TARE em adultos: quando a restrição alimentar merece investigação?

Postado em: 26/09/2026

Mulher observa uma maçã com expressão de aversão.

TARE é a sigla para transtorno alimentar restritivo/evitativo. A pessoa limita a quantidade ou a variedade do que come a ponto de comprometer a nutrição, a saúde ou sua participação na vida cotidiana. A dificuldade pode envolver texturas e cheiros, pouco interesse pela comida ou medo de consequências como engasgar e vomitar. O transtorno também pode ocorrer em adultos.1

Ter preferências alimentares, por si só, não significa ter TARE. O que merece investigação é o impacto da restrição: o que deixou de ser possível comer, como o corpo está respondendo e quanto a rotina passou a depender dessas limitações.

Quando a alimentação começa a diminuir as possibilidades

Imagine uma situação fictícia: uma pessoa aceita apenas alguns alimentos preparados de maneiras muito específicas. Consegue manter o peso, mas recusa viagens a trabalho porque não sabe se encontrará algo que consiga comer. Almoços com colegas são evitados, e mudanças no cardápio de casa geram uma preocupação que ocupa boa parte do dia.

Nesse caso, perguntar somente “você emagreceu?” deixaria de fora a principal dificuldade relatada. A avaliação também precisa considerar deficiências nutricionais, dependência de suplementos para atender às necessidades e interferência importante na vida social ou profissional. Esses problemas podem ocorrer em combinações diferentes; baixo peso não é uma exigência universal para o diagnóstico.2

O que importa não é uma lista de alimentos supostamente obrigatórios, mas a possibilidade de se alimentar de modo suficiente e participar da vida sem restrições tão intensas.

A dificuldade pode começar por caminhos diferentes

Algumas pessoas reagem intensamente às características da comida: consistência, cheiro, aparência ou temperatura. Uma pequena mudança no preparo pode tornar um alimento difícil de aceitar.

Outras têm pouco interesse em comer ou percebem pouco apetite. A quantidade ingerida acaba sendo insuficiente, mesmo quando não existe receio de ganhar peso.

Há ainda quem evite a alimentação por medo de engasgar, vomitar ou sentir mal-estar. Essa dificuldade pode estar ligada a experiências anteriores com a comida.3

Essas dificuldades podem se combinar. Saber qual delas está mais presente ajuda a planejar o cuidado. Tratar toda restrição como teimosia ou insistir que a pessoa “coma porque está com fome” não esclarece o que a impede de comer.

Seletividade alimentar e TARE são a mesma coisa?

Não. Há adultos com preferências restritas que conseguem manter uma alimentação suficiente e adaptar suas escolhas a diferentes situações. No TARE, a limitação vem acompanhada de consequências clínicas ou psicossociais relevantes. Contar quantos alimentos alguém aceita não substitui essa avaliação.3

Seletividade também pode ocorrer em pessoas autistas, mas nem toda pessoa autista com seletividade tem TARE. A necessidade de investigar o transtorno depende das repercussões da alimentação, não apenas da presença de outro diagnóstico.3

O que diferencia TARE de outras causas de restrição alimentar?

Na anorexia nervosa, a restrição está ligada ao medo de ganhar peso, a comportamentos que impedem esse ganho e a alterações na relação com o peso ou a forma corporal. No TARE, a dificuldade alimentar não é motivada por tentar emagrecer ou modificar o corpo.2

O artigo sobre anorexia nervosa em adultos aprofunda esse outro quadro.

Também é preciso investigar doenças, efeitos de tratamentos e dificuldades de mastigação ou deglutição. Sentir que a comida fica presa ou ter dor ao engolir não deve ser atribuído automaticamente à ansiedade. Uma condição clínica pode coexistir com restrição que se tornou mais intensa ou persistente do que seria esperado para ela.2

A avaliação também investiga depressão e outros transtornos que podem reduzir o apetite, distinguindo essa consequência de uma dificuldade alimentar adicional que exija cuidado próprio.2

Falta de acesso a alimentos, práticas culturais e restrições médicas justificadas não devem ser confundidas com TARE.2

A avaliação reúne a história alimentar e as necessidades atuais

Vale contar quando a dificuldade começou, o que mudou recentemente e quais refeições se tornaram mais difíceis. Exemplos ajudam: conseguir comer em casa, mas não no trabalho; abandonar grupos inteiros de alimentos; ou precisar de uma preparação tão específica que outra pessoa não consegue reproduzi-la.

