TPM ou TDPM? O que observar no humor ao longo do ciclo

Postado em: 18/09/2026

Ciclo menstrual representado ao redor do útero, com intensificação emocional na fase pré-menstrual

Para diferenciar TPM de transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM), é preciso observar quando os sintomas aparecem, quanto interferem na vida e como você se sente no restante do mês. A TPM também pode causar prejuízo importante; o TDPM tem critérios específicos, com destaque para os sintomas emocionais. Uma piora antes da menstruação, sozinha, não define o diagnóstico.1,2,3

A pergunta que ajuda a começar é: os sintomas aparecem apenas nessa fase ou estão presentes durante o mês e ficam mais intensos antes de menstruar?

Qual é a diferença entre TPM e TDPM?

Inchaço, sensibilidade nas mamas, cansaço e mudanças emocionais podem ocorrer antes da menstruação. Quando são leves e pouco interferem na rotina, não significam necessariamente um transtorno. Na síndrome pré-menstrual (SPM), chamada de TPM no uso cotidiano, o desconforto é recorrente e pode comprometer atividades e relações. Os sintomas melhoram com a chegada da menstruação ou nos dias seguintes.1,2

No TDPM, destacam-se irritabilidade intensa, mudanças bruscas de humor, tristeza acentuada ou ansiedade. Na maioria dos ciclos ao longo do último ano, devem ocorrer pelo menos cinco sintomas de um conjunto definido; ao menos um deles precisa ser labilidade afetiva, irritabilidade, humor deprimido ou ansiedade. O quadro causa sofrimento ou prejuízo significativo e também pode incluir alterações de sono, apetite, energia e concentração.3

Os sintomas aparecem na semana anterior à menstruação, melhoram poucos dias após seu início e ficam mínimos ou ausentes na semana seguinte. A confirmação requer registros diários por pelo menos dois ciclos sintomáticos, embora a avaliação e uma hipótese provisória possam ocorrer antes disso. Também é preciso verificar se medicamentos, outras condições clínicas ou a piora de outro transtorno explicam melhor o quadro.3

A contagem de sintomas é apenas uma parte da avaliação, e não preencher os critérios de TDPM não torna o sofrimento recorrente menos relevante.

E quando a depressão ou a ansiedade pioram antes da menstruação?

Se tristeza, ansiedade ou irritabilidade já estão presentes em outras fases, pode haver uma exacerbação pré-menstrual: um quadro existente se intensifica nesse período. Nesse caso, é necessário investigar o que acontece durante o mês inteiro, não apenas nos dias mais difíceis.4

Um exemplo fictício: Ana registra irritabilidade e choro nos dias anteriores à menstruação, seguidos de um período em que volta a se sentir bem. Beatriz anota desânimo durante quase todo o mês, com piora antes de menstruar. No primeiro caso, o intervalo de melhora aponta para um padrão cíclico; no segundo, a persistência dos sintomas levanta a possibilidade de exacerbação pré-menstrual de outro quadro. Nenhum dos registros, isoladamente, fecha um diagnóstico.

Possibilidade Padrão ao longo do ciclo Repercussão e foco da avaliação
TPM Sintomas antes da menstruação, com melhora depois. Incômodos físicos e/ou emocionais que podem prejudicar a rotina; investigar intensidade e repetição do padrão.
TDPM Padrão pré-menstrual bem delimitado, com melhora após o início da menstruação e sintomas mínimos ou ausentes na semana seguinte. Sofrimento ou prejuízo significativo, com sintomas emocionais centrais e critérios específicos.
Exacerbação pré-menstrual Sintomas presentes também fora dessa fase, mas mais intensos antes de menstruar. Investigar o quadro de base e a parcela de piora associada ao ciclo.

O quadro organiza possibilidades, não funciona como teste diagnóstico.2,3,4

Quando sintomas de depressão persistem fora do período pré-menstrual, não convém atribuir tudo à TPM. Também vale lembrar que oscilações de humor não são, por si só, bipolaridade. Um outro diagnóstico não exclui automaticamente TDPM, mas é preciso demonstrar que o padrão não corresponde apenas à piora desse quadro.3

Um exame hormonal confirma TDPM?

