Perimenopausa e depressão: quando as mudanças de humor precisam de avaliação

Postado em: 19/09/2026

Mulher na meia-idade usando um leque, sentada perto de uma janela.

Mudanças de humor na perimenopausa merecem avaliação quando persistem, causam sofrimento ou começam a comprometer a vida cotidiana. A transição menopausal pode aumentar a vulnerabilidade à depressão, mas depressão não é uma consequência inevitável dessa fase. Alterações hormonais, sono, história de saúde mental e acontecimentos de vida podem participar do mesmo quadro.1

Não é necessário decidir sozinha se o problema é “hormonal” ou “emocional” antes de procurar ajuda. A avaliação considera como esses fatores se combinam.

A perimenopausa começa antes de a menstruação parar

Perimenopausa é o período de transição em torno da última menstruação. Pode começar com mudanças no ciclo e se estende até um ano depois da menstruação final. A menopausa natural é reconhecida após 12 meses consecutivos sem menstruar, quando não há outra causa para essa ausência.2

Portanto, continuar menstruando não exclui estar nessa transição. O uso de anticoncepcionais hormonais pode dificultar a interpretação do padrão de sangramento.3

A experiência varia bastante. Algumas mulheres têm poucos sintomas; outras enfrentam ondas de calor, suor noturno, sono interrompido e mudanças que afetam o trabalho e as relações. Esses incômodos merecem cuidado mesmo quando não há um episódio depressivo.2

O que observar além da irritabilidade?

Irritabilidade, cansaço e dificuldade de concentração podem acompanhar noites mal dormidas e sintomas da menopausa. Ao mesmo tempo, também podem aparecer na depressão. Um sintoma isolado não resolve essa diferença.1,3

Vale observar se houve perda persistente do interesse pelas coisas, tristeza que ocupa boa parte do dia ou dificuldade crescente para cuidar de si e manter compromissos. Mais do que contar sintomas, importa comparar com seu funcionamento habitual e descrever o impacto concreto.4

“Tenho acordado encharcada de suor e fico irritada no dia seguinte” oferece uma pista diferente de “mesmo nas noites em que durmo melhor, continuo sem interesse por nada”. Essas frases são exemplos de relatos úteis, não testes para separar menopausa de depressão.

Também conta o histórico: episódios anteriores de depressão, tratamentos que ajudaram ou trouxeram dificuldades e acontecimentos como perdas, conflitos ou sobrecarga. A diretriz sobre depressão perimenopausal destaca justamente a necessidade de avaliar os sintomas da transição junto da história psiquiátrica e do contexto de vida.1

Como diferenciar uma oscilação de humor de depressão?

A avaliação considera o conjunto: duração, frequência, intensidade, prejuízo e evolução. Um dia de irritação não basta para diagnosticar depressão; por outro lado, sofrimento persistente não deve ser descartado como “coisa da idade”. Não é preciso esperar a menstruação parar para investigar.1,4

Se a piora se concentra antes de menstruar e melhora depois, relate esse padrão. Ele abre uma investigação diferente, abordada no texto sobre TPM ou TDPM. A associação repetida com uma fase do ciclo não é a mesma coisa que estar atravessando a transição menopausal.5

A avaliação também pode considerar outras condições de saúde ou medicamentos que contribuam para o sofrimento.4 O objetivo não é encontrar uma explicação única a qualquer custo, mas reconhecer o que precisa de cuidado.

Um exame hormonal esclarece a causa?

Um exame hormonal isolado não explica uma mudança de humor. Para mulheres saudáveis com 45 anos ou mais, com ondas de calor ou suores de início recente e mudanças no ciclo menstrual, a NICE orienta identificar a perimenopausa pela história clínica, sem exames laboratoriais de rotina para esse fim. A necessidade de outros exames depende do contexto; isso não dispensa investigar causas alternativas para os sintomas.6

O que ajuda a preparar a consulta?

Uma linha do tempo simples costuma ser mais útil do que tentar atribuir cada sintoma a uma causa. Anote, se conseguir:

  • Quando o ciclo menstrual começou a mudar e se usa anticoncepcional ou tratamento hormonal.
  • Quando surgiram alterações de humor, sono e sintomas físicos, como ondas de calor.
  • O que ficou mais difícil no cotidiano: trabalhar, conviver, tomar decisões ou cuidar de si.
  • Episódios anteriores, tratamentos atuais e acontecimentos importantes no mesmo período.

As anotações ajudam na conversa, mas você pode procurar atendimento mesmo sem elas.

Você pode começar pelo profissional que já acompanha sua saúde. Psiquiatria e ginecologia podem compartilhar informações e integrar o plano: uma avaliação atenta aos sintomas da transição não substitui a investigação de depressão, e o tratamento do humor não torna dispensável cuidar dos sintomas físicos.1,6

O tratamento é hormonal, psiquiátrico ou os dois?

Depende do que a avaliação identifica. Quando há depressão, psicoterapia e antidepressivos estão entre as opções estabelecidas, escolhidas conforme a gravidade, o histórico e as preferências da pessoa. A terapia cognitivo-comportamental para depressão é uma das abordagens possíveis.1,4

Para sintomas depressivos que não preenchem diagnóstico de depressão e surgem junto de outros sintomas da menopausa, a NICE recomenda considerar terapia hormonal em casos apropriados. A diretriz também considera TCC quando esses sintomas depressivos estão associados a ondas de calor ou suores. Quando existe depressão suspeita ou diagnosticada, recomenda integrar as orientações de menopausa às de tratamento da depressão.6

Assim, terapia hormonal não é uma indicação automática diante de tristeza nessa fase nem substitui universalmente o tratamento da depressão. A escolha exige avaliar benefícios, riscos e contraindicações. Em algumas situações, diferentes cuidados precisam acontecer em paralelo.

Quando não convém adiar a ajuda?

Procure avaliação se o sofrimento está se mantendo ou se tarefas antes habituais passaram a exigir um esforço difícil de sustentar. Perda importante de funcionamento e pensamentos de autoagressão precisam de atenção sem esperar um registro mais completo.4

Se houver risco imediato de se machucar ou dificuldade de permanecer em segurança, procure um serviço de emergência; no Brasil, o SAMU pode ser acionado pelo 192.7

Para a avaliação psiquiátrica na Genuine Mental Health, uma pergunta útil é: “o que mudou no meu humor e na minha capacidade de viver como antes?”. Você pode levar essa dúvida mesmo sem saber quanto dela se relaciona à transição menopausal.

Referências

  1. Maki PM, Kornstein SG, Joffe H, Bromberger JT, Freeman EW, Athappilly G, et al. Guidelines for the evaluation and treatment of perimenopausal depression: summary and recommendations. Menopause. 2018;25(10):1069–1085. doi:10.1097/GME.0000000000001174.
  2. World Health Organization. Menopause [Internet]. 2024 [citado 18 set 2026].
  3. National Health Service. Symptoms of menopause and perimenopause [Internet]. 2026 [citado 18 set 2026].
  4. National Institute of Mental Health. Depression [Internet]. [citado 18 set 2026].
  5. Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. Managing premenstrual syndrome (PMS) [Internet]. 2018 [citado 18 set 2026].
  6. National Institute for Health and Care Excellence. Menopause: identification and management. NG23 [Internet]. [citado 19 set 2026]. Recomendações 1.3.1 e 1.5.21–1.5.23.
  7. Brasil. Ministério da Saúde. SAMU 192 [Internet]. [citado 18 set 2026].

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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