Cannabis e transtorno bipolar: efeitos no humor e riscos para o tratamento
Postado em: 26/09/2026
Para quem tem transtorno bipolar, o uso de cannabis merece atenção mesmo quando parece ajudar a relaxar. Os estudos o associam a uma evolução menos favorável do transtorno, e a CANMAT, rede de especialistas em transtornos do humor, recomenda evitar o uso. Essa orientação não deve ser confundida com a pesquisa sobre CBD purificado, que investiga outra intervenção.1
A diferença importa porque “maconha”, “óleo de cannabis” e “canabidiol” aparecem muitas vezes como se fossem o mesmo produto. Antes de discutir efeitos no humor, é preciso saber do que se está falando.
Cannabis, THC e CBD não são termos intercambiáveis
Cannabis é a planta da qual se obtêm produtos com diferentes composições. Dois de seus componentes mais conhecidos são o tetraidrocanabinol, o THC, principal responsável pelos efeitos intoxicantes, e o canabidiol, o CBD, que tem propriedades diferentes.2
Um produto pode conter THC, CBD ou uma combinação dos dois. A expressão “óleo de cannabis”, sozinha, não informa essa composição. Da mesma forma, um estudo que utiliza CBD purificado não testa automaticamente os efeitos de fumar cannabis ou de usar um extrato com THC.2
Na consulta, portanto, vale identificar o produto e sua composição quando essas informações estiverem disponíveis. Isso é mais esclarecedor do que registrar apenas “uso algo natural”. Ser de origem vegetal não informa, por si só, o efeito sobre a bipolaridade nem a compatibilidade com o tratamento.
O que os estudos encontraram sobre a evolução do humor
Uma revisão da CANMAT reuniu pesquisas sobre cannabis, transtorno bipolar e depressão. Na bipolaridade, o uso esteve associado a maior gravidade de sintomas maníacos, depressivos e psicóticos, além de pior funcionamento. A maior parte desses dados é observacional: mostra relações entre uso e evolução clínica, mas não prova que a cannabis tenha causado um episódio específico de uma pessoa.1
Um estudo ajuda a tornar essa diferença concreta. Pesquisadores acompanharam, por dois anos, 1.922 adultos que haviam apresentado um episódio maníaco ou misto. Os participantes que continuaram usando cannabis tiveram menor probabilidade de recuperação sustentada, mais novos episódios e maior prejuízo no trabalho, em comparação com quem nunca havia usado.3
Entre os que interromperam o uso no início do acompanhamento, não foram detectadas diferenças significativas em relação aos que nunca usaram nos desfechos analisados. Como não houve sorteio para continuar ou parar, isso não permite prometer que interromper o uso produzirá o mesmo resultado em qualquer paciente. O achado reforça a importância de discutir o consumo como parte do cuidado.3
Esse conjunto de evidências orienta uma conduta prudente: quem tem transtorno bipolar deve conversar sobre o uso mesmo que ainda não tenha percebido uma piora evidente. Não é necessário esperar uma crise para que o assunto entre no acompanhamento.
“Mas eu sinto que me ajuda”
Esse relato merece ser ouvido. Relaxar depois do uso é uma experiência percebida naquele momento; saber se o humor está mais estável exige olhar um período maior.
O benefício procurado pode ser diminuir a tensão, conseguir dormir ou se desligar de pensamentos difíceis. Esse alívio merece ser considerado junto do que acontece depois com os sintomas e a vida cotidiana.
A ordem dos acontecimentos também importa: o uso pode ter começado quando o humor já estava mudando. Reconstruir essa sequência ajuda a avaliar a participação da substância e outras necessidades de cuidado.
O canabidiol foi estudado para depressão bipolar?
