TDAH e sono em adultos: o que investigar quando é difícil dormir

Postado em: 09/10/2026

Mulher adulta acordada à noite, sentada na cama e escrevendo em um caderno.

“Não consigo dormir” pode significar coisas diferentes. Há quem só consiga encerrar as tarefas de madrugada, quem reserve tempo para descansar e permaneça acordado na cama, e quem durma bem quando pode deitar e levantar muito mais tarde. Esses padrões podem coexistir. Para entender o sono de um adulto com TDAH, o primeiro passo é descrever os horários e a dificuldade concreta; depois, investigar o que contribui para ela.1,2

Como era o sono antes do tratamento?

Procure reconstruir o padrão anterior: a que horas surgia o sono, quanto tempo levava para adormecer, se havia despertares e como eram as manhãs. Compare dias de trabalho e dias livres. Dormir mais no fim de semana pode ajudar a perceber que faltou tempo de descanso durante a semana, embora isso, isoladamente, não defina a causa.1

Também importa separar o horário de ir para a cama do horário de tentar dormir. Deitar e continuar trabalhando ou usando o celular não equivale a passar todo esse intervalo tentando adormecer. Trabalho em turnos, deslocamentos, cuidados com familiares e outras exigências precisam entrar nessa descrição.

O NICE recomenda acompanhar o padrão de sono, inclusive com um diário quando útil, e avaliar ajustes da prescrição conforme os achados.3

Insônia, pouco tempo para dormir e horário atrasado não são a mesma coisa

Os exemplos abaixo ajudam a organizar as informações para a consulta, mas não permitem estabelecer um diagnóstico.1,4

“Meu dia não deixa tempo para dormir.”

Informação útil sobre horários: Intervalo disponível entre encerrar as atividades e precisar levantar.

Impacto durante o dia: Sonolência, cansaço e dificuldade para cumprir tarefas.

Pergunta para a consulta: Estou tendo oportunidade suficiente de sono?

“Tenho tempo, mas não consigo dormir.”

Informação útil sobre horários: Tempo até adormecer, despertares e duração do problema.

Impacto durante o dia: Como a noite repercute na atenção, no humor e no funcionamento.

Pergunta para a consulta: O padrão sugere insônia ou há outra causa a investigar?

“Durmo melhor se puder deitar e acordar tarde.”

Informação útil sobre horários: Horários habituais, inclusive sem despertador ou compromissos cedo.

Impacto durante o dia: Dificuldade para despertar e funcionar nos horários exigidos.

Pergunta para a consulta: Há um atraso persistente do sono que entra em conflito com a rotina?

No atraso de fase do sono, o período habitual de dormir e acordar fica persistentemente mais tarde do que o necessário para a vida cotidiana. Quando a pessoa pode seguir esse horário, a duração e a qualidade do sono costumam ser melhores. Gostar da noite, por si só, não basta para esse diagnóstico: persistência, prejuízo e outras explicações precisam ser avaliados.2,4

O ritmo circadiano ajuda a explicar por que o sono pode surgir em um horário diferente daquele exigido pela rotina.2,4

O medicamento para TDAH sempre piora o sono?

Não. Os efeitos variam entre as pessoas. Para avaliar uma possível relação, importa saber como era o sono e o que mudou após iniciar ou ajustar o medicamento. Ter insônia antes do tratamento não exclui uma contribuição do remédio para a piora.3,5

Em um estudo de quatro semanas com lisdexanfetamina, a insônia foi mais relatada como efeito adverso do que com placebo. Apesar disso, não houve diferença significativa entre os grupos na mudança da pontuação global de qualidade do sono. O resultado médio, portanto, não exclui a piora em alguns participantes nem indica o uso do estimulante para tratar dificuldades de sono.5

A avaliação dos medicamentos para TDAH em adultos inclui o benefício durante o dia e possíveis efeitos sobre o sono. Discuta com o prescritor o horário em que toma o medicamento e o que percebe à noite. Evite interrupções ou ajustes por conta própria.3

O que ajuda a organizar a investigação?

