Bupropiona na depressão: benefícios, efeitos e cuidados na escolha
Postado em: 02/10/2026
Imagem: Tery-butyl / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Enquadramento adaptado para formato horizontal.
Dois antidepressivos podem ajudar no tratamento da depressão e, ainda assim, ter efeitos indesejados e interações diferentes. A bupropiona é uma das opções para adultos com depressão maior unipolar, ou seja, sem histórico de episódios de mania ou hipomania. Sua escolha considera o quadro depressivo, a resposta a tratamentos anteriores e o histórico de saúde.¹˒²
Uma dúvida frequente é se ela pode ajudar quando predominam falta de energia, de interesse e de prazer. Há evidência de benefício nesse contexto, mas esses sintomas, sozinhos, não determinam qual medicamento deve ser usado.
Qual é o lugar da bupropiona no tratamento
A apresentação de liberação prolongada XL, cuja bula brasileira foi consultada para este artigo, tem indicação para episódios depressivos maiores e prevenção de recaídas após resposta satisfatória. A diretriz canadense CANMAT inclui a bupropiona entre os antidepressivos de primeira linha para depressão maior em adultos. Isso significa que ela pode ser considerada desde o início, conforme a avaliação clínica.¹˒²
A bupropiona interfere na recaptação de noradrenalina e dopamina, substâncias envolvidas na comunicação entre células nervosas. O mecanismo completo de seu efeito antidepressivo, porém, não é conhecido; essa explicação não permite concluir que a pessoa tenha uma “falta de dopamina” identificável pela queixa.¹
Também é preciso distinguir começar um tratamento, trocar o antidepressivo anterior e acrescentar outro medicamento. A troca pode entrar na discussão quando o benefício foi insuficiente ou a tolerabilidade atrapalhou o uso. A associação é outra decisão, com evidências e riscos próprios; a CANMAT a situa entre opções de segunda linha no contexto de depressão de difícil tratamento.²
No estudo STAR*D, 727 adultos que não alcançaram remissão ou não toleraram citalopram foram encaminhados à troca para bupropiona SR, sertralina ou venlafaxina XR. Não houve diferença estatisticamente significativa entre as opções nos resultados principais. Essa comparação avaliou substituição, não associação, e usou a formulação SR de bupropiona, diferente da XL. Ela não identifica uma opção universalmente melhor nem demonstra equivalência formal entre as três.³
O que esperar quando faltam energia, interesse e prazer
Na depressão, atividades antes habituais podem exigir esforço desproporcional: preparar uma refeição, começar uma tarefa ou aceitar um convite. Às vezes, a pessoa consegue cumprir obrigações, mas quase nada desperta interesse ou oferece prazer. Essas dificuldades merecem ser descritas com exemplos na consulta, porque “estou sem energia” pode reunir experiências diferentes.
Um ensaio publicado em 2006 acompanhou por oito semanas 274 adultos com depressão maior e redução de energia, prazer e interesse. A bupropiona XL apresentou benefício em relação ao placebo tanto na avaliação da depressão quanto nesse conjunto de sintomas. O resultado sustenta a possibilidade de melhora na população estudada. Não demonstra superioridade sobre outros antidepressivos nem tratamento de cansaço sem depressão.⁴
Esse benefício não deve ser entendido como estimulação imediata ou promessa de maior produtividade. No acompanhamento, interessa perceber se a pessoa está recuperando atividades e interesse junto da melhora do quadro depressivo. Trabalhar mais horas, isoladamente, não responde a essa pergunta.
Vale levar à consulta a diferença entre não conseguir iniciar algo, começar e se esgotar rapidamente, ou realizar uma atividade sem sentir prazer. O relato ajuda a definir o que será observado durante o tratamento, sem transformar um sintoma em receita automática.
Como peso e função sexual entram na escolha
Em uma pesquisa observacional com 183.118 pessoas que iniciaram um de oito antidepressivos, a bupropiona se associou ao menor ganho médio de peso. As diferenças médias foram pequenas; a baixa adesão e os dados incompletos de peso e uso dos medicamentos limitam a interpretação. O estudo procurou aproximar a comparação de um ensaio, mas não distribuiu os tratamentos por sorteio. O achado pode pesar na escolha, sem garantir perda de peso ou ausência de ganho para uma pessoa específica.⁵ O artigo sobre antidepressivos e ganho de peso aprofunda como avaliar essa mudança.
Quanto à função sexual, dois ensaios de oito semanas encontraram menor ocorrência de dificuldade de orgasmo com bupropiona XL do que com escitalopram. Os participantes tinham função sexual preservada no início: portanto, esse resultado não é prova de reversão de uma dificuldade já instalada nem de aumento da libido em todas as pessoas.⁶ Uma queixa sexual durante o tratamento precisa ser avaliada em seu contexto, como explicamos em antidepressivo e libido.