Sim. Um ensaio brasileiro, publicado no volume de 2024 do Canadian Journal of Psychiatry, comparou CBD purificado com placebo, acrescentados ao tratamento de 35 adultos com depressão bipolar. O resultado principal foi a mudança dos sintomas depressivos em oito semanas.4
Os dois grupos melhoraram, mas não houve diferença estatisticamente significativa entre CBD e placebo nesse resultado. Uma análise exploratória do subgrupo que não havia respondido nas primeiras duas semanas encontrou um sinal favorável ao CBD, o que justifica investigação adicional — não confirma a eficácia do tratamento.4
Nas avaliações realizadas durante 12 semanas, não houve diferença significativa entre os grupos nos efeitos adversos medidos nem na intensidade dos sintomas maníacos. A amostra pequena e o período curto não estabelecem segurança em longo prazo.4
O estudo utilizou CBD purificado, sem THC, e os participantes não podiam usar cannabis durante a pesquisa. Portanto, seus resultados não podem ser usados como justificativa para o uso recreativo da planta. O CBD ainda não é um tratamento estabelecido para a depressão bipolar com base nessa evidência.4
Como levar o assunto à consulta
Você não precisa chegar com uma conclusão sobre a causa de cada sintoma. Pode começar dizendo o que usa, o que busca com o uso e o que tem observado. Se souber, leve também a composição do produto.
Alguns pontos ajudam a organizar essa conversa:
- Frequência de uso e mudanças recentes no padrão de consumo.
- Benefício procurado e efeitos desagradáveis percebidos.
- Relação temporal com sono, energia, irritabilidade ou desânimo, e repercussões no trabalho e nas relações.
- Outros produtos, bebidas alcoólicas e medicamentos em uso, incluindo mudanças recentes no tratamento.
- Tentativas anteriores de reduzir e o que tornou isso difícil.
Se reduzir o consumo parece difícil, esse dado merece espaço no plano de cuidado. Intervenções voltadas à motivação e às dificuldades concretas do uso podem ajudar a construir mudanças com acompanhamento.5
A revisão do tratamento também deve considerar o conjunto de medicamentos e produtos utilizados. O CBD pode interagir com medicamentos; trocar ou suspender a prescrição para acomodar seu uso não resolve essa avaliação.2
Mudanças que justificam antecipar a avaliação
Dormir muito menos sem sentir cansaço, ficar marcadamente mais acelerado ou impulsivo, ou apresentar alterações importantes da percepção exige contato mais rápido com a equipe. Esses sinais precisam ser avaliados no contexto do humor e do uso de substâncias. Se houver perda de contato com a realidade ou risco imediato, procure um serviço de urgência.6
Fora dessas situações, o tema pode ser discutido com clareza no acompanhamento regular. Uma boa pergunta para levar é: “O alívio que procuro está vindo acompanhado de melhora na minha vida, ou de novas dificuldades que precisamos tratar?”
Referências
- Tourjman SV, Buck G, Jutras-Aswad D, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) task force report: a systematic review and recommendations of cannabis use in bipolar disorder and major depressive disorder. Can J Psychiatry. 2023;68(5):299–311. doi:10.1177/07067437221099769.
- National Center for Complementary and Integrative Health. Cannabis (marijuana) and cannabinoids: what you need to know. Consultado em 25 set. 2026.
- Zorrilla I, Aguado J, Haro JM, et al. Cannabis and bipolar disorder: does quitting cannabis use during manic/mixed episode improve clinical/functional outcomes?. Acta Psychiatr Scand. 2015;131(2):100–110.
- Pinto JV, Crippa JAS, Ceresér KM, et al. Cannabidiol as an adjunctive treatment for acute bipolar depression: a pilot study. Can J Psychiatry. 2024;69(4):242–251.
- National Institute for Health and Care Excellence. Drug misuse in over 16s: psychosocial interventions. Clinical guideline CG51. 2007. Seção sobre intervenções breves. Consultado em 25 set. 2026.
- National Institute of Mental Health. Bipolar disorder. Revisado em 2025. Consultado em 25 set. 2026.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.