Um registro simples por alguns dias pode ser suficiente para começar: horário de tentar dormir, estimativa de quando adormeceu, despertares, horário de levantar e cochilos. Acrescente como se sentiu durante o dia e os horários de medicamentos, café, energéticos, álcool ou outras substâncias. Não é preciso acertar os minutos nem produzir um diário perfeito.1

Ronco intenso, pausas respiratórias observadas por outra pessoa, despertar com falta de ar ou sonolência importante justificam investigar apneia do sono, mesmo em quem já tem diagnóstico de TDAH.6

Se o TDAH ainda está em avaliação, dificuldades de concentração em uma fase de sono ruim não bastam para confirmar o diagnóstico. A história desde o desenvolvimento, os prejuízos em diferentes situações e as condições coexistentes continuam fazendo parte da avaliação. Da mesma forma, melhorar o sono não exclui automaticamente um TDAH bem estabelecido.3

O tratamento depende da causa da dificuldade para dormir

Quando falta oportunidade para dormir, o plano precisa enfrentar o que está encurtando o descanso. Na insônia crônica, a terapia cognitivo-comportamental para insônia, ou TCC-I, costuma ser a primeira opção de tratamento. Ela trabalha comportamentos e preocupações que mantêm a dificuldade para dormir. Orientações sobre hábitos podem participar do cuidado, mas não substituem esse tratamento quando indicado.7

Quando a questão é circadiana, o momento das intervenções importa. A diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono apresenta uma recomendação fraca a favor de melatonina em horário planejado para adultos com atraso de fase. É uma recomendação para uma condição específica, não para toda pessoa com TDAH ou dificuldade para dormir.4

Um pequeno ensaio em adultos com TDAH e atraso de fase mostrou que a melatonina pode adiantar um marcador do ritmo biológico, mas os resultados sobre sintomas de TDAH foram limitados e transitórios. Isso não a estabelece como tratamento rotineiro do transtorno. A escolha e o horário de uso dependem da avaliação do sono.8

Na análise do sono desse mesmo ensaio, o adiantamento do marcador biológico não se acompanhou de dormir mais cedo ou de melhora global do sono.9

Na consulta de retorno, conte o que mudou nos horários, no tempo para adormecer, nos despertares e na disposição durante o dia. Esse relato ajuda a avaliar o efeito das medidas adotadas e a decidir o que ainda precisa ser investigado.

Referências

  1. National Heart, Lung, and Blood Institute. Insomnia: diagnosis [Internet]. 2022. [citado em 30 set 2026].
  2. National Heart, Lung, and Blood Institute. Circadian rhythm disorders: types [Internet]. [citado em 30 set 2026].
  3. National Institute for Health and Care Excellence. Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management. NG87. Recommendations, seções 1.3 e 1.8.17 [Internet]. [citado em 30 set 2026].
  4. Auger RR, Burgess HJ, Emens JS, Deriy LV, Thomas SM, Sharkey KM. Clinical practice guideline for the treatment of intrinsic circadian rhythm sleep-wake disorders: advanced sleep-wake phase disorder (ASWPD), delayed sleep-wake phase disorder (DSWPD), non-24-hour sleep-wake rhythm disorder (N24SWD), and irregular sleep-wake rhythm disorder (ISWRD). An update for 2015. J Clin Sleep Med. 2015;11(10):1199-1236. doi:10.5664/jcsm.5100.
  5. Adler LA, Goodman D, Weisler R, Hamdani M, Roth T. Effect of lisdexamfetamine dimesylate on sleep in adults with attention-deficit/hyperactivity disorder. Behav Brain Funct. 2009;5:34. doi:10.1186/1744-9081-5-34.
  6. Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Apneia do sono [Internet]. [citado em 30 set 2026].
  7. National Heart, Lung, and Blood Institute. Insomnia: treatment [Internet]. 2022. [citado em 30 set 2026].
  8. van Andel E, Bijlenga D, Vogel SWN, Beekman ATF, Kooij JJS. Effects of chronotherapy on circadian rhythm and ADHD symptoms in adults with attention-deficit/hyperactivity disorder and delayed sleep phase syndrome: a randomized clinical trial. Chronobiol Int. 2021;38(2):260-269. doi:10.1080/07420528.2020.1835943.
  9. van Andel E, Bijlenga D, Vogel SWN, Beekman ATF, Kooij JJS. Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Delayed Sleep Phase Syndrome in Adults: A Randomized Clinical Trial on the Effects of Chronotherapy on Sleep. J Biol Rhythms. 2022;37(6):673-689. doi:10.1177/07487304221124659.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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