Quais informações de saúde precisam entrar na conversa
A bupropiona é contraindicada em pessoas com epilepsia ou outros transtornos convulsivos e com bulimia ou anorexia nervosa atuais ou anteriores. Uma convulsão no passado, mesmo sem diagnóstico de um transtorno convulsivo, também precisa ser informada na avaliação. Uso de outros produtos com bupropiona, uso atual ou recente de antidepressivos chamados IMAO e retirada abrupta de álcool ou sedativos também mudam a possibilidade de prescrição. A restrição por bulimia ou anorexia não se estende automaticamente a todos os transtornos alimentares.¹
Leve a lista completa dos medicamentos e descreva seu consumo de álcool. A bupropiona pode interferir na eliminação de outros remédios. Gravidez, amamentação e doenças relevantes, inclusive renais ou hepáticas, exigem avaliação própria. Se houver transtorno bipolar, as recomendações deste artigo sobre depressão unipolar não se aplicam automaticamente.¹˒² A discussão sobre antidepressivos e álcool não se resume a encontrar uma quantidade “segura”.
Insônia, boca seca, náusea, ansiedade ou agitação devem ser relatadas; a pressão arterial também merece acompanhamento. Ansiedade já presente na depressão é diferente de ansiedade percebida após iniciar o tratamento, e a sequência temporal não confirma a causa. A CANMAT não identifica um antidepressivo universalmente superior para depressão com sofrimento ansioso. Esses dados não estabelecem uma indicação da bupropiona para qualquer transtorno de ansiedade.¹˒²
Convulsão, reação alérgica grave ou risco imediato de autoagressão exigem urgência. Aceleração importante do humor ou mudança marcante de comportamento pede avaliação pronta. Não faça ajustes, trocas ou associações por conta própria.¹
Como perceber se o tratamento está ajudando
A bula descreve início de ação observado nas primeiras duas semanas, enquanto o efeito antidepressivo mais amplo pode levar outras semanas. Isso não fixa um prazo de melhora para cada pessoa nem justifica esperar diante de piora importante. A avaliação reúne a evolução dos sintomas e a tolerabilidade ao longo do tratamento.¹
Para o retorno, três perguntas ajudam a preparar o relato:
- O que mudou nos sintomas e nas atividades que estavam difíceis?
- O que continua exigindo esforço ou oferecendo pouco interesse e prazer?
- Que incômodo começou ou aumentou desde a mudança do tratamento?
Uma melhora inicial pode ser relevante sem significar recuperação completa. Da mesma forma, um efeito indesejado precisa ser discutido mesmo quando há benefício: ambos entram na decisão sobre a continuidade do cuidado.²
Na consulta psiquiátrica na Genuine Mental Health, leve esses exemplos e o histórico das tentativas anteriores. Eles ajudam a discutir o motivo da escolha e o que será acompanhado, além do nome do antidepressivo.
Referências
- GlaxoSmithKline Brasil. Wellbutrin XL: bula profissional e do paciente. Seção profissional; versão L2319_wellbutrin xl_com_rev_lib_prol_GDS37_IPI21. Aprovação em 4 set 2026 informada no PDF. Acesso em 2 out 2026.
- Lam RW, Kennedy SH, Adams C, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 update on clinical guidelines for management of major depressive disorder in adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641–687. doi:10.1177/07067437241245384.
- Rush AJ, Trivedi MH, Wisniewski SR, et al. Bupropion-SR, sertraline, or venlafaxine-XR after failure of SSRIs for depression. N Engl J Med. 2006;354(12):1231–1242. doi:10.1056/NEJMoa052963.
- Jefferson JW, Rush AJ, Nelson JC, et al. Extended-release bupropion for patients with major depressive disorder presenting with symptoms of reduced energy, pleasure, and interest: findings from a randomized, double-blind, placebo-controlled study. J Clin Psychiatry. 2006;67(6):865–873. doi:10.4088/jcp.v67n0602.
- Petimar J, Young JG, Yu H, et al. Medication-induced weight change across common antidepressant treatments: a target trial emulation study. Ann Intern Med. 2024;177(8):993–1003. doi:10.7326/M23-2742. Resumo consultado no repositório da Duke University.
- Clayton AH, Croft HA, Horrigan JP, et al. Bupropion extended release compared with escitalopram: effects on sexual functioning and antidepressant efficacy in 2 randomized, double-blind, placebo-controlled studies. J Clin Psychiatry. 2006;67(5):736–746. doi:10.4088/jcp.v67n0507.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.