Valproato no transtorno bipolar: quando é utilizado e quais cuidados exige
Postado em: 10/10/2026
Se o valproato apareceu na sua receita para transtorno bipolar, a primeira pergunta é: qual é o objetivo nesta fase? Na mania, espera-se reduzir os sintomas do episódio. Depois de uma melhora, o tratamento pode ter como objetivo diminuir o risco de novos episódios. A decisão muda se o problema atual é uma depressão bipolar, e o acompanhamento precisa considerar tanto o benefício quanto os efeitos e os exames.1,2
O que significa “valproato” na receita?
Neste texto, “valproato” é um nome abrangente para medicamentos relacionados, como ácido valproico, valproato de sódio e divalproato de sódio. Eles têm apresentações diferentes; o nome do princípio ativo não torna comprimidos, cápsulas e formas de liberação diferentes intercambiáveis por conta própria. A bula brasileira do Depakote em comprimidos de liberação retardada, por exemplo, identifica o produto como divalproato de sódio e inclui o tratamento de episódios maníacos agudos ou mistos associados ao transtorno bipolar.1
É comum chamar o valproato de estabilizador do humor. Nesse contexto, o termo descreve sua função no tratamento de episódios e na prevenção de recorrências em situações selecionadas; não significa eliminar toda mudança emocional cotidiana.
O objetivo muda entre a crise e a manutenção
Mania, depressão e manutenção são problemas clínicos diferentes. A manutenção começa quando o foco principal deixa de ser tratar um episódio ativo e passa a ser prevenir novas fases da doença. As recomendações também distinguem transtorno bipolar I e II.2,3
| Situação | O que a recomendação permite esperar do valproato |
|---|---|
| Mania aguda no bipolar I | Há evidência de benefício antimaníaco. O médico acompanha a redução dos sintomas do episódio e a tolerabilidade.1,2 |
| Depressão atual no bipolar I | Seu lugar é diferente: as diretrizes CANMAT/ISBD o incluem entre as opções de segunda linha, após avaliar alternativas mais bem sustentadas para essa fase.2,3 |
| Depressão atual no bipolar II | A evidência é mais limitada; a diretriz de 2018 coloca o divalproato como opção de terceira linha. Isso não é uma indicação para usá-lo automaticamente em qualquer depressão.2 |
| Manutenção no bipolar I | O divalproato está entre as opções recomendadas para reduzir recorrências. A escolha leva em conta as fases anteriores, a resposta alcançada e os riscos do uso prolongado.2,3 |
Essa tabela não descreve todo o tratamento do bipolar II. Também há uma diferença entre indicação registrada em bula e recomendação de diretriz clínica: a bula brasileira citada acima indica a formulação específica para mania aguda ou mista e informa que sua eficácia no uso prolongado para mania não foi sistematicamente avaliada em estudos controlados; a recomendação de manutenção considera um conjunto mais amplo de evidências clínicas. O plano para cada pessoa deve ser reavaliado ao longo do tempo.1,2 Para entender melhor as escolhas na fase depressiva, veja o artigo sobre tratamento da depressão bipolar.
Como perceber benefício sem confundi-lo com sonolência?
Durante uma mania, a avaliação considera se a aceleração, a redução da necessidade de sono, a impulsividade e outros sintomas estão diminuindo, além da possibilidade de retomar atividades com segurança. Sentir sono ou ficar mais quieto, isoladamente, não prova que o episódio foi controlado.1,2
Se a pessoa já está melhor e usa valproato para manutenção, a pergunta muda: houve novos episódios? Quanto duraram? O funcionamento e a tolerabilidade permitem sustentar o plano? O relato do paciente e, quando desejado, de alguém próximo ajuda a situar essas mudanças no tempo. A concentração do medicamento no sangue pode ser útil para interpretar o tratamento, mas não substitui a avaliação dos sintomas e dos efeitos indesejados.2
Quais exames e efeitos entram no acompanhamento?
