Antidepressivo engorda? Como avaliar o ganho de peso durante o tratamento

Postado em: 19/09/2026

Balança digital ao lado de uma cartela de comprimidos sobre uma superfície clara.

Antidepressivos podem contribuir para o ganho de peso, mas isso não acontece com todas as pessoas nem da mesma forma com todos os medicamentos. A mudança também pode envolver o apetite, a evolução do quadro tratado e outros fatores. Perceber que o peso aumentou depois de começar o remédio é uma informação importante, mas não basta para estabelecer a causa.1,2

Essa queixa merece espaço na consulta, inclusive quando o tratamento está ajudando. Não é preciso escolher entre ignorar o peso e abrir mão dos benefícios obtidos.

O que mudou antes e depois do tratamento?

O ponto de partida é a trajetória, não apenas o número mais recente na balança. O peso já vinha mudando antes da prescrição? A fome aumentou? Houve alterações na alimentação ou na atividade física? Outro medicamento foi iniciado no mesmo período?

Na depressão, algumas pessoas perdem o apetite e emagrecem; quando melhoram, voltam a comer e recuperam parte do peso. Outras passam a comer mais ou a se movimentar menos durante o próprio adoecimento. O antidepressivo pode participar dessa mudança, mas não é a única explicação possível.2

Considere uma situação fictícia: uma pessoa recupera a disposição com o tratamento, mas percebe aumento progressivo do peso e roupas mais apertadas. Ela teme que comentar isso signifique ter de suspender um medicamento que ajudou. A consulta pode começar justamente por essa preocupação: o que melhorou, o que passou a incomodar e o que precisa ser investigado.

A conversa também vale para quem recebeu antidepressivo por ansiedade ou outro motivo. O nome da classe não significa que seu uso se limite à depressão.1

Todos os antidepressivos têm o mesmo efeito sobre o peso?

Não. Um estudo de 2024 analisou registros de 183.118 pessoas que iniciaram um entre oito antidepressivos. As diferenças médias entre os medicamentos foram pequenas, mas não foram iguais.3

Um exemplo: aos seis meses, o grupo que iniciou escitalopram apresentou uma mudança média de peso estimada em 0,41 kg a mais que o grupo que iniciou sertralina. Isso é uma diferença entre grupos — não o ganho total de quem tomou escitalopram, nem uma previsão de quanto uma pessoa vai engordar.3

A pesquisa foi observacional: analisou tratamentos registrados, sem sortear os medicamentos. Houve limitações na informação sobre continuidade do uso e nas medidas de peso. Além disso, o estudo não incluiu todos os antidepressivos disponíveis.3

Por isso, a pergunta “qual antidepressivo não engorda?” não tem uma resposta que sirva como garantia individual. Os dados comparativos ajudam na escolha, mas precisam ser considerados junto do motivo da prescrição, da resposta anterior e das condições de saúde.

O ganho de peso pode aparecer mais adiante?

A avaliação não deve ficar restrita às primeiras semanas. Uma coorte britânica com acompanhamento de até dez anos encontrou associação entre prescrição de antidepressivos e maior ocorrência de episódios de aumento de pelo menos 5% do peso em relação ao ano anterior. A associação persistiu por vários anos, mas o desenho do estudo não permite atribuir toda a mudança ao medicamento.4

Esses 5% eram um critério da pesquisa, não uma quantidade que alguém precisa ganhar antes de procurar o médico. Se a tendência de aumento preocupa, interfere no bem-estar ou está levando você a pensar em abandonar o tratamento, vale antecipar a conversa.

O que levar à consulta?

Não é necessário reconstruir cada refeição ou se pesar todos os dias para descrever o problema. Se houver registros anteriores, eles podem ajudar; se não houver, relate a evolução aproximada e o que percebeu.

Informação observadaPor que ajuda na avaliação
Peso aproximado antes do tratamento e evolução desde entãoPermite enxergar a trajetória, em vez de avaliar uma medida isolada.
Quando o apetite ou o peso começaram a mudarAjuda a comparar a mudança com o início do tratamento e outros acontecimentos.
Outros medicamentos e alterações recentes na rotinaEvita atribuir automaticamente tudo ao antidepressivo.
O que melhorou e o que ainda incomodaDá espaço tanto aos benefícios quanto aos efeitos indesejados.

O quadro organiza informações para a conversa; não identifica sozinho a causa do ganho de peso.2,5

Conte também se deixou de tomar alguma dose por receio de engordar.

É possível rever o tratamento sem perder o que melhorou?

A revisão começa por duas perguntas: quanto o medicamento está ajudando e quanto a mudança de peso está afetando você. A diretriz NICE inclui o ganho de peso entre os efeitos adversos que devem participar da decisão compartilhada sobre antidepressivos.5

Conforme a avaliação, pode ser necessário acompanhar a evolução, investigar outros fatores ou reconsiderar a estratégia medicamentosa. Não existe uma troca obrigatória para toda mudança de peso, e a escolha de outra medicação não garante emagrecimento.2

Um remédio pode estar funcionando para o quadro tratado e, ainda assim, causar um efeito difícil de tolerar. Essa situação é diferente de sentir que o antidepressivo não está funcionando, embora ambas possam motivar revisão.

Não suspenda o antidepressivo por conta própria para tentar controlar o peso: a interrupção abrupta pode provocar sintomas de retirada.1 Reavaliar um efeito adverso também não é a mesma decisão que encerrar o tratamento após a melhora, assunto do artigo sobre por quanto tempo continuar o antidepressivo.

Na consulta de psiquiatria na Genuine Mental Health, você pode levar essa questão de forma direta: “o tratamento me ajudou, mas meu peso mudou e quero entender as opções”. Não é preciso chegar com a causa definida nem com uma proposta de troca.

Referências

  1. National Health Service. Antidepressants [Internet]. 2025 [citado 18 set 2026].
  2. Mayo Clinic. Antidepressants and weight gain: what causes it? [Internet]. 2024 [citado 18 set 2026].
  3. Petimar J, Young JG, Yu H, Rifas-Shiman SL, Daley MF, Heerman WJ, et al. Medication-induced weight change across common antidepressant treatments: a target trial emulation study. Ann Intern Med. 2024;177(8):993–1003. doi:10.7326/M23-2742.
  4. Gafoor R, Booth HP, Gulliford MC. Antidepressant utilisation and incidence of weight gain during 10 years’ follow-up: population based cohort study. BMJ. 2018;361:k1951. doi:10.1136/bmj.k1951.
  5. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NG222 [Internet]. 2022 [citado 18 set 2026]. Recomendação 1.4.10.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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