Apneia do sono e saúde mental: quando cansaço e falta de concentração merecem investigação
Postado em: 22/09/2026
Passar a noite na cama e ainda assim lutar contra o sono durante o dia merece atenção. Quando isso vem acompanhado de ronco frequente, engasgos ou pausas na respiração percebidas por outra pessoa, vale conversar com o médico sobre apneia do sono. Ela pode causar sonolência, cansaço e dificuldade de concentração — queixas que também aparecem em consultas de saúde mental.1
A investigação não se resume a contar horas dormidas. É preciso ent
ender o que acontece durante a noite e como isso repercute no dia seguinte.
O problema pode estar na respiração durante o sono
Na apneia obstrutiva do sono, a passagem de ar se estreita ou fecha repetidamente enquanto a pessoa dorme. A respiração fica prejudicada e o sono pode ser interrompido muitas vezes. Nem sempre esses despertares são lembrados pela manhã. Este texto trata dessa forma de apneia em adultos; existem outros tipos, com avaliação própria.2
Às vezes, quem percebe primeiro é alguém que dorme próximo: ouve o ronco, nota um intervalo sem respiração e depois um engasgo. Outras pessoas procuram ajuda principalmente pelo que sentem acordadas. A ausência de alguém que observe a noite não deve impedir a avaliação das queixas.1
“Estou cansado” pode descrever experiências diferentes
Na consulta, vale explicar o que essa palavra significa no seu caso:
| Experiência | Como pode aparecer no relato |
|---|---|
| Cansaço ou fadiga | “Tenho pouca energia para fazer as coisas, mas não necessariamente cochilo.” |
| Sonolência | “Tenho dificuldade de permanecer acordado e acabo cochilando sem querer.” |
| Dificuldade para dormir | “Demoro a pegar no sono ou acordo e não consigo voltar a dormir.” |
Essas descrições ajudam a organizar a conversa; não separam diagnósticos automaticamente. Apneia pode vir acompanhada de cansaço, sonolência ou insônia, e mais de uma dessas experiências pode estar presente.1
Nem toda pessoa com apneia apresenta sonolência durante o dia; sua ausência, isoladamente, não exclui a condição.3
Se a principal queixa é iniciar ou manter o sono, o artigo sobre insônia e quando procurar ajuda aprofunda essa dificuldade. Mesmo nesse caso, ronco e pausas respiratórias merecem ser relatados.
Onde entram o humor e a concentração?
Apneia pode repercutir na concentração e acompanhar mudanças de humor. Isso justifica olhar para o sono quando essas dificuldades persistem, inclusive em quem já está em tratamento psiquiátrico. Não significa que um diagnóstico anterior de depressão ou ansiedade estivesse necessariamente errado.12
Imagine esta situação hipotética: durante o acompanhamento da depressão, uma pessoa relata que voltou a se interessar pelas atividades, mas continua cochilando nas reuniões. Ao conversar sobre o sono, conta que seu parceiro percebe pausas na respiração. Essa informação acrescenta uma hipótese a investigar; não confirma apneia nem explica, sozinha, toda a história do humor.
A investigação do sono e o cuidado da saúde mental podem prosseguir juntos.
Como a suspeita é investigada
A conversa pode começar com o médico que já acompanha você ou na atenção primária. A avaliação reúne a história do sono e da saúde geral e, quando necessário, envolve um profissional de medicina do sono.4
Questionários ajudam a identificar quem merece investigação, mas não confirmam apneia isoladamente. A escolha do exame depende da avaliação clínica: a polissonografia é o exame de referência; testes domiciliares podem ser apropriados para determinados adultos, mas não para todos.3
Na investigação de suspeita de apneia, a American Academy of Sleep Medicine recomenda polissonografia quando o teste domiciliar é negativo, inconclusivo ou tecnicamente inadequado.3
Tratar a apneia pode melhorar o humor?
O tratamento busca controlar as alterações respiratórias e suas consequências. Uma das opções é o PAP, que envia ar sob pressão por uma máscara para ajudar a manter a passagem de ar aberta. O CPAP é uma modalidade desse tratamento. Outras opções, como dispositivos orais, podem ser indicadas conforme as características do caso.5
Uma publicação reuniu uma análise de participantes do estudo SAVE e uma revisão de 20 ensaios clínicos. Na síntese dos ensaios, o CPAP trouxe uma melhora média pequena dos sintomas depressivos; não houve benefício claro para sintomas de ansiedade.6
A análise do SAVE envolveu pessoas com apneia moderada ou grave e doença cardiovascular. Além disso, a pesquisa avaliou escores de sintomas, não a cura de depressão maior. Portanto, tratar a apneia pode contribuir para o cuidado, sem substituir automaticamente o tratamento de uma condição psiquiátrica coexistente.6
Na prática, vale acompanhar separadamente as mudanças: a sonolência diminuiu? Ficou mais fácil sustentar a atenção? Como está o humor? Melhorar em uma dessas áreas não torna dispensável avaliar o que continua difícil.
O que levar à consulta
Não é necessário chegar com uma hipótese fechada. Leve exemplos de quando a sonolência acontece, horários aproximados de sono, a lista de medicamentos e exames anteriores, se houver. Relatos de pausas respiratórias ou engasgos percebidos por alguém próximo também são úteis.4
Se você está cochilando involuntariamente ao dirigir, não dirija com sonolência e procure avaliação. Esse é um motivo para antecipar o cuidado, não para tentar resistir ao sono no volante.2
Para quem já acompanha sintomas de humor ou ansiedade, falar do sono faz parte da consulta. Uma avaliação psiquiátrica na Genuine Mental Health pode ajudar a integrar essas informações ao cuidado de saúde mental e orientar encaminhamentos quando necessários.
Referências
1. National Heart, Lung, and Blood Institute. Sleep Apnea — Symptoms. Atualizado em 9 jan. 2025. Acesso em: 22 set. 2026.
2. NHS. Sleep apnoea. Acesso em: 22 set. 2026.
3. Kapur VK, Auckley DH, Chowdhuri S, et al. Clinical practice guideline for diagnostic testing for adult obstructive sleep apnea: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. J Clin Sleep Med. 2017;13(3):479–504. doi:10.5664/jcsm.6506.
4. National Heart, Lung, and Blood Institute. Sleep Apnea — Diagnosis. Atualizado em 9 jan. 2025. Acesso em: 22 set. 2026.
5. National Heart, Lung, and Blood Institute. Sleep Apnea — Treatment. Atualizado em 9 jan. 2025. Acesso em: 22 set. 2026.
6. Zheng D, Xu Y, You S, et al. Effects of continuous positive airway pressure on depression and anxiety symptoms in patients with obstructive sleep apnoea: results from the sleep apnoea cardiovascular Endpoint randomised trial and meta-analysis. EClinicalMedicine. 2019;11:89–96. doi:10.1016/j.eclinm.2019.05.012.
Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.
Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.
De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.