O acompanhamento costuma incluir peso, hemograma com plaquetas, avaliação da função hepática e, conforme a situação, concentração sanguínea do valproato. Os exames ajudam a detectar problemas e a interpretar a exposição ao medicamento; o médico define quando repeti-los segundo o quadro e a fase do tratamento. Não existe um resultado isolado que diga, por si só, se a pessoa está bem.1,2
Tremor, sonolência, náusea e ganho de peso podem dificultar o uso e merecem conversa no retorno, especialmente se persistem ou interferem na rotina. Dor abdominal forte ou persistente, sobretudo com vômitos, sinais de problema no fígado como pele ou olhos amarelados, manchas roxas ou sangramento anormal e confusão importante precisam de avaliação médica rápida. Esses sinais não devem esperar uma consulta de rotina.1
Leve a lista de todos os medicamentos em uso. O valproato, por exemplo, aumenta a exposição à lamotrigina, e a associação requer cuidados específicos pelo risco de reações cutâneas graves. Isso é assunto para manejo médico, inclusive quando um dos tratamentos é iniciado, alterado ou interrompido. O artigo sobre lamotrigina no transtorno bipolar explica os cuidados próprios desse medicamento.1
Planejamento reprodutivo deve entrar na conversa
O tema precisa ser discutido antes de uma gravidez. A exposição ao valproato durante a gestação está associada a risco elevado de malformações congênitas e problemas do desenvolvimento da criança. Na seção de mania, a bula profissional brasileira consultada para o Depakote de liberação retardada informa que o produto é contraindicado durante a gravidez. Para pessoas que podem engravidar, a bula restringe o início do tratamento às situações em que outras opções não foram eficazes ou toleradas, além de exigir medidas de prevenção da gravidez e acompanhamento especializado. Por isso, possibilidade de gestação, contracepção e alternativas de tratamento devem ser avaliadas com o prescritor desde a escolha do medicamento.1 O artigo sobre transtorno bipolar na gravidez e no pós-parto aprofunda o planejamento.
A exposição paterna antes da concepção é uma questão diferente da exposição do feto durante a gestação. Em revisão divulgada em 2026, a agência europeia EMA considerou inconsistentes os estudos sobre possíveis problemas do neurodesenvolvimento em filhos de homens que usaram valproato antes da concepção; a relação causal permanece incerta, e a agência manteve medidas de precaução europeias. Essa incerteza não significa que o risco tenha sido descartado.4
No Brasil, a bula profissional consultada também orienta discutir regularmente com homens com potencial reprodutivo as alternativas de tratamento e a necessidade de contracepção eficaz durante o uso e por três meses após uma eventual interrupção. Quem planeja ter filhos deve conversar com o prescritor antes de tentar a concepção.1
Se houver suspeita de gravidez, procure orientação médica prontamente. Não suspenda ou troque o valproato por conta própria: tanto os riscos da exposição quanto os de uma recaída precisam entrar na decisão clínica.1
O que levar ao retorno?
Anote quais mudanças motivaram a prescrição, o que melhorou, o que continua difícil e quando surgiram possíveis efeitos. Leve os exames solicitados e uma lista atualizada de medicamentos, inclusive os usados fora da psiquiatria. Na avaliação e no acompanhamento do transtorno bipolar na Genuine Mental Health, essas informações ajudam a discutir o objetivo da fase atual e a revisar a relação entre benefício, segurança e continuidade do tratamento.
Referências
1. Abbott Laboratórios do Brasil. Depakote (divalproato de sódio): bula do profissional de saúde, comprimidos revestidos de liberação retardada, BU32. Versão com aprovação pela Anvisa informada em 5 mar 2026. Acesso em 1 out 2026.
2. Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments and International Society for Bipolar Disorders 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97–170. doi:10.1111/bdi.12609.
3. Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD guidelines for the treatment of bipolar disorder: summary and a 2023 update of evidence. Focus. 2023;21(4):344–353. doi:10.1176/appi.focus.20230009.
4. European Medicines Agency. Meeting highlights from the Pharmacovigilance Risk Assessment Committee (PRAC), 8–11 June 2026: paternal exposure to valproate. Publicado em 12 jun 2026. Acesso em 1 out 2026.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.