Eletroconvulsoterapia na depressão: indicações, procedimento e efeitos na memória
Postado em: 28/09/2026
A eletroconvulsoterapia, ou ECT, é um tratamento para quadros como a depressão grave. Um estímulo elétrico controlado induz uma breve atividade convulsiva no cérebro, enquanto a pessoa está sob anestesia geral e recebe um relaxante muscular. A sessão é acompanhada por uma equipe médica, com monitorização durante o procedimento.¹
Quando essa opção aparece na consulta, duas dúvidas costumam vir juntas: por que considerá-la agora e o que pode acontecer com a memória. Ambas precisam fazer parte da decisão. Conhecer o procedimento ajuda, mas a indicação só ganha sentido quando relacionada à história e às necessidades de quem vai recebê-lo.
Por que a ECT pode entrar no plano de tratamento
A ECT pode produzir melhora importante da depressão, inclusive quando outros tratamentos falharam.¹
Pode ser considerada quando outros tratamentos não ajudaram suficientemente, quando houve boa resposta a ela no passado ou quando a gravidade da depressão exige uma resposta rápida. Um exemplo é o quadro em que a pessoa deixa de comer ou beber adequadamente, com risco para a saúde.²
Por isso, ela não é necessariamente uma alternativa que só pode ser discutida depois de anos de tentativas. A urgência, as experiências anteriores e as preferências da pessoa influenciam essa escolha. A pergunta é o que torna a ECT uma opção pertinente naquele momento, em comparação com os outros caminhos disponíveis.²
Se a proposta surgiu por resposta insuficiente a medicamentos, vale conhecer também como a depressão resistente é identificada. Esse histórico ajuda a contextualizar a decisão, sem precisar reconstruir toda a investigação a cada conversa.
Da avaliação à recuperação: o percurso de uma sessão
Antes do início, são avaliadas a indicação psiquiátrica e as condições clínicas para o procedimento e a anestesia. No Brasil, a Resolução CFM nº 2.057/2013 prevê avaliação clínica prévia, anestesia e infraestrutura adequada para suporte à vida e recuperação. Isso inclui atenção às condições cardiovasculares, respiratórias e neurológicas.³
O consentimento envolve entender a proposta, seus benefícios esperados, riscos e alternativas. É importante ter espaço para perguntar. Se desejar, a pessoa pode incluir alguém de sua confiança nessa conversa com a equipe.⁴
O percurso pode ser resumido assim:
| Etapa | O que acontece |
|---|---|
| Antes da sessão | A equipe revê as condições de saúde e fornece as orientações individuais de preparação.³,⁴ |
| Durante o procedimento | São administrados a anestesia e o relaxante muscular. Eletrodos no couro cabeludo permitem aplicar o estímulo; a atividade convulsiva e os sinais vitais são acompanhados.¹ |
| Na recuperação | A pessoa permanece sob observação enquanto desperta e até apresentar condições clínicas para sair da área de recuperação.⁴ |
| Ao longo do tratamento | A resposta e os efeitos adversos orientam a continuidade e eventuais ajustes. Não existe um número de sessões adequado para todas as pessoas.⁴ |
A anestesia evita que a pessoa sinta o estímulo durante a sessão. O relaxante muscular reduz as contrações do corpo; a atividade convulsiva cerebral continua sendo parte do tratamento.¹
Jejum, medicamentos, acompanhante e retorno às atividades devem ser combinados com o serviço responsável.⁴ Ter essas informações por escrito pode ajudar a organizar o dia da sessão sem depender de instruções lembradas às pressas.
O que pode acontecer com a memória?
“Perda de memória” pode descrever dificuldades diferentes. Separá-las torna a conversa mais precisa.