Não. Um estudo experimental mostrou resposta diferente às variações hormonais habituais em pessoas com sintomas pré-menstruais, mesmo sem evidência de disfunção ovariana. Por isso, um resultado hormonal dentro da faixa de referência não descarta TDPM.5

O diagnóstico depende da história clínica e do acompanhamento dos sintomas. Exames podem ser indicados para investigar outras causas, mas não existe um exame de sangue que, sozinho, confirme o transtorno.4

Como fazer um diário de sintomas

Registre o que sente todos os dias, por pelo menos dois ciclos menstruais consecutivos, incluindo os dias em que está bem. Anotar apenas durante a piora não permite enxergar com clareza se há um intervalo de melhora. O profissional pode orientar o uso de um instrumento padronizado de registro.1,2

Para começar, use um caderno ou uma nota no celular e registre:

  • Data e sangramento: quando a menstruação começou e terminou.
  • Humor e outros sintomas: tristeza, irritabilidade, ansiedade, energia e desconfortos físicos.
  • Sono: como dormiu e se houve uma mudança em relação ao habitual.
  • Impacto concreto: dificuldade para trabalhar, estudar, cuidar de si ou conviver.
  • Contexto: acontecimentos estressantes e mudanças de medicamentos ou anticoncepcionais.

Em vez de escrever apenas “dia ruim”, uma anotação útil seria: “Irritação forte, discuti no trabalho, dormi cinco horas; sem sangramento”. Nos dias bons, registre isso também. Esse é um exemplo de registro útil, não uma escala para calcular um diagnóstico.

Leve o diário à consulta mesmo que esteja incompleto. Não suspenda tratamentos para tentar obter um registro “mais fiel”.

Quando procurar avaliação e quais cuidados podem ajudar?

Procure atendimento quando a piora se repete, causa sofrimento ou começa a comprometer o trabalho, os estudos ou os relacionamentos. A avaliação pode envolver ginecologista e psiquiatra, conforme os sintomas e o histórico. O diário ajuda, mas não é uma condição para marcar a consulta.1,2

Conforme o diagnóstico, o cuidado pode incluir terapia cognitivo-comportamental, determinados antidepressivos e intervenções hormonais selecionadas. Exercício e outras estratégias de autocuidado podem complementar o tratamento. A escolha depende das necessidades e das condições de saúde de cada pessoa; não há uma mesma conduta para toda piora pré-menstrual.2,6

Se o sofrimento for intenso ou houver dificuldade importante para manter atividades básicas, busque avaliação sem esperar o fim dos dois ciclos. Pensamentos de suicídio exigem ajuda imediata; se houver risco de se machucar, procure um serviço de emergência.7

Na primeira consulta com o psiquiatra, vale levar duas informações simples: quando a piora começa e como você fica depois que a menstruação passa. Esse contraste, acompanhado de exemplos do impacto na rotina, ajuda a descrever o problema com mais precisão do que dizer apenas “minha TPM é muito forte”.

Referências

  1. Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. Managing premenstrual syndrome (PMS) [Internet]. London: RCOG; 2018 [citado 18 set 2026].
  2. Nevatte T, O’Brien PM, Bäckström T, Brown C, Dennerstein L, Endicott J, et al. ISPMD consensus on the management of premenstrual disorders. Arch Womens Ment Health. 2013;16(4):279–291.
  3. Reid RL. Premenstrual dysphoric disorder (formerly premenstrual syndrome). In: Feingold KR, Adler RA, Ahmed SF, et al., editors. Endotext [Internet]. South Dartmouth (MA): MDText.com; 2017 [citado 18 set 2026].
  4. O’Brien PM, Bäckström T, Brown C, Dennerstein L, Endicott J, Epperson CN, et al. Towards a consensus on diagnostic criteria, measurement and trial design of the premenstrual disorders: the ISPMD Montreal consensus. Arch Womens Ment Health. 2011;14(1):13–21.
  5. Schmidt PJ, Nieman LK, Danaceau MA, Adams LF, Rubinow DR. Differential behavioral effects of gonadal steroids in women with and in those without premenstrual syndrome. N Engl J Med. 1998;338(4):209–216. doi:10.1056/NEJM199801223380401.
  6. ACOG Committee on Clinical Practice Guidelines–Gynecology. Management of premenstrual disorders: ACOG Clinical Practice Guideline No. 7. Obstet Gynecol. 2023;142(6):1516–1533. doi:10.1097/AOG.0000000000005426.
  7. Prasad D, Wollenhaupt-Aguiar B, Kidd KN, de Azevedo Cardoso T, Frey BN. Suicidal risk in women with premenstrual syndrome and premenstrual dysphoric disorder: a systematic review and meta-analysis. J Womens Health (Larchmt). 2021;30(12):1693–1707. doi:10.1089/jwh.2021.0185.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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