Memória e concentração no transtorno bipolar: por que as dificuldades podem continuar?
Postado em: 30/09/2026
O humor melhorou, mas acompanhar uma reunião ainda exige esforço, a leitura não rende ou os compromissos se confundem. Dificuldades de memória, atenção e organização podem persistir no transtorno bipolar mesmo fora dos episódios de humor. Elas variam bastante entre as pessoas e não significam, por si só, uma deterioração progressiva.1
Essas dificuldades merecem investigação: atribuir todo esquecimento à bipolaridade pode deixar de lado outros problemas que precisam de cuidado.2
A história da dificuldade ajuda a orientar a avaliação
É útil reconstruir quando o problema começou: já existia antes do episódio, apareceu durante a depressão ou ficou mais evidente após uma mudança no tratamento? A consulta considera sintomas de humor ainda presentes, sono, medicamentos, uso de álcool ou outras substâncias e condições concomitantes.2
A revisão dos medicamentos considera possíveis efeitos cognitivos e benefícios no controle do transtorno. Suspeitas de efeitos adversos devem ser discutidas com o prescritor, sem interrupção por conta própria.2
Quando ainda há sintomas depressivos, o tratamento da depressão bipolar continua relevante. Já dificuldades persistentes após a melhora do humor podem demandar uma avaliação mais específica.
Queixa, teste e vida cotidiana mostram aspectos diferentes
“Minha memória está ruim” é uma informação importante, mas ainda ampla. Para compreender a dificuldade, convém distinguir três perspectivas:1,2
| Perspectiva | O que ela ajuda a entender | Exemplo ilustrativo |
|---|---|---|
| Queixa percebida | Dificuldade e esforço relatados | “Preciso reler o parágrafo.” |
| Desempenho cognitivo | Resultado em tarefas padronizadas | Aprender e recordar informações |
| Funcionamento cotidiano | Autonomia e participação | Cumprir compromissos |
Essas medidas podem não coincidir. Uma queixa intensa não determina, sozinha, o resultado de um teste; uma melhora em testes também não garante retomada das atividades. O contexto da pessoa precisa entrar na interpretação.1
Quando os testes podem ajudar
A triagem usa instrumentos breves para identificar dificuldades. A avaliação neuropsicológica investiga habilidades comprometidas e preservadas com maior profundidade. Não é necessária uma bateria completa para cada esquecimento.2
O consenso da Sociedade Internacional de Transtornos Bipolares recomenda avaliar a cognição, quando possível, durante remissão parcial ou completa do humor. O encaminhamento para avaliação neuropsicológica pode ser discutido quando é necessário compreender melhor quais habilidades estão comprometidas e como essas dificuldades interferem nas atividades, para orientar o cuidado.2
Apoios práticos e programas estruturados
Uma vez identificados fatores clínicos relevantes, o plano pode combinar seu tratamento com adaptações para as tarefas mais difíceis. Como exemplos de apoio cotidiano, uma agenda única pode reunir compromissos; instruções por escrito podem facilitar a retomada de uma tarefa; e dividir um trabalho em etapas permite definir o próximo passo. São exemplos de adaptação cotidiana; os resultados dos programas estruturados descritos a seguir não podem ser atribuídos automaticamente a essas estratégias.
Há também intervenções estruturadas, com objetivos distintos:
Remediação cognitiva trabalha habilidades como memória, atenção e planejamento por meio de treino e estratégias. Uma meta-análise de sete ensaios independentes, com 586 participantes, encontrou pequenos benefícios em alguns domínios cognitivos, mas não um efeito significativo agregado sobre o funcionamento cotidiano. Melhorar o desempenho em uma tarefa cognitiva não assegura, portanto, melhora equivalente no trabalho ou na autonomia.3
Uma revisão de 2026 examinou seis estudos que selecionaram participantes com dificuldades cognitivas e encontrou resultados inconsistentes. As diferenças entre amostras, intervenções e medidas de resultado ainda limitam conclusões sobre quem se beneficia e em quais condições. Exercícios de aplicativos, isoladamente, não podem ser equiparados a esse conjunto de programas.1
Remediação funcional busca facilitar a aplicação de estratégias nas demandas da vida diária. Em um ensaio com 239 pessoas com transtorno bipolar em eutimia — sem episódio de humor ativo —, um programa de 21 semanas melhorou o funcionamento em comparação ao cuidado habitual. Porém, não demonstrou superioridade à psicoeducação, que oferece informações e estratégias para lidar com o transtorno.4
Esse resultado apoia a discussão de intervenções voltadas à recuperação funcional, sem prometer benefício individual nem tratar remediação cognitiva e funcional como sinônimos.
Como perceber se o cuidado está ajudando
Escolha com a equipe uma dificuldade que faça diferença para você. Em vez de uma meta vaga como “melhorar a memória”, o objetivo pode ser acompanhar as decisões de uma reunião e conseguir retomá-las depois, ou organizar os compromissos sem perder horários.
No retorno, leve exemplos do que ficou mais fácil, do que continua exigindo ajuda e de quanto esforço a tarefa demanda. Para quem tem bipolar II, o texto sobre acompanhamento entre consultas complementa essa conversa com a organização do cuidado longitudinal.
Uma mudança súbita merece outro encaminhamento: confusão que começa de repente, com desorientação ou dificuldade incomum para pensar e falar, exige avaliação médica imediata. Não deve ser presumida como parte habitual do transtorno bipolar.5
Referências
- Cartes B, Solari T, Vöhringer P, Nieto RR. Cognitive remediation in people with bipolar disorder and cognitive dysfunction: a systematic review. J Psychiatry Neurosci. 2026;51:1–14. doi:10.1139/jpn-2025-0229.
- Miskowiak KW, Burdick KE, Martinez-Aran A, Bonnin CM, Bowie CR, Carvalho AF, et al. Assessing and addressing cognitive impairment in bipolar disorder: the International Society for Bipolar Disorders Targeting Cognition Task Force recommendations for clinicians. Bipolar Disord. 2018;20(3):184–194. doi:10.1111/bdi.12595.
- Samamé C, Durante P, Cattaneo B, Aprahamian I, Strejilevich S. Efficacy of cognitive remediation in bipolar disorder: systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Psychol Med. 2023;53(12):5361–5373. doi:10.1017/S0033291723001897.
- Torrent C, Bonnin CM, Martínez-Arán A, Valle J, Amann BL, González-Pinto A, et al. Efficacy of functional remediation in bipolar disorder: a multicenter randomized controlled study. Am J Psychiatry. 2013;170(8):852–859. doi:10.1176/appi.ajp.2012.12070971.
- National Health Service. Sudden confusion (delirium). Consultado em 30 set 2026.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.