ideation: double blind, randomised placebo controlled trial. BMJ. 2022;376:e067194. Artigo e DOI: 10.1136/bmj-2021-067194.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.