Nortriptilina na depressão: quando é considerada e quais cuidados exige?

Postado em: 22/10/2026

Cápsulas de nortriptilina em duas apresentações, sobre fundo claro.

A nortriptilina é um antidepressivo tricíclico que continua sendo uma opção para tratar a depressão. Pode ser considerada quando tratamentos anteriores não ajudaram o suficiente ou foram difíceis de tolerar. Seu uso exige atenção aos efeitos adversos e à segurança, razões pelas quais os tricíclicos geralmente não são a primeira escolha. Isso não elimina sua utilidade quando a avaliação favorece essa opção.1

A prescrição não significa que a depressão passou a exigir um medicamento “mais forte”. O médico considera o diagnóstico, as tentativas anteriores, outras condições de saúde e o que a pessoa espera conseguir com o tratamento. Não existe uma sequência obrigatória em que todos devam chegar à nortriptilina depois de um número fixo de tentativas.1,2

O que sabemos sobre o benefício depois de outros tratamentos?

Um dos estudos que investigaram essa situação foi uma etapa do STAR*D. Participaram 235 adultos com depressão maior sem sintomas psicóticos que não haviam alcançado remissão ou não tinham tolerado duas etapas anteriores de tratamento. Eles foram sorteados para receber nortriptilina ou mirtazapina por até 14 semanas.3

A remissão ocorreu em 19,8% do grupo da nortriptilina e em 12,3% do grupo da mirtazapina, pelo critério principal do estudo. Remissão, nesse caso, significava chegar a um nível muito baixo de sintomas na escala de Hamilton. A diferença entre os grupos não foi estatisticamente significativa: o ensaio não demonstrou superioridade da nortriptilina.3

Esses números descrevem uma população que já havia passado por duas tentativas sem resultado suficiente; não estimam a chance individual de quem vai iniciar o medicamento. E não atingir remissão não equivale, necessariamente, a não ter melhorado. Como não havia grupo placebo nessa comparação, ela também não mede a diferença entre tomar nortriptilina e ficar sem tratamento.3

Na consulta, importa revisar o que melhorou parcialmente, o que permaneceu difícil e quais efeitos levaram a abandonar tratamentos anteriores. O artigo sobre o que fazer quando o antidepressivo não está funcionando explica as alternativas que podem entrar nessa avaliação.

As informações que podem mudar a escolha

Leve a lista de medicamentos, inclusive os comprados sem receita, suplementos e tratamentos interrompidos recentemente. Algumas associações alteram a concentração da nortriptilina ou aumentam efeitos indesejados. Informe também doenças cardíacas, desmaios e períodos anteriores de aceleração ou mudança marcante do humor. Essas informações ajudam a revisar a indicação e a segurança.4,5

Estas orientações se referem à depressão unipolar, que não faz parte de um transtorno bipolar. Ter apresentado fases de humor muito elevado ou irritável, com redução da necessidade de sono e comportamento diferente do habitual, é uma informação para a avaliação diagnóstica, mesmo que o motivo atual da consulta seja depressão.2,4

Em quem tem doença cardíaca, os efeitos dos tricíclicos sobre o ritmo do coração e a pressão merecem atenção particular e podem pesar contra essa escolha. Conforme o histórico e os demais medicamentos, o prescritor pode solicitar um eletrocardiograma. Sua função é explicada no artigo sobre antidepressivos, ritmo cardíaco e ECG.5

Como perceber se está ajudando

Antes de começar, escolha uma ou duas dificuldades concretas que a depressão trouxe. Por exemplo: deixou de ter interesse em uma atividade de que gostava ou passa horas tentando iniciar uma tarefa simples. No retorno, contar o que mudou nessas situações ajuda a mostrar um benefício que a frase “estou um pouco melhor” pode não esclarecer.

Você pode anotar uma comparação breve: “consegui retomar a leitura, mas ainda não consigo me concentrar por mais de alguns minutos”. Esse é apenas um exemplo de relato, não uma escala de avaliação nem um resultado esperado. Se uma área melhora enquanto outra piora, registre as duas.

Os primeiros dias podem trazer efeitos do medicamento antes de haver uma mudança clara na depressão. A resposta é avaliada ao longo das semanas, junto à tolerabilidade; poucos dias não bastam para concluir que houve falha. O retorno e a forma de comunicar dificuldades devem ser combinados desde a prescrição, com antecipação quando o risco ou os sintomas exigirem.2

Uma piora importante do humor, agitação nova ou pensamentos de autoagressão pedem contato sem esperar o retorno habitual. Se houver risco imediato, procure atendimento de urgência. O tempo necessário para avaliar o benefício não é motivo para adiar essa avaliação.2

O exame de sangue responde a outra pergunta

Quando indicado, o exame mede a concentração da nortriptilina no sangue. O resultado pode ajudar a investigar efeitos adversos inesperadamente intensos ou uma resposta insuficiente, inclusive quando outros medicamentos alteram sua concentração. Não mede a intensidade da depressão nem substitui a avaliação de sintomas e efeitos adversos.1,4

Por isso, um resultado de laboratório e o relato do paciente se complementam. Mesmo com uma concentração considerada adequada pelo médico, ainda é necessário verificar se houve benefício suficiente para justificar manter aquele tratamento.

Efeitos que merecem ser relatados

Boca seca, constipação, tontura ao levantar e sonolência podem ocorrer. Conte como interferem no dia: dificuldade para comer, intestino muito diferente do habitual ou sonolência que prejudica atividades, por exemplo. Sintomas importantes ou progressivos justificam contato antes do retorno. Não altere nem interrompa o esquema por conta própria.4

Desmaio, convulsão, confusão intensa de início recente ou suspeita de ingestão excessiva exigem avaliação imediata. A toxicidade em superdose também entra na escolha e no planejamento da prescrição.4,5

Ao sair da consulta, procure ter três pontos definidos: por que a nortriptilina foi escolhida para o seu caso, qual mudança será acompanhada e como procurar orientação se surgir uma dificuldade.

Referências

  1. Lam RW, Kennedy SH, Adams C, Bahji A, Beaulieu S, Bhat V, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641–687. doi:10.1177/07067437241245384. Diretriz CANMAT.
  2. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222 [Internet]. London: NICE; 2022 [citado 21 out 2026]. Recomendações.
  3. Fava M, Rush AJ, Wisniewski SR, Nierenberg AA, Alpert JE, McGrath PJ, et al. A comparison of mirtazapine and nortriptyline following two consecutive failed medication treatments for depressed outpatients: a STAR*D report. Am J Psychiatry. 2006;163(7):1161–1172. doi:10.1176/ajp.2006.163.7.1161. Resumo e registro bibliográfico.
  4. Eurofarma Laboratórios SA. Cloridrato de nortriptilina: bula para o profissional de saúde [Internet]. Versão Clornortriptilina_Cap_VPS_V09; atualizada conforme bula padrão aprovada pela Anvisa em 18 dez 2025 [citado 21 out 2026]. Bula do fabricante.
  5. NHS Specialist Pharmacy Service. Choosing an antidepressant for people with coronary heart disease [Internet]. Atualizado em 29 abr 2025 [citado 21 out 2026]. Orientação institucional.

Foto: INeverCry / Wikimedia Commons (CC0).

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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