Depressão pode afetar a memória? Quando investigar os esquecimentos

Postado em: 21/09/2026

Mulher segurando um livro e olhando para longe durante a leitura

Sim. A depressão pode vir acompanhada de dificuldade para lembrar informações, se concentrar e tomar decisões. Essas queixas fazem parte das manifestações possíveis do quadro, mas não permitem concluir, por si só, que a depressão é a causa de um esquecimento.1

Para entender o que está acontecendo, importa saber quando a mudança começou, como evoluiu e quanto interfere na rotina. Esquecimentos persistentes ou que prejudicam atividades habituais merecem avaliação, mesmo quando a pessoa já tem um diagnóstico de depressão.2

Memória, atenção e concentração: por que a queixa pode parecer a mesma?

Na consulta, “minha memória está ruim” pode descrever experiências diferentes: perder o fio de uma conversa, precisar reler uma página ou não lembrar de um compromisso. Atenção, manutenção do foco e memória são funções relacionadas, mas não idênticas. Por isso, vale descrever o que aconteceu, além de dar um nome à dificuldade.

Considere um exemplo fictício: uma pessoa lê um e-mail enquanto está muito preocupada, percebe que não acompanhou o conteúdo e, depois, não consegue contar o que leu. Essa experiência é diferente de ter compreendido uma informação e não conseguir recuperá-la mais tarde. O exemplo ajuda a explicar a queixa, mas não permite identificar sua causa nem separar, em casa, um problema de atenção de um problema de memória.

A depressão pode afetar mais de uma dessas funções. Um estudo com adultos em episódio depressivo identificou alterações em diferentes domínios cognitivos, incluindo atenção e memória verbal. Isso reforça por que a investigação não deve se limitar à palavra “esquecimento”.3

Algumas pessoas percebem essas dificuldades junto de outros sintomas de depressão. A presença de tristeza, perda de interesse ou cansaço ajuda a compor a história, mas não elimina a necessidade de ouvir a queixa de memória com atenção.

O que observar antes da consulta

Você não precisa testar a própria memória todos os dias nem levar um relatório extenso. Algumas perguntas ajudam a organizar o relato:

  • Quando começou? Foi uma mudança recente ou uma dificuldade antiga? Apareceu antes, durante ou depois da piora do humor?
  • Como vem evoluindo? O problema varia entre os dias, permanece parecido ou está ficando mais frequente?
  • O que mudou na rotina? Houve compromissos perdidos, tarefas refeitas ou necessidade de ajuda em algo que antes era feito com autonomia?
  • O que mais mudou nesse período? Como estão o sono e a saúde em geral? Houve início ou alteração de medicamentos, ou mudança no consumo de álcool e outras substâncias?

A avaliação considera a história de saúde e os tratamentos em uso. Dependendo do caso, pode incluir exame clínico, avaliação de funções cognitivas ou encaminhamento para outro profissional.4

Leve a lista dos medicamentos e informe quando houve mudanças. Essa informação serve para investigar possíveis contribuições ao problema, não para concluir que um remédio é responsável. Não interrompa um tratamento por conta própria para “testar a memória”.5

Se alguém próximo percebeu mudanças que você tem dificuldade para descrever, sua participação pode ajudar, desde que você concorde. Combine antes o que gostaria que essa pessoa relatasse. Um exemplo com contexto costuma ser mais informativo do que afirmações gerais como “anda esquecendo tudo”.2

Por que não atribuir todo esquecimento à depressão

Sono insuficiente ou de má qualidade, ansiedade, efeitos de medicamentos e condições clínicas também podem acompanhar problemas de memória. Mais de um fator pode estar presente. Por isso, mencionar problemas de sono e mudanças de saúde faz parte da investigação, mesmo quando a principal preocupação é o humor.4

