Transtorno do jogo: quando as apostas se tornam um problema e como funciona o tratamento?
Postado em: 20/10/2026
Apostar de novo para tentar recuperar o dinheiro perdido, esconder gastos e prometer parar sem conseguir são motivos para procurar ajuda. O problema não é definido apenas pelo valor apostado ou pelo número de vezes em que a pessoa joga. Também importa o que acontece quando ela tenta interromper e o que as apostas estão comprometendo em sua vida.1
O transtorno do jogo, muitas vezes chamado de “vício em apostas”, envolve perda de controle, prioridade crescente do jogo sobre outras atividades e continuidade apesar dos prejuízos. Há tratamento, e a psicoterapia tem papel central. Mesmo quem não preenche todos os critérios de um diagnóstico pode precisar de ajuda: deixar de pagar uma conta essencial para apostar já é um prejuízo relevante.2
O que levar à primeira avaliação
Não é preciso chegar com todos os gastos calculados. Comece pelo que consegue contar: quando as apostas aumentaram, quais tentativas de parar não funcionaram e em que momentos a vontade fica mais difícil de conter. Sono, humor, uso de álcool ou outras substâncias, medicamentos e consequências nas relações e no trabalho também ajudam a entender o quadro.1
Uma anotação simples pode ajudar a organizar o relato:
- Antes da aposta: o que aconteceu e o que a pessoa esperava conseguir ao apostar.
- Durante: se conseguiu respeitar a decisão de parar ou voltou a apostar para recuperar uma perda.
- Depois: quanto tempo e dinheiro foram comprometidos, como se sentiu e o que deixou de fazer.
Uma mudança súbita também merece atenção. Se o aumento das apostas ocorre junto de sono muito reduzido sem cansaço, aceleração e outros comportamentos fora do padrão habitual, é necessário investigar um possível episódio de mania. Perder dinheiro, por si só, não indica transtorno bipolar.1 Impulsos novos após começar ou mudar um medicamento devem ser comunicados ao prescritor; alguns fármacos podem afetar o controle de impulsos. O médico deve avaliar essa relação antes de mudar a prescrição.3
Como a psicoterapia trabalha a vontade de apostar
A terapia cognitivo-comportamental, ou TCC, examina as situações que levam às apostas, as expectativas sobre o resultado e as respostas possíveis quando surge a vontade de jogar. Inclui prática entre as sessões e preparação para situações em que o comportamento pode voltar.4
Considere esta situação hipotética: depois de perder dinheiro, alguém pensa que precisa fazer mais uma aposta para recuperar o prejuízo. Na terapia, essa previsão pode ser comparada ao que ocorreu nas tentativas anteriores. O trabalho também examina a urgência de agir e ensaia uma resposta diferente — por exemplo, sair da plataforma e acionar um apoio previamente combinado. Esse exemplo ilustra uma parte do tratamento; o plano depende das dificuldades identificadas ao longo das sessões.4
Em um ensaio com 231 participantes, foram comparados encaminhamento aos Jogadores Anônimos, o mesmo encaminhamento acompanhado de um manual de TCC e encaminhamento mais oito sessões individuais de TCC. As intervenções com TCC reduziram mais as apostas durante o tratamento do que o encaminhamento isolado. Alguns benefícios se mantiveram nas avaliações posteriores, que chegaram a 12 meses. O atendimento individual também foi superior ao manual em alguns desfechos.5
Quem reconhece os prejuízos, mas ainda hesita em mudar, pode se beneficiar da entrevista motivacional: ela ajuda a examinar essa ambivalência e definir objetivos. A diretriz NICE recomenda TCC para reduzir a gravidade e a frequência do jogo, em formato individual ou em grupo conforme a avaliação.3
Quando um medicamento pode entrar no plano
O tratamento de depressão, ansiedade ou outra condição associada pode ser necessário, mas as apostas também precisam de avaliação e acompanhamento próprios.6