Uma breve descrição do que você costuma comer, dos alimentos abandonados e das situações evitadas pode tornar a consulta mais clara. Não é necessário chegar com uma contagem de calorias nem testar alimentos difíceis antes de procurar ajuda.

O cuidado pode envolver avaliação médica, nutricional e de saúde mental, conforme o problema encontrado. É preciso identificar tanto as consequências físicas quanto os fatores que mantêm a restrição. Em alguns casos, recuperar a ingestão suficiente é uma necessidade imediata; em outros, a principal dificuldade é a variedade ou a participação nas refeições fora de casa.1

Como o tratamento pode ajudar um adulto com TARE

Uma abordagem estudada é a terapia cognitivo-comportamental adaptada ao TARE, conhecida pela sigla inglesa CBT-AR. O trabalho é organizado conforme as dificuldades predominantes: sensibilidade às características dos alimentos, pouco interesse em comer ou medo de consequências. Os objetivos incluem melhorar a regularidade e a suficiência da alimentação, ampliar a variedade quando necessário e reduzir a interferência na rotina.4

O contato com alimentos e situações temidos é planejado no tratamento, com preparação e acompanhamento. Isso é diferente de familiares pressionarem alguém a experimentar “só mais uma coisa” durante uma refeição.

Em um estudo aberto com 15 adultos, a CBT-AR foi acompanhada de redução da gravidade do TARE e incorporação de novos alimentos. É um resultado promissor, mas o estudo não tinha grupo de comparação: demonstra viabilidade e sinais de benefício, não uma taxa de sucesso que possa ser prometida a cada pessoa.4

Outra pesquisa avaliou uma intervenção cognitivo-comportamental em 14 adultos com TARE e transtornos da interação intestino-cérebro, condições gastrointestinais que afetam essa comunicação. Houve melhora em medidas de medo relacionado à alimentação e ansiedade ligada aos sintomas digestivos. Era um estudo inicial, sem grupo de comparação, em um ambulatório de gastroenterologia; seus resultados dizem respeito a esse contexto específico.5

Esse segundo estudo também lembra uma questão prática: sintomas digestivos e dificuldades alimentares podem precisar de cuidado coordenado. A presença de um componente psicológico não torna o desconforto físico imaginário.

O que seria uma melhora importante para você?

Para a pessoa do exemplo inicial, conseguir participar de uma viagem sem o receio de não encontrar alimentos que consiga comer seria uma mudança relevante. Para outra, a prioridade pode ser recuperar a ingestão suficiente ou voltar a compartilhar refeições com a família.

Esses objetivos precisam ser discutidos junto das necessidades nutricionais. Melhorar não exige passar a gostar de todos os alimentos; o foco é reduzir as limitações que estão comprometendo a saúde e a vida cotidiana.

Se a dificuldade já interfere nas refeições ou leva a evitar compromissos, uma avaliação de transtornos alimentares na Genuine Mental Health pode ser um ponto de partida. Se a ingestão de alimentos ou líquidos estiver muito reduzida, ou houver deterioração física importante, procure avaliação médica sem adiar esse cuidado.

Referências

  1. National Institute of Mental Health. Eating disorders: what you need to know. Revisado em 2024. Consultado em 25 set. 2026.
  2. Attia E, Walsh BT. Avoidant/restrictive food intake disorder (ARFID). MSD Manual Professional Edition. Atualizado em jan. 2026. Consultado em 25 set. 2026.
  3. County Durham and Darlington NHS Foundation Trust. Selective eating in adults. Seção sobre ARFID. Consultado em 25 set. 2026.
  4. Thomas JJ, Becker KR, Breithaupt L, et al. Cognitive-behavioral therapy for adults with avoidant/restrictive food intake disorder. J Behav Cogn Ther. 2021;31(1):47–55. doi:10.1016/j.jbct.2020.10.004.
  5. Burton Murray H, Weeks I, Becker KR, et al. Development of a brief cognitive-behavioral treatment for avoidant/restrictive food intake disorder in the context of disorders of gut–brain interaction: initial feasibility, acceptability, and clinical outcomes. Int J Eat Disord. 2023;56(3):616–627.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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