Sintomas negativos da esquizofrenia: falta de iniciativa, isolamento e possibilidades de cuidado
Postado em: 30/09/2026
Sintomas negativos são reduções de funções como iniciativa, interesse, fala e expressão emocional. Na esquizofrenia, podem dificultar atividades e relações mesmo quando delírios ou alucinações estão controlados. O termo “negativo” descreve essa redução; não é um julgamento sobre a pessoa.1
O cuidado começa por entender o que está por trás da dificuldade. Depressão, sedação por medicamentos, sintomas psicóticos ainda ativos e poucas oportunidades de participação podem produzir ou agravar manifestações semelhantes. Identificar essas contribuições muda o tratamento.2
Como esses sintomas podem aparecer
A avaliação considera cinco domínios principais. Os exemplos abaixo são ilustrativos e não formam um teste diagnóstico:1
- Avolição: redução da motivação para iniciar e manter atividades com um objetivo, como realizar uma tarefa cotidiana.
- Anedonia: redução do prazer ou da expectativa de prazer. Pode ser difícil imaginar que uma atividade será agradável, mesmo quando ainda existe prazer em alguns momentos.
- Menor interesse social: diminuição do desejo de contato e participação em relações. Estar sozinho, por si só, não comprova esse sintoma.
- Alogia: redução da quantidade de fala, com respostas breves e pouca elaboração espontânea.
- Redução da expressão afetiva: menos variações no rosto, nos gestos ou no tom de voz ao expressar emoções.
Um rosto pouco expressivo não permite concluir que a pessoa deixou de sentir. A conversa deve incluir o que ela vivencia, além do que familiares e profissionais observam.2
A anedonia também ocorre em outras condições; aqui, ela é apenas uma das dimensões investigadas.
Por que a mesma dificuldade pode ter explicações diferentes
Os sintomas são chamados de primários quando relacionados ao próprio processo do transtorno e de secundários quando decorrem de outros fatores. Essa distinção exige história clínica e acompanhamento; não pode ser feita apenas observando uma pessoa quieta ou com pouca iniciativa.2
O isolamento, por exemplo, pode estar associado a menor interesse social, mas também ao medo causado por ideias de perseguição. Pouca atividade pode acompanhar depressão ou sonolência. Um ambiente sem oportunidades de convivência e ocupação também pode limitar a participação. Mais de um fator pode estar presente.2
Por isso, é útil investigar o início, a persistência e as mudanças desses sintomas: apareceram junto de uma piora do humor, de uma mudança de medicação ou de uma crise psicótica? Essas relações ajudam a formular hipóteses e a acompanhar a resposta ao cuidado.2
Motivação e cognição precisam ser avaliadas separadamente
Dificuldades de atenção, memória e organização pertencem à dimensão cognitiva. Elas podem coexistir com sintomas negativos, mas demandam avaliação própria. Esquecer algo que foi combinado, perder o fio de uma conversa e ter pouca iniciativa para começar uma atividade não descrevem necessariamente o mesmo problema.3
Na consulta, procure descrever situações: a pessoa quer participar, mas não consegue acompanhar? Está sonolenta? Tem receio de sair? Mudou a forma de demonstrar afeto? Essas perguntas servem para ampliar a compreensão, sem presumir uma causa a partir do comportamento.
O tratamento depende do que está contribuindo
Quando há sedação importante, o prescritor deve revisar o tratamento. Se houver depressão ou sintomas psicóticos ativos, essas condições precisam ser abordadas. A investigação de causas secundárias é parte central do cuidado, e qualquer mudança de medicamento deve ser feita com acompanhamento.4
Intervenções psicossociais e reabilitação podem apoiar a retomada de atividades. A orientação da Associação Europeia de Psiquiatria recomenda treino de habilidades sociais para pessoas com sintomas negativos e considera remediação cognitiva especialmente quando também existem dificuldades cognitivas. As intervenções devem corresponder às necessidades e aos objetivos da pessoa.4
As possibilidades de tratamento têm limites. Muitos estudos não separam adequadamente sintomas primários e secundários, e as intervenções avaliadas são variadas. Um benefício observado em grupos heterogêneos não prova a mesma eficácia para sintomas primários persistentes. Além disso, melhorar autonomia e participação é um resultado diferente de reduzir uma pontuação de sintomas negativos.4
Uma revisão de 2025 reafirma que não há um medicamento estabelecido como solução de referência para todo o conjunto desses sintomas. Isso torna ainda mais relevante definir o problema a tratar e observar a resposta, sem prometer uma melhora uniforme.5
Como apoiar a participação no cotidiano
O apoio pode partir de uma atividade que tenha significado para a pessoa. Em um exemplo fictício, um familiar percebe que ela deixou de visitar uma praça de que gostava. Em vez de exigir a retomada imediata, pode perguntar se gostaria de voltar e o que tornaria isso mais viável: companhia, uma visita curta ou outro horário.
O objetivo é facilitar escolhas e participação, respeitando preferências. A quantidade de saídas ou de conversas não deve ser a única medida de melhora, e a família não é responsável por produzir o resultado do tratamento.
Mudanças na capacidade de cuidar de si ou de participar da rotina devem ser levadas à equipe. A avaliação clínica da esquizofrenia permite reunir sintomas, história de tratamento e necessidades de suporte em um plano individualizado.
Referências
- Correll CU, Schooler NR. Negative symptoms in schizophrenia: a review and clinical guide for recognition, assessment, and treatment. Neuropsychiatr Dis Treat. 2020;16:519–534. doi:10.2147/NDT.S225643.
- Galderisi S, Mucci A, Dollfus S, Nordentoft M, Falkai P, Kaiser S, et al. EPA guidance on assessment of negative symptoms in schizophrenia. Eur Psychiatry. 2021;64(1):e23. doi:10.1192/j.eurpsy.2021.11.
- National Institute of Mental Health. Schizophrenia. Consultado em 30 set 2026.
- Galderisi S, Kaiser S, Bitter I, Nordentoft M, Mucci A, Sabé M, et al. EPA guidance on treatment of negative symptoms in schizophrenia. Eur Psychiatry. 2021;64(1):e21. doi:10.1192/j.eurpsy.2021.13.
- Govil P, Kantrowitz JT. Negative Symptoms in Schizophrenia: An Update on Research Assessment and the Current and Upcoming Treatment Landscape. CNS Drugs. 2025;39(3):243–262. doi:10.1007/s40263-024-01151-7.
Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.
Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.
De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.