Confusão ao despertar. Pode haver desorientação logo após a sessão. Esse efeito costuma diminuir durante a recuperação e é acompanhado pela equipe.⁵
Dificuldade para guardar informações novas. Durante o curso de ECT, algumas pessoas têm dificuldade para reter conversas ou acontecimentos recentes. Em geral, essa capacidade melhora após o término do tratamento.⁵
Lacunas em lembranças pessoais. Podem ocorrer perdas de recordações de acontecimentos anteriores ao tratamento, especialmente próximos desse período. Algumas dessas lacunas podem persistir e não ser recuperadas. Portanto, não é correto dizer que todo efeito da ECT sobre a memória é passageiro.⁵
Como a memória é acompanhada
A avaliação antes do tratamento cria uma referência para as comparações seguintes. Ao longo das sessões, podem ser usados testes e relatos sobre dificuldades no cotidiano. O que a pessoa e alguém próximo percebem também merece ser ouvido.⁶
Um resultado médio favorável em testes não elimina a possibilidade de perdas individuais. A própria depressão pode prejudicar o funcionamento cognitivo, mas isso não deve ser usado para atribuir automaticamente qualquer esquecimento à doença e descartar um possível efeito do tratamento.⁶
A forma de administrar a ECT influencia o equilíbrio entre benefício e efeitos cognitivos. A escolha considera a situação clínica; mudanças na memória durante o curso podem levar à reavaliação do plano.⁶
Na conversa com a equipe, exemplos concretos ajudam: uma informação recente que ficou difícil de guardar ou uma lembrança pessoal que já não consegue recuperar. O objetivo é comunicar uma mudança percebida, não passar o dia testando a própria memória.
Além da memória, quais riscos entram na decisão?
Podem ocorrer dor de cabeça, náusea e dores musculares após a sessão. Também há riscos relacionados à anestesia e mudanças transitórias da frequência cardíaca e da pressão arterial, consideradas na avaliação e na monitorização.⁴
A decisão compara esses riscos com o sofrimento e os riscos de manter uma depressão grave sem resposta suficiente, além dos benefícios e limites das alternativas. Essa conversa deve ser individual: uma descrição geral de segurança não substitui a avaliação das condições de saúde da pessoa.²
O cuidado continua depois da melhora
A melhora com a ECT não encerra o acompanhamento. Para sustentar o benefício e reduzir a possibilidade de retorno dos sintomas, o plano pode incluir medicamentos e, em situações selecionadas, sessões de continuação ou manutenção de ECT.¹
O acompanhamento considera também a retomada do autocuidado, das relações e das atividades interrompidas. Ao concluir o curso inicial, é importante saber quem fará os retornos e a quem comunicar uma piora.
Cinco perguntas para levar à equipe
- Por que a ECT está sendo considerada no meu caso, neste momento?
- Quais alternativas ainda fazem sentido e o que muda se eu adiar essa decisão?
- Quais condições de saúde aumentam meus riscos e como serão consideradas?
- Como vamos acompanhar a memória e decidir se o plano precisa mudar?
- Qual será o acompanhamento depois do curso inicial?
Uma avaliação da depressão resistente na Genuine Mental Health pode ajudar a rever o histórico e as possibilidades de cuidado. A indicação e a realização da ECT exigem avaliação e estrutura próprias. A conversa deve permitir entender o motivo da proposta, esclarecer dúvidas e participar da decisão.
Referências
- National Institute of Mental Health. Brain stimulation therapies. Seção sobre eletroconvulsoterapia. Consultado em 25 set. 2026.
- National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222. 2022. Recomendações 1.13.1–1.13.2. Consultado em 25 set. 2026.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.057/2013. Capítulo IX, artigos 21–26. Texto disponibilizado no repositório oficial. Consultado em 25 set. 2026.
- American Psychiatric Association. What is electroconvulsive therapy (ECT)?. Revisão médica indicada em set. 2026. Consultado em 25 set. 2026.
- Royal College of Psychiatrists. Electroconvulsive therapy (ECT). Seções sobre efeitos adversos e memória. Consultado em 25 set. 2026.
- Porter RJ, Baune BT, Morris G, et al. Cognitive side-effects of electroconvulsive therapy: what are they, how to monitor them and what to tell patients. BJPsych Open. 2020;6(3):e40. doi:10.1192/bjo.2020.17.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.