Quetiapina no transtorno bipolar: benefícios e acompanhamento

Postado em: 26/09/2026

Comprimidos de quetiapina sobre uma superfície.

A quetiapina é um medicamento usado para tratar episódios de depressão e de mania no transtorno bipolar e, em situações indicadas, para ajudar a prevenir novos episódios. A finalidade da prescrição muda conforme a fase do quadro, a resposta anterior e a tolerabilidade.1

Embora pertença à classe dos antipsicóticos, sua indicação não significa que a pessoa tenha psicose. Essa classe também participa do tratamento do humor. Por isso, uma pergunta útil ao receber a prescrição é: “Qual é o objetivo da quetiapina no meu tratamento agora?”.2

O benefício esperado depende da fase

A mesma medicação pode ter funções diferentes ao longo do acompanhamento:

Situação Objetivo do tratamento
Episódio de depressão bipolar Reduzir sintomas depressivos e favorecer a recuperação das atividades.
Episódio de mania Tratar a elevação ou irritabilidade intensa do humor acompanhada de aumento de energia e atividade.
Manutenção, após a melhora Ajudar a prevenir novos episódios, considerando o que funcionou e os efeitos indesejados.

Esses usos estão contemplados na bula brasileira consultada. Na manutenção, ela inclui uso isolado e, para o transtorno bipolar tipo I, combinação com lítio ou valproato. Isso descreve possibilidades de tratamento, não uma indicação de combinar medicamentos para todas as pessoas.1

Na depressão bipolar tipo II, a quetiapina figura como tratamento de primeira linha nas recomendações CANMAT/ISBD. “Primeira linha” significa que é uma opção prioritária a considerar, e não que seja obrigatória ou a melhor escolha para qualquer paciente.3

O tipo de transtorno bipolar e a fase atual precisam ficar claros: mania faz parte do tipo I; no tipo II, há história de hipomania e depressão. As decisões para cada situação não são intercambiáveis.2

Na depressão bipolar, o que se espera melhorar?

O benefício antidepressivo foi avaliado em estudos específicos. No BOLDER II, 509 participantes com depressão bipolar dos tipos I ou II foram distribuídos para receber quetiapina ou placebo durante oito semanas. Os grupos que receberam quetiapina apresentaram maior redução dos sintomas depressivos.4

O acompanhamento procura traduzir essa melhora para a vida: houve redução da tristeza e do desânimo? O interesse pelas atividades começou a voltar? Ficou mais fácil se concentrar, cumprir compromissos e cuidar de si? Esses são exemplos de aspectos a discutir, junto da avaliação clínica da depressão.

Os resultados do estudo não estabelecem uma data em que cada pessoa se sentirá melhor. O retorno permite comparar a evolução dos sintomas com os efeitos do medicamento e decidir como continuar. O artigo sobre tratamento da depressão bipolar situa a quetiapina entre as demais possibilidades de cuidado.

Dormir mais não é a única medida de melhora

Sonolência é um efeito frequente da quetiapina. Recuperar o sono pode ser importante durante um episódio de humor, mas sentir-se sedado não demonstra, por si só, que a depressão ou a mania estejam controladas.1,2

Vale observar como ficam as manhãs e o restante do dia: é possível acordar, manter a atenção e realizar as atividades? Tontura, lentidão ou sonolência que atrapalham a rotina devem ser relatadas. Se houver sonolência ou tontura, não dirija nem opere máquinas.5

Numa situação hipotética, alguém percebe menos desânimo e volta a se interessar pelo trabalho, mas passa a ter muita dificuldade para despertar e nota aumento do apetite. Dizer apenas “o remédio funcionou” deixaria de fora os incômodos; dizer “só me faz dormir” apagaria a melhora. Levar as duas observações ajuda o médico a avaliar o resultado completo, sem antecipar qual ajuste seria adequado.

O sono também pode mudar por causa do próprio transtorno. A diferença entre insônia e redução da necessidade de dormir na bipolaridade é relevante quando alguém dorme menos e, ainda assim, fica mais ativo ou acelerado.

Por que acompanhar peso e exames

A quetiapina pode causar ganho de peso e alterações de glicose e gorduras no sangue. Algumas dessas mudanças são percebidas apenas nas medidas e nos exames, por isso o acompanhamento físico integra o tratamento.1

Antes de iniciar um antipsicótico e durante seu uso, a diretriz NICE orienta acompanhar peso ou índice de massa corporal, pulso, pressão arterial, glicemia ou hemoglobina glicada e perfil de colesterol e triglicérides. O eletrocardiograma é indicado em determinados contextos, como fatores de risco cardiovascular; não é uma exigência idêntica para todos.6

Ter medidas anteriores ajuda a identificar mudanças. No retorno, vale contar se aumentou o apetite ou se algum efeito está dificultando manter a prescrição. Os resultados dos exames também entram nessa avaliação.6

Esse acompanhamento oferece uma oportunidade de agir sobre problemas de tolerabilidade. A pessoa não precisa escolher sozinha entre suportar todo incômodo e abandonar o tratamento.

O que levar ao retorno

Um relato breve pode organizar a consulta em três pontos:

  • O que melhorou: sintomas do episódio e atividades que começaram a ser retomadas.
  • O que incomodou: horário e impacto da sonolência, tontura, mudanças de apetite ou outros efeitos.
  • O que está sendo usado: medicamentos, suplementos, apresentação da quetiapina e padrão real de consumo de álcool.

Essa última informação importa porque a quetiapina pode interagir com outras substâncias. O álcool, por exemplo, pode aumentar a sonolência. Alterações de dose, horário ou combinação devem ser discutidas com quem prescreveu.5

Se for necessário interromper o tratamento

Uma retirada planejada costuma ser gradual, orientada pelo médico. A interrupção abrupta pode provocar sintomas como insônia, náusea e vômitos, além de exigir atenção ao risco de retorno dos episódios de humor. O ritmo de redução depende da situação clínica; não há um esquema de desmame único para todos.1,6

Sinais que exigem atendimento imediato

Durante o uso, procure atendimento imediato se houver febre alta com rigidez e confusão, dificuldade para respirar ou inchaço de língua ou garganta. São manifestações possíveis de reações graves; não espere pelo retorno programado ou por uma retirada gradual para buscar atendimento.1,5

Na consulta em psiquiatria na Genuine Mental Health, a pergunta inicial pode ser retomada: qual benefício estamos buscando agora, o que já mudou e quais efeitos precisam de atenção? É essa comparação, ao longo do acompanhamento, que orienta a continuidade do tratamento.

Referências

  1. Cristália Produtos Químicos Farmacêuticos Ltda. Quetipin — hemifumarato de quetiapina: comprimidos revestidos. Bula profissional. Registro MS 1.0298.0380. Acesso em 25 set. 2026.
  2. National Institute of Mental Health. Bipolar disorder. Revisado em 2025. Acesso em 25 set. 2026.
  3. Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD guidelines for the treatment of bipolar disorder: summary and a 2023 update of evidence. Focus. 2023;21(4):344–353. doi:10.1176/appi.focus.20230009.
  4. Thase ME, Macfadden W, Weisler RH, et al. Efficacy of quetiapine monotherapy in bipolar I and II depression: a double-blind, placebo-controlled study (the BOLDER II study). J Clin Psychopharmacol. 2006;26(6):600–609. doi:10.1097/01.jcp.0000248603.76231.b7.
  5. National Health Service. Quetiapine. Acesso em 25 set. 2026.
  6. National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management — CG185. Atualizado em 2 set. 2025. Recomendações 1.10.5–1.10.8 e 1.10.13. Acesso em 25 set. 2026.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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