Lítio no transtorno bipolar: benefícios, exames e acompanhamento

Postado em: 13/09/2026

Frasco de carbonato de lítio com comprimidos sobre bancada de laboratório

O lítio continua entre os principais tratamentos do transtorno bipolar por uma razão: seus benefícios vão além do controle de uma crise. Ele ajuda a tratar a mania e tem um papel particularmente importante na prevenção de novos episódios, favorecendo a estabilidade do humor ao longo do tempo.1,2

A escolha leva em conta a fase do transtorno, os tratamentos anteriores, a saúde geral e as preferências do paciente. Consultas e exames periódicos ajudam a ajustar o tratamento e a aproveitar seus benefícios com segurança.

Quais benefícios o lítio pode oferecer?

Um dos grandes benefícios do lítio é a prevenção de recaídas. No tratamento de manutenção, ele reduz o risco de novos episódios, com proteção especialmente consistente contra a mania e benefício também na prevenção de episódios depressivos. Para a mania aguda, está entre as opções de primeira linha em diretrizes internacionais. Também pode fazer parte do tratamento da depressão bipolar, conforme o histórico e a resposta de cada pessoa.1,2

O lítio também pode ajudar a reduzir a ocorrência de pensamentos suicidas. Em um estudo de acompanhamento com 296 pessoas com transtorno bipolar ou depressão, publicado em 2025, a inclusão do lítio no tratamento foi associada a menos episódios de ideação suicida ao longo de um ano, em comparação com o ano anterior.3

O artigo depressão bipolar: o que muda no tratamento? ajuda a situar o lítio entre as outras opções usadas nessa fase.

Por que é necessário medir o lítio no sangue?

A litemia mede a concentração de lítio no sangue e ajuda o médico a encontrar um bom equilíbrio entre benefício e tolerabilidade. Como a distância entre a faixa de tratamento e os níveis tóxicos é relativamente estreita, esse exame faz parte do acompanhamento. O resultado é interpretado junto com os sintomas, os efeitos adversos e a evolução clínica.2,4

Em geral, a amostra é colhida cerca de 12 horas após a última dose. Manter esse intervalo permite comparar os resultados ao longo do tratamento. Anote o horário da última tomada e siga a orientação da equipe sobre a coleta e a próxima dose.4

Como referência, o NICE recomenda inicialmente uma faixa de 0,6 a 0,8 mmol/L para adultos que usam lítio pela primeira vez. Em situações selecionadas, como recaída durante o tratamento ou sintomas residuais com prejuízo funcional, pode ser considerada uma faixa de 0,8 a 1,0 mmol/L por determinado período. O médico define a faixa e os ajustes de dose conforme a resposta, a tolerabilidade e as condições clínicas de cada pessoa.2

Depois do início ou de uma mudança de dose, a litemia costuma ser repetida até estabilizar. No tratamento estável, o controle geralmente ocorre a cada três a seis meses e pode ser mais frequente em idosos, na gravidez, diante de alterações renais ou da tireoide, uso de medicamentos que interagem com o lítio, controle inadequado dos sintomas ou mudanças importantes na ingestão de líquidos e sal.2,4

Quais exames são feitos antes de iniciar?

Antes do tratamento, a avaliação costuma incluir:

  • função renal e eletrólitos;
  • função da tireoide;
  • cálcio no sangue;
  • hemograma;
  • peso ou índice de massa corporal;
  • avaliação de gravidez, quando aplicável;
  • eletrocardiograma quando há doença cardiovascular ou fatores de risco.

Esses resultados mostram como está a saúde antes do início do tratamento e servem de comparação para os exames seguintes. Também ajudam a planejar a frequência das consultas e dos controles.2,4

O que continua sendo acompanhado?

Além da litemia, o seguimento inclui função renal, tireoide, cálcio e peso. A conversa clínica também deve abordar sede, aumento da urina, tremor, desconforto gastrointestinal, sonolência, pele e eventuais mudanças cognitivas.

Se um exame mostrar alguma alteração, o médico avalia sua intensidade, a evolução ao longo do tempo e o benefício que o lítio vem trazendo. Conforme a situação, é possível acompanhar mais de perto, ajustar o tratamento ou considerar outra opção.2,4

Calor, desidratação e doenças podem alterar o nível?