Procure avaliação quando a dificuldade persiste, progride ou começa a comprometer a autonomia. Em pessoas mais velhas, mudanças como se perder em trajetos conhecidos ou ter dificuldade crescente para administrar tarefas habituais não devem ser descartadas como “apenas a idade” ou “apenas depressão”. Também não confirmam, sozinhas, uma doença neurodegenerativa.4

A avaliação pode começar com o médico que já acompanha você ou na atenção primária. Um diagnóstico prévio de depressão é uma informação importante, mas não torna a psiquiatria a única porta de entrada para investigar a memória. Conforme a história e os achados, outros profissionais podem participar.2

Não é necessário escolher sozinho entre “depressão” e “Alzheimer” antes de procurar ajuda. Queixas parecidas podem ter explicações diferentes, e o plano de investigação depende da avaliação. Evite usar comparações encontradas na internet para excluir uma causa ou solicitar uma lista fixa de exames.

A memória melhora quando a depressão é tratada?

Pode haver melhora, mas não é possível prometer que todas as dificuldades desapareçam no mesmo ritmo que os sintomas de humor. O acompanhamento precisa considerar também o que a pessoa voltou a conseguir fazer e quais problemas permanecem.3,4

No estudo iSPOT-D, adultos de 18 a 65 anos foram avaliados antes e depois de oito semanas de tratamento com um de três antidepressivos. Após esse período, o desempenho em testes de algumas funções, como atenção e memória verbal, continuou abaixo do observado no grupo sem depressão. Isso ocorreu inclusive entre participantes em remissão, isto é, com sintomas depressivos reduzidos a níveis mínimos ou ausentes. O estudo examinou um período curto e tratamentos específicos; não demonstra que essas alterações sejam irreversíveis nem que todos os tratamentos tenham o mesmo efeito sobre a cognição.3

Se o humor melhorou, mas você continua tendo dificuldade para acompanhar uma conversa ou executar uma tarefa habitual, vale levar isso ao retorno. Não é uma queixa secundária que precise ser ignorada porque “a depressão já passou”. O profissional poderá reavaliar a evolução e decidir se há outros fatores a investigar.

Quando a mudança é súbita, a orientação é outra

Uma pessoa que, de repente, fica confusa, desorientada ou com dificuldade incomum para compreender e se comunicar precisa de atendimento imediato. Isso é diferente de perceber esquecimentos graduais ao longo das semanas e não deve ser atribuído automaticamente à depressão.6

Procure um serviço de emergência ou acione o SAMU pelo 192. A pessoa confusa não deve dirigir para buscar atendimento; se estiver com ela, permaneça por perto enquanto a ajuda é organizada, desde que seja seguro.6,7

Fora de uma mudança súbita, anote dois ou três episódios recentes, com o que aconteceu e quando começou, e leve-os à avaliação. Se as dificuldades vieram junto de alterações de humor, veja também quando buscar avaliação psiquiátrica. Esses exemplos ajudam a definir o que precisa ser investigado, sem exigir que você chegue à consulta com uma explicação pronta.

Referências

  1. National Institute of Mental Health. Depression. 2024. Acesso em: 19 set. 2026.
  2. National Health Service. Memory loss (amnesia). 2023. Acesso em: 19 set. 2026.
  3. Shilyansky C, Williams LM, Gyurak A, Harris A, Usherwood T, Etkin A. Effect of antidepressant treatment on cognitive impairments associated with depression: a randomised longitudinal study. Lancet Psychiatry. 2016;3(5):425–35. doi:10.1016/S2215-0366(16)00012-2.
  4. National Institute on Aging. Memory problems, forgetfulness, and aging. Acesso em: 19 set. 2026.
  5. National Institute on Aging. Cognitive health and older adults. 2024. Acesso em: 19 set. 2026.
  6. National Health Service. Sudden confusion (delirium). 2024. Acesso em: 19 set. 2026.
  7. Brasil. Ministério da Saúde. SAMU 192. Acesso em: 19 set. 2026.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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