Terapia interpessoal na depressão: como funciona na prática?

Postado em: 15/10/2026

Mulher conversa com uma terapeuta, que gesticula com uma caneta e mantém um caderno no colo.

Considere o seguinte caso ilustrativo. Depois que a mãe adoeceu, Clara passou a acompanhá-la às consultas e a organizar sua rotina. Aos poucos, deixou de encontrar os amigos, acumulou tarefas e começou a se sentir desanimada e sem interesse pelas coisas. Recebeu o diagnóstico de depressão. Quando a irmã pergunta como pode ajudar, Clara responde que está tudo resolvido, embora se sinta sozinha para lidar com as responsabilidades.

Na terapia interpessoal, essa conversa poderia se tornar parte do tratamento. O terapeuta procuraria entender o que mudou na vida de Clara, o que ela esperava da irmã e o que tornou difícil aceitar a oferta. A terapia interpessoal, também chamada de IPT, é uma psicoterapia para depressão que trabalha a relação entre os sintomas e as dificuldades atuais na vida interpessoal. Perdas, conflitos e mudanças de papel podem ser o foco das sessões.1

Isso não significa atribuir a depressão de Clara apenas à doença da mãe ou à divisão de tarefas. O que interessa à abordagem é como essas experiências e os sintomas se influenciam: a sobrecarga pode aumentar o sofrimento, enquanto o desânimo torna mais difícil procurar companhia, explicar uma necessidade ou negociar uma responsabilidade.2

Uma dificuldade que possa ser trabalhada

No começo da terapia, paciente e profissional examinam o período em que os sintomas apareceram ou pioraram, as relações importantes e as mudanças recentes. A partir dessa história, escolhem um foco para o tratamento.2

No caso de Clara, um foco possível seria a mudança de papel: ela continua sendo filha, mas passou a assumir tarefas que antes cabiam à mãe. Também pode haver um conflito com a irmã, caso as duas tenham expectativas diferentes sobre a divisão dessas tarefas. A escolha depende do que a avaliação revelar e do que for mais relevante trabalhar naquele momento.

Em outras histórias, o ponto central pode ser a morte de alguém próximo, uma separação, a aposentadoria ou dificuldades persistentes para iniciar e manter vínculos.1,2 Quando há uma perda, a avaliação também distingue o luto de um episódio depressivo.

Ter um foco ajuda a dar continuidade às sessões. Uma discussão recente, por exemplo, pode ser examinada pelo que revela sobre as expectativas de cada pessoa e pela relação com a piora do humor.1

O que acontece com uma conversa dentro da sessão

Na sessão, o terapeuta pode pedir que a pessoa conte em detalhes uma interação recente: o que foi dito, como se sentiu e o que gostaria que tivesse acontecido. Também ajuda a considerar outras formas de se comunicar e de responder à situação.2

Voltando ao exemplo, dizer a Clara que ela precisa “pedir mais ajuda” deixaria várias questões em aberto. Qual tarefa ela gostaria de dividir? A irmã sabe que as consultas médicas têm ocupado suas manhãs? Clara receia parecer incapaz, criar uma discussão ou ouvir uma recusa? E há, de fato, alguém disponível para assumir parte dessas tarefas?

Essas perguntas podem levar a uma proposta concreta: conversar sobre quem acompanhará a mãe em uma consulta, em vez de tentar resolver toda a divisão de responsabilidades de uma só vez. Na sessão, Clara poderia encontrar uma forma de explicar o que precisa e se preparar para diferentes respostas.

O que acontecer depois volta a ser assunto da terapia. Se a irmã não puder ajudar, interessa compreender a resposta, os sentimentos que ela provocou e as alternativas disponíveis. Se Clara não conseguir conversar, o terapeuta pode examinar com ela o que dificultou a tentativa.2

Na IPT individual, esse trabalho pode ocorrer entre paciente e terapeuta; falar sobre uma relação não transforma o atendimento em terapia de casal nem exige que a outra pessoa participe. Também existem formatos grupais, com organização própria.1,2

Como saber se a terapia está ajudando

Uma conversa que correu bem pode ser um avanço, mas o tratamento tem um objetivo mais amplo: melhorar a depressão e o funcionamento cotidiano. Por isso, o acompanhamento inclui os sintomas, as atividades que a pessoa consegue retomar e as dificuldades escolhidas como foco. Sintomas que persistem ou uma resposta insuficiente precisam ser discutidos para rever o plano.1

A IPT está entre as psicoterapias recomendadas para depressão pela diretriz NICE. Pode integrar um tratamento que inclua medicamentos, conforme a gravidade, a história clínica e as preferências do paciente. É uma abordagem com foco e duração planejados. Para o formato individual, a diretriz descreve geralmente oito a 16 sessões nos quadros menos graves e 16 nos mais graves. O plano pode precisar de mais sessões conforme a evolução e outras dificuldades presentes.1

Ao comparar opções, vale conhecer também o funcionamento da terapia cognitivo-comportamental para depressão. As duas constam nas recomendações de tratamento, e a escolha considera, entre outros fatores, a avaliação clínica, a preferência da pessoa e o acesso a um profissional com formação na abordagem.1

Outra distinção é a terapia interpessoal e do ritmo social, ou IPSRT. Ela combina princípios interpessoais com o trabalho de regularidade das rotinas e foi desenvolvida para o transtorno bipolar. Esse componente é explicado no artigo sobre ritmo circadiano, depressão e bipolaridade.3

Se você estiver considerando IPT, pode perguntar ao profissional qual é sua formação nessa modalidade, como será escolhido o foco inicial e de que forma vocês acompanharão os resultados.

Referências

  1. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222 [Internet]. London: NICE; 2022 [citado 15 out 2026]. Disponível em: NICE — Recommendations.
  2. World Health Organization; Columbia University. Group interpersonal therapy (IPT) for depression: WHO generic field-trial version 1.0 [Internet]. Geneva: World Health Organization; 2016 [citado 15 out 2026]. WHO/MSD/MER/16.4. Disponível em: WHO — Group interpersonal therapy for depression.
  3. Frank E, Swartz HA, Kupfer DJ. Interpersonal and social rhythm therapy: managing the chaos of bipolar disorder. Biol Psychiatry. 2000;48(6):593–604. doi: 10.1016/S0006-3223(00)00969-0.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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