Sim. Vômitos, diarreia, febre, suor intenso e calor excessivo podem causar perda de líquidos e elevar a concentração do lítio. Mudanças importantes no consumo de sal também alteram esse equilíbrio. Manter uma hidratação regular e conversar com a equipe antes de mudar bastante a alimentação são cuidados simples que ajudam no dia a dia.2,4

Se uma doença aguda causar perda de líquidos, entre em contato rapidamente com o profissional responsável. Não compense uma dose esquecida tomando duas doses juntas e não altere o esquema por conta própria.

Quais medicamentos podem interagir com o lítio?

Alguns anti-inflamatórios, diuréticos e medicamentos para pressão arterial podem elevar a litemia. Isso inclui produtos vendidos sem receita. As diretrizes recomendam não usar anti-inflamatórios não esteroides por conta própria durante o tratamento com lítio.2,4

Avise sobre o uso de lítio sempre que outro profissional prescrever um medicamento. Antes de iniciar analgésico, anti-inflamatório, suplemento ou fitoterápico, confirme se há interação e se será necessário repetir a litemia.

Quais sinais podem indicar toxicidade?

Diarreia ou vômitos intensos, tremor que piora ou se torna grosseiro, fraqueza, sonolência fora do habitual, fala enrolada, visão turva, confusão, desequilíbrio ou falta de coordenação podem indicar toxicidade. Ela é mais frequente em concentrações a partir de aproximadamente 1,5 mmol/L, mas esses sintomas também precisam de avaliação quando a litemia parece estar na faixa de tratamento.4

Na suspeita de toxicidade, não tome a próxima dose e procure avaliação médica urgente. A equipe poderá medir a litemia e avaliar os eletrólitos e a função renal. Leve a embalagem do medicamento, os horários das doses e a lista dos outros remédios usados.4

E se houver plano de gravidez ou amamentação?

Planejar antes da gestação permite escolher como preservar a estabilidade do humor e cuidar da saúde da mãe e do bebê. Dependendo da resposta anterior e do risco de recaída, o lítio pode ser mantido, ajustado ou substituído. Seu uso na gravidez envolve uma avaliação conjunta de benefícios e riscos e um acompanhamento mais frequente.5

Descobrir uma gravidez não é motivo para interromper o lítio de forma abrupta. A decisão deve ser revista rapidamente com o psiquiatra e o obstetra, porque tanto a exposição ao medicamento quanto uma recaída materna podem trazer riscos.

Na amamentação, o NICE orienta evitá-la durante o uso de lítio. O Specialist Pharmacy Service admite essa possibilidade em situações selecionadas, com bebês saudáveis e nascidos a termo, sob supervisão especializada e monitoramento rigoroso do bebê. Conversar sobre isso ainda durante a gestação ajuda a organizar o plano de alimentação e acompanhamento após o parto.5,6

Posso parar quando estiver bem?

Sentir-se bem pode ser justamente um sinal de que o tratamento está funcionando. Se houver indicação de interromper o lítio, a retirada deve ser planejada e gradual. O NICE recomenda reduzir a dose ao longo de pelo menos quatro semanas e, de preferência, por até três meses, com atenção a sinais de mania e depressão durante a retirada e nos meses seguintes.2

Na Genuine, a avaliação psiquiátrica pode revisar benefícios, exames, efeitos adversos e dificuldades práticas para que o tratamento seja seguro e sustentável no cotidiano.

Referências

  1. Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD guidelines for the treatment of bipolar disorder: summary and a 2023 update of evidence. Focus. 2023;21(4):344–353. DOI: 10.1176/appi.focus.20230009.
  2. National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management — CG185. Atualizado em setembro de 2025.
  3. Pompili M, Berardelli I, Sarubbi S, et al. New episodes and suicidal risks in bipolar and major depressive disorder patients during versus before long-term treatment with lithium. Acta Psychiatr Scand. 2025;152(4):290–298. DOI: 10.1111/acps.70002.
  4. Specialist Pharmacy Service. Lithium monitoring. Atualizado em dezembro de 2024.
  5. National Institute for Health and Care Excellence. Antenatal and postnatal mental health: clinical management and service guidance — CG192. Atualizado em fevereiro de 2020.
  6. Specialist Pharmacy Service. Treating bipolar disorder during breastfeeding. Publicado em outubro de 2023; atualização de links em abril de 2024.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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