Antidepressivo e libido: o que fazer quando a vida sexual muda?

Postado em: 18/09/2026

Casal sentado na borda da cama, com uma cartela de medicamento sobre a mesa de cabeceira.

Antidepressivos podem diminuir o desejo sexual e dificultar a excitação ou o orgasmo. O tipo e a intensidade da mudança variam conforme o medicamento e a pessoa. A própria depressão, a ansiedade, o estresse, outras condições de saúde e dificuldades na relação também podem afetar a vida sexual. Por isso, ajuda observar o que mudou e quando começou.1,2,3

Se a mudança incomoda, leve o assunto à consulta. Mesmo quando o medicamento está ajudando em outros aspectos, esse efeito merece atenção e pode motivar uma revisão do tratamento.

O antidepressivo afeta apenas a libido?

Libido é o desejo sexual. Outras dificuldades podem ocorrer mesmo quando a vontade de ter uma relação continua presente. Separar essas experiências ajuda a descrever o problema:1,3

O que mudou Como a pessoa pode perceber
Desejo Menos interesse por sexo ou menos vontade de iniciar uma interação sexual.
Excitação e resposta física Menor lubrificação vaginal ou dificuldade para ter ou manter uma ereção.
Orgasmo Mais demora, dificuldade ou ausência de orgasmo.

Por exemplo, “tenho vontade, mas não consigo chegar ao orgasmo” descreve uma dificuldade diferente de “quase não sinto interesse”. Ambas podem aparecer durante o uso de antidepressivos e merecem ser discutidas, independentemente do gênero ou do motivo da prescrição.1,3

Como saber se a mudança tem relação com o medicamento?

Para avaliar essa relação, ajuda comparar como era a vida sexual antes do tratamento, quando a dificuldade apareceu e se houve alguma mudança no medicamento nesse período. Essa sequência merece ser investigada, mas não determina a causa sozinha. Também importa saber se o humor e a ansiedade melhoraram, permaneceram iguais ou pioraram.3

Estresse, conflitos na relação, consumo excessivo de álcool, outros medicamentos e condições como diabetes ou alterações da tireoide também podem afetar o desejo. Dependendo do relato, o médico pode investigar fatores emocionais, relacionais, medicamentosos ou clínicos.2,3

O mais útil é comparar com o seu funcionamento habitual e descrever o incômodo. Uma frequência sexual diferente da de outras pessoas, por si só, diz pouco sobre o que mudou para você.

Esses efeitos sexuais passam com o tempo?

A evolução varia e não há um prazo confiável para a melhora. Se a dificuldade persiste ou está afetando sua vida, vale discuti-la na consulta em vez de esperar indefinidamente que desapareça.1,3

Há relatos de alterações sexuais persistentes após a suspensão de inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) e inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN). Esse evento é considerado raro, mas pode estar subnotificado, e sua frequência exata não é conhecida. Quando os sintomas persistem, é preciso considerar tanto o uso anterior do medicamento quanto outras causas possíveis.4

O que pode ser discutido com o psiquiatra?

A avaliação considera o benefício do medicamento, o impacto da dificuldade sexual, as causas possíveis e suas preferências. A diretriz NICE inclui explicitamente os efeitos sobre a função sexual na conversa sobre a escolha de antidepressivos.5

Conforme o caso, o médico pode acompanhar a evolução, tratar outro fator identificado ou rever a estratégia medicamentosa. Estudos avaliaram mudanças no antidepressivo e intervenções dirigidas à dificuldade sexual, mas os resultados são heterogêneos e não apontam uma única opção como a melhor para todos.2,5,6

A decisão depende do tipo de dificuldade, do diagnóstico, da resposta obtida e dos efeitos de tratamentos anteriores. Evite pular doses, fazer pausas para ter relações ou reduzir o medicamento por conta própria. Doses omitidas e interrupções abruptas podem provocar sintomas de retirada.5,7 A decisão sobre por quanto tempo continuar o antidepressivo considera a evolução do quadro; uma queixa sexual pode exigir revisão antes do momento previsto para encerrar o tratamento.

Como falar sobre isso na consulta?

Você não precisa conhecer termos médicos. Uma frase como “o remédio me ajudou, mas minha vida sexual mudou e isso está me incomodando” já permite começar. Para aproveitar a conversa, leve quatro informações:

  • O que mudou: desejo, lubrificação, ereção, orgasmo ou sensibilidade.
  • Desde quando: se já acontecia antes e se houve mudança de medicamento ou dose perto do início da dificuldade.
  • Como isso afeta você: desconforto, frustração, evitação de intimidade ou repercussão na relação.
  • O que gostaria de preservar ou melhorar: benefícios percebidos no tratamento e aspectos da vida sexual que mais importam para você.

Se for difícil falar, anote e leve o registro. Caso já tenha deixado de tomar doses por esse motivo, conte também: essa informação ajuda a planejar os próximos passos.3,5,7

Na consulta de psiquiatria na Genuine Mental Health, essa queixa pode fazer parte da revisão do tratamento, considerando tanto os benefícios já obtidos quanto o impacto sobre a vida sexual.

Referências

  1. NHS. Antidepressants [Internet]. 2025 [citado 18 set 2026].
  2. NHS. Low sex drive (loss of libido) [Internet]. 2026 [citado 18 set 2026].
  3. Rothmore J. Antidepressant-induced sexual dysfunction. Med J Aust. 2020;212(7):329–334. doi:10.5694/mja2.50522.
  4. Therapeutic Goods Administration. Updated warnings about persistent sexual dysfunction for antidepressants [Internet]. 2024 maio 23 [citado 18 set 2026].
  5. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222 [Internet]. 2022 [citado 18 set 2026]. Recomendações 1.4.10 e 1.4.13.
  6. Luft MJ, Dobson ET, Levine A, Croarkin PE, Strawn JR. Pharmacologic interventions for antidepressant-induced sexual dysfunction: a systematic review and network meta-analysis of trials using the Arizona sexual experience scale. CNS Spectr. 2022;27(4):496–505. doi:10.1017/S1092852921000377.
  7. National Institute for Health and Care Excellence. Medicines associated with dependence or withdrawal symptoms: safe prescribing and withdrawal management for adults. NICE guideline NG215 [Internet]. 2022 [citado 18 set 2026].

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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