Como a Cetamina Age no Cérebro? Uma Explicação Acessível
Postado em: 04/06/2025
A cetamina despertou grande interesse na psiquiatria por um motivo: em parte das pessoas com depressão resistente, a melhora pode começar em horas ou poucos dias. Isso acontece porque ela atua de modo diferente dos antidepressivos convencionais, sobretudo no sistema do glutamato e em vias relacionadas à neuroplasticidade.
Em termos simples, a cetamina pode favorecer mudanças na comunicação entre regiões do cérebro ligadas ao humor, à motivação e à resposta emocional. O mecanismo completo ainda está sendo estudado e provavelmente envolve mais de uma via. A seguir, explicamos o que já se sabe e por que essa ação se tornou tão relevante no tratamento da depressão resistente.
O mecanismo de ação é apenas uma parte da decisão clínica. Antes de iniciar, é importante compreender como funcionam a avaliação, as sessões e o acompanhamento no tratamento com cetamina.
Como a cetamina age no cérebro?
A cetamina atua em mecanismos diferentes dos antidepressivos convencionais. Um de seus principais alvos é o receptor NMDA, que faz parte do sistema do glutamato — neurotransmissor importante para a comunicação entre os neurônios e para a plasticidade cerebral.
Ao bloquear temporariamente certos receptores NMDA, a cetamina desencadeia uma cascata que pode aumentar a participação dos receptores AMPA e ativar vias associadas à formação e ao fortalecimento de sinapses.
Entre os efeitos mais estudados estão:
- modulação da sinalização do glutamato;
- maior participação dos receptores AMPA;
- ativação de proteínas como BDNF e de vias como mTOR, ligadas à plasticidade sináptica;
- mudanças na conectividade entre regiões pré-frontais e límbicas relacionadas ao humor e à resposta ao tratamento.
Grande parte dos detalhes moleculares foi demonstrada em estudos experimentais. Em humanos, pesquisas com neuroimagem já identificaram mudanças de conectividade associadas à resposta antidepressiva. Por isso, é mais preciso falar em neuroplasticidade e fortalecimento de conexões do que em “regeneração de neurônios”.
Por que a cetamina pode agir mais rápido que outros antidepressivos?
Nos antidepressivos convencionais, uma melhora clínica importante costuma aparecer depois de algumas semanas. A cetamina inicia uma cascata diferente logo após a aplicação, e estudos clínicos em depressão resistente observaram redução dos sintomas ainda nas primeiras horas, frequentemente avaliada em 24 horas.
Esse é um benefício clínico relevante: para parte dos pacientes que não respondeu às opções habituais, a cetamina oferece a possibilidade de uma resposta mais rápida. Nem todas as pessoas respondem da mesma forma, e uma única aplicação não define o resultado do tratamento.
Quando há indicação, o protocolo da Genuine utiliza um ciclo de 8 a 12 aplicações, que pode ser estendido conforme o caso. A evolução clínica, a tolerabilidade e a duração do benefício orientam os passos seguintes.
Os estudos clássicos sobre ação rápida utilizaram principalmente cetamina por via intravenosa. Na Genuine, o protocolo utiliza escetamina por via subcutânea. A formulação, a via e o número de aplicações são definidos individualmente pelo psiquiatra.
A possibilidade de resposta rápida é especialmente relevante em quadros de depressão resistente, depressão grave com prejuízo funcional importante e situações que exigem uma estratégia diferente após tentativas adequadas com outros tratamentos.
Quando a melhora acontece, ela pode abrir uma janela valiosa para retomar psicoterapia, rotina, sono, atividade física e outras medidas capazes de sustentar a recuperação.
A cetamina causa dependência ou efeitos colaterais?
Em ambiente médico, com indicação adequada, dose controlada e monitorização, a cetamina e a escetamina apresentam um perfil de segurança favorável. Durante e logo após a aplicação, algumas pessoas podem sentir dissociação, tontura, náusea, sonolência ou aumento transitório da pressão arterial. Esses efeitos costumam ser breves e regredir durante o período de observação.
A cetamina tem potencial de uso indevido e dependência, principalmente em contextos não médicos, com uso frequente, doses elevadas e ausência de controle. Isso é diferente de um protocolo supervisionado, que inclui avaliação, dose definida, monitorização e acompanhamento. Uma revisão sistemática publicada em 2026 não identificou casos de dependência iatrogênica, busca compulsiva pela substância ou abstinência nos estudos de manutenção incluídos, embora a vigilância clínica continue fazendo parte do cuidado.
A avaliação psiquiátrica é importante para confirmar a indicação e identificar situações que exigem precauções adicionais. O tratamento também deve ser integrado às demais abordagens necessárias para cada pessoa.
Na Genuine Mental Health, o plano é individualizado e acompanhado ao longo do ciclo, para que resposta e tolerabilidade orientem cada decisão.
Dúvidas frequentes sobre como a cetamina age
Quanto tempo a cetamina leva para agir na depressão?
Em parte das pessoas com depressão resistente, a redução dos sintomas pode começar nas primeiras horas ou nos primeiros dias. Estudos clínicos costumam avaliar uma resposta inicial em 24 horas, mas o tempo e a intensidade variam de pessoa para pessoa.
A cetamina cria novas conexões no cérebro?
Ela ativa vias relacionadas à plasticidade sináptica, incluindo BDNF e mTOR, e pode favorecer a formação e o fortalecimento de conexões. Isso não significa que a cetamina “regenere neurônios” de forma literal.
Por que a cetamina pode agir mais rápido que outros antidepressivos?
Porque atua principalmente no sistema do glutamato e inicia uma cascata diferente daquela produzida pelos antidepressivos convencionais. Essa via pode gerar mudanças funcionais em um intervalo mais curto.
O efeito da cetamina pode durar?
A duração varia. Quando existe resposta, aplicações repetidas e estratégias de manutenção podem prolongar o benefício. O acompanhamento clínico orienta a frequência e a extensão do protocolo em cada caso.
Atualização e revisão clínica: Dr. Rogério Onofre — CRM-SP 192.427, RQE 109.401 — 10 de setembro de 2026.
Referências
- Zarate CA Jr. et al. A randomized trial of an N-methyl-D-aspartate antagonist in treatment-resistant major depression. Archives of General Psychiatry. 2006;63(8):856–864.
- Zanos P, Gould TD. Mechanisms of ketamine action as an antidepressant. Molecular Psychiatry. 2018;23(4):801–811.
- Li N. et al. mTOR-dependent synapse formation underlies the rapid antidepressant effects of NMDA antagonists. Science. 2010;329(5994):959–964.
- Rengasamy M. et al. Neural connectivity moderators and mechanisms of ketamine treatment among treatment-resistant depressed patients: a randomized controlled trial. EBioMedicine. 2024;99:104902.
- Wasolua TT. et al. A Systematic Review of Long-term Safety Outcomes of Ketamine and Esketamine in Patients with Treatment-resistant Depression. Psychotherapy and Psychosomatics. Publicação antecipada, 2026.
- Conselho Federal de Medicina. Parecer CFM nº 20/2024 — uso de escetamina em transtornos psiquiátricos.
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Giuliana Cláudia Cividanes
CRM 85732 | RQE 64142
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.