A naltrexona é uma das medicações estudadas. Em um ensaio de 18 semanas com 77 adultos, ela reduziu mais a intensidade dos impulsos e do comportamento de apostar do que o placebo. A melhora nessas medidas não significa que todos tenham deixado de apostar.7
A diretriz britânica NICE considera a naltrexona quando um curso adequado de psicoterapia não trouxe o resultado esperado ou houve recaídas repetidas apesar dele. Sua introdução e acompanhamento devem ficar a cargo de um médico com experiência nessa indicação. A psicoterapia pode ser mantida em combinação com a naltrexona; o medicamento não ocupa o lugar de primeira escolha. A decisão também exige avaliar condições clínicas e outros remédios utilizados. O uso de opioides — uma classe de medicamentos que inclui alguns analgésicos — precisa ser informado antes de se considerar a naltrexona.6
Reduzir o acesso às apostas e combinar apoio
Enquanto o tratamento se organiza, algumas medidas diminuem a exposição e a facilidade de apostar: bloquear notificações e publicidade, retirar aplicativos e utilizar recursos de bloqueio ou autoexclusão. Na autoexclusão, a pessoa solicita a restrição de seu acesso às apostas. Essas barreiras precisam acompanhar o tratamento, pois não resolvem sozinhas a perda de controle.2,8
Familiares podem ajudar a procurar atendimento e participar de acordos de proteção, com consentimento e limites claros. Também podem precisar de apoio para lidar com dívidas e desgaste.3 A vergonha dificulta a procura por tratamento. Apoiar alguém não significa humilhá-lo nem assumir sozinho a responsabilidade por impedir todas as apostas.2
Se a pessoa voltar a apostar, comunicar a recaída cedo permite rever as barreiras e o tratamento. Não é necessário esperar que as perdas se acumulem novamente.3
Pelo SUS, a Unidade Básica de Saúde (UBS) é uma porta de entrada para acolhimento e avaliação inicial. Quando necessário, a equipe pode encaminhar para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou outro serviço da rede. Ao procurar o serviço, você pode começar explicando que as apostas estão trazendo prejuízos e que está difícil interrompê-las.8
Intenção de se ferir, ameaça de violência ou impossibilidade de permanecer em segurança exigem atendimento de urgência. Nessas situações, procure uma UPA ou pronto-socorro; não espere uma consulta de rotina.1,3
Referências
- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas. Linha de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. Brasília: Ministério da Saúde; 2025. 69 p. Documento integral.
- World Health Organization. Gambling. Geneva: WHO; 2024 Dec 2. Página institucional.
- National Institute for Health and Care Excellence. Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. London: NICE; 2025 Jan 28. Recomendações.
- National Institute for Health and Care Excellence. Psychological and psychosocial treatment of harmful gambling. Evidence review F. In: Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. London: NICE; 2025. Revisão de evidências.
- Petry NM, Ammerman Y, Bohl J, Doersch A, Gay H, Kadden R, et al. Cognitive-behavioral therapy for pathological gamblers. J Consult Clin Psychol. 2006;74(3):555–567. doi:10.1037/0022-006X.74.3.555.
- National Institute for Health and Care Excellence. Pharmacological treatment of harmful gambling. Evidence review E. In: Gambling-related harms: identification, assessment and management. NICE guideline NG248. London: NICE; 2025. Revisão de evidências.
- Grant JE, Kim SW, Hartman BK. A double-blind, placebo-controlled study of the opiate antagonist naltrexone in the treatment of pathological gambling urges. J Clin Psychiatry. 2008;69(5):783–789. doi:10.4088/jcp.v69n0511.
- Brasil. Ministério da Saúde. Campanha do Ministério da Saúde orienta sobre riscos das apostas online e atendimento disponível no SUS. Brasília: Ministério da Saúde; 2026 out 1. Orientação sobre atendimento no SUS.
Imagem: Anna Shvets / Pexels.
Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.
Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.
De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.