Antidepressivos e prisão de ventre: por que acontece e o que pode ajudar?
Postado em: 25/10/2026
Alguns antidepressivos podem provocar prisão de ventre ou agravar uma dificuldade que já existia. Para avaliar essa possibilidade, importa saber como o intestino funcionava antes, quando o problema começou e se houve mudança de medicação. A proximidade no tempo é uma pista, mas não prova que o antidepressivo seja a única causa.1,2
Prisão de ventre, ou constipação, não significa apenas passar dias sem evacuar. Fezes endurecidas, esforço, dor ou sensação de que a evacuação ficou incompleta também contam. É possível ir ao banheiro com alguma regularidade e ainda ter uma dificuldade relevante; evacuar todos os dias não é uma meta obrigatória para todos.2
Por que o problema pode aparecer durante o tratamento
Alguns antidepressivos tricíclicos, como a nortriptilina, têm efeito anticolinérgico: reduzem a ação da acetilcolina, substância que participa dos movimentos do intestino. Isso pode deixar o trânsito intestinal mais lento. A bula da nortriptilina inclui constipação entre esses efeitos. Outros antidepressivos também podem causar prisão de ventre, mas não necessariamente pelo mesmo mecanismo. Saiba mais sobre a nortriptilina no tratamento da depressão.3,4
Em estudos de até 12 semanas com venlafaxina de liberação prolongada, a constipação foi relatada por 9,3% dos participantes que receberam o medicamento e 3,4% dos que receberam placebo. Os participantes eram adultos tratados para depressão ou transtornos de ansiedade. As taxas observadas nesses estudos se referem à venlafaxina de liberação prolongada; outros antidepressivos podem ter frequências diferentes.5
Outros fatores podem se somar: uso de ferro ou de certos analgésicos, menor ingestão de líquidos e fibras, redução da atividade física ou adiamento frequente da vontade de evacuar. A avaliação considera o conjunto, inclusive medicamentos sem receita e suplementos. A revisão da prescrição ajuda a identificar contribuições de diferentes produtos.2
Uma mudança que começou após iniciar ou ajustar um remédio merece ser relatada. Também é útil distinguir se as fezes ficaram mais duras, se o intervalo entre as evacuações aumentou ou se o principal problema é conseguir eliminá-las. “Meu intestino piorou” pode descrever dificuldades diferentes.
Medidas que podem tornar a evacuação mais fácil
Se não houver sinais de alerta, mudanças de alimentação e rotina podem ajudar. O efeito não precisa ser imediato: algumas pessoas percebem diferença em dias, enquanto outras levam semanas. A persistência do problema, porém, pede avaliação; não é necessário tolerar desconforto crescente enquanto se insiste nas mesmas medidas.6
- Acrescente fibras gradualmente. Frutas, verduras e aveia são fontes de fibras. Um aumento brusco pode provocar gases e estufamento. Suplementos não são obrigatórios.6,7,8
- Mantenha uma ingestão de líquidos compatível com suas necessidades. Líquidos ajudam as fibras a funcionar melhor. Se existe restrição prescrita por doença renal ou cardíaca, respeite essa orientação ao discutir o manejo da constipação; não aumente a quantidade por conta própria.7
- Aproveite a vontade de evacuar e reserve tempo. Adiar repetidamente a ida ao banheiro pode dificultar a rotina. Uma possibilidade é separar um momento após o café da manhã: o NIDDK cita o intervalo de 15 a 45 minutos, porque comer estimula os movimentos do intestino. É uma oportunidade, não uma obrigação de evacuar nesse horário.6,7
- Ajuste a posição e a movimentação possível. Apoiar os pés em um banquinho baixo, deixando os joelhos acima dos quadris se for confortável, pode facilitar a evacuação. Atividade física regular, dentro das possibilidades da pessoa, também pode ajudar. Nenhuma dessas medidas resolve todas as causas de constipação.6
Procure avaliação sem esperar o efeito das medidas caseiras se houver sangue nas fezes, dor abdominal contínua, vômitos, incapacidade de eliminar gases ou perda de peso sem explicação. Dor intensa, vômitos ou distensão associados à dificuldade de eliminar gases justificam atendimento urgente. Mesmo sem esses sinais, uma mudança persistente do hábito intestinal deve ser investigada.2,6
Quando alimentação e rotina não bastam
O profissional pode revisar os medicamentos e, conforme os sintomas e as condições de saúde, avaliar se é necessário usar um laxativo, qual escolher e por quanto tempo. Tratar a constipação não exige necessariamente retirar um antidepressivo que está ajudando.7
Não interrompa ou reduza o antidepressivo por conta própria. Também informe se já está usando laxantes, chás ou produtos “naturais”: eles fazem parte do tratamento que precisa ser avaliado, mesmo quando vendidos sem receita.1,7
O resultado procurado é evacuar com menos esforço, fezes menos endurecidas e menor desconforto. Se isso não está acontecendo, há motivo para rever a abordagem, mesmo que a frequência das evacuações pareça aceitável.
Referências
- National Health Service. Antidepressants [Internet]. London: NHS; 2025 [citado 25 out 2026]. Disponível em: https://www.nhs.uk/medicines/antidepressants/.
- National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. Symptoms & Causes of Constipation [Internet]. Bethesda: NIDDK; 2018 [citado 25 out 2026]. Disponível em: https://www.niddk.nih.gov/health-information/digestive-diseases/constipation/symptoms-causes.
- Eurofarma Laboratórios S.A. Cloridrato de nortriptilina: bula para profissional de saúde. Clornortriptilina_Cap_VPS_V09 [Internet]. [citado 25 out 2026]. Disponível em: https://eurofarma.com.br/produtos/bulas/healthcare/pt/bula-cloridrato-de-nortriptilina.pdf.
- Scottish Government. Polypharmacy Guidance: appropriate prescribing, making medicines safe, effective and sustainable 2026–2029. 6. Anticholinergic Burden [Internet]. Edinburgh: Scottish Government; 2026 [citado 25 out 2026]. Disponível em: https://www.gov.scot/publications/polypharmacy-guidance-appropriate-prescribing-making-medicines-safe-effective-sustainable-2026-2029/pages/6/.
- Viatris Specialty LLC. Effexor XR: venlafaxine hydrochloride capsule, extended release [bula na Internet]. In: DailyMed. Bethesda (MD): National Library of Medicine (US); [atualizado 15 ago 2023; citado 25 out 2026]. Disponível em: https://dailymed.nlm.nih.gov/dailymed/drugInfo.cfm?setid=c848a5d8-ba94-4c84-80e3-0bf35fb8e32e.
- National Health Service. Constipation [Internet]. London: NHS; 2023 [citado 25 out 2026]. Disponível em: https://www.nhs.uk/conditions/constipation/.
- National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. Treatment for Constipation [Internet]. Bethesda: NIDDK; 2018 [citado 25 out 2026]. Disponível em: https://www.niddk.nih.gov/health-information/digestive-diseases/constipation/treatment.
- A.D.A.M., Inc. Constipation – self-care [Internet]. In: MedlinePlus Medical Encyclopedia. Bethesda (MD): National Library of Medicine (US); [revisado 15 jul 2024; citado 25 out 2026]. Disponível em: https://medlineplus.gov/ency/patientinstructions/000120.htm.
Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.
Